Roque Santeiro, 35 anos: o Brasil segue sendo uma grande Asa Branca

Novela foi censurada em 1975 e liberada 10 anos depois, com o fim do regime militar

Publicado há 4 meses
Por Fábio Costa
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Há exatos 35 anos, em 24 de junho de 1985, a TV Globo lançou em seu horário das 20h (hoje 21h) uma de suas novelas mais emblemáticas, sem favor nenhum na expressão. Censurada em 1975, durante o regime militar, Roque Santeiro, de Dias Gomes, enfim chegava ao vídeo, como parte das modificações no Brasil com o advento da chamada Nova República.

Depois de 21 anos de governos militares, em março de 1985 tomou posse na presidência da República o maranhense José Sarney, vice-presidente do mineiro Tancredo Neves, empossado devido aos problemas de saúde do titular que resultaram em sua morte, no mês de abril. Embora tenham sido eleitos de forma indireta, pelo Congresso Nacional, Tancredo e Sarney eram os primeiros civis a liderar o Poder Executivo brasileiro em décadas.

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A esperança de novos tempos contagiou o povo brasileiro, e todos os setores, notadamente a cultura, tão visada e boicotada ao longo da ditadura, que ganhava novo fôlego ante os novos ares nacionais. Na televisão, Roque Santeiro é talvez o maior dos símbolos desse momento, tanto pelo teor de sua narrativa quanto pela proibição, que a deixou 10 anos impedida.

Logotipo da novela Roque Santeiro (Reprodução/Memória Globo)

Dias Gomes escreveu 50 capítulos da novela em 1975, e foram gravados cerca de 30 até que, no dia marcado para a estreia, 27 de agosto, a Censura Federal notificou a emissora: a novela estava proibida para qualquer horário, mesmo que fossem feitos novos cortes, e fatalmente seriam, além dos já indicados pelos censores que analisaram os capítulos gravados.

Enquanto o problema de erguer do zero em tempo recorde uma nova novela, com um elenco já contratado para a produção censurada, foi resolvido pelo diretor Daniel Filho e pela novelista Janete Clair, daí surgindo Pecado Capital, um clássico, outra história da autora era reapresentada em compacto: Selva de Pedra (1972/73). O resto é História.

Lucinha (Betty Faria) e Carlão (Francisco Cuoco) em Pecado Capital (divulgação)

Anos depois, quando alguns arquivos do regime militar vieram à luz, enfim se descobriu por que Roque Santeiro, previamente analisada – como tudo que se fazia na TV – e liberada pela Censura, acabou proibida.

Os órgãos de inteligência do governo gravaram uma ligação de Dias Gomes com o historiador Nelson Werneck Sodré, na qual o dramaturgo confidenciava que a novela era nada mais, nada menos do que uma adaptação de seu texto teatral O Berço do Herói, cuja encenação estava proibida desde 1965.

O personagem equivalente a Roque Santeiro se chamava Cabo Jorge, e era um pracinha tido como herói de guerra em sua terra natal, apesar da grande verdade: nada tinha de heroico, uma vez que desertara do front e sumira pela Europa, até retornar à pequena cidade ameaçando acabar com a conjuntura que a fez desenvolver-se, em torno de sua figura.

A patente militar do personagem e a deserção levaram à censura do texto. “Esses militares são muito burros”, disse Dias a Nelson quando perguntado se não perceberiam a semelhança das histórias.

Na televisão, a cidade que concentra a história ganhou o nome de Asa Branca, e sua localização era incerta: ficava em algum lugar do Brasil, talvez no Nordeste, quem sabe.

Há 17 anos, Luís Roque Duarte (José Wilker), um rapaz com grande habilidade de modelar santos, daí vindo seu apelido de Roque Santeiro, coroinha da igreja, filho de um vaqueiro, morreu durante a invasão da cidade pelo bando do sanguinário Navalhada (Oswaldo Loureiro), ao defender a igreja do saque iminente.

Os restos mortais de Roque foram encontrados num rio das redondezas, junto de um gibão com o qual o jovem vivia vestido. Desconsolado, o pai, Salustiano (Nelson Dantas), entrou num processo de loucura.

Mudou-se para o local onde o corpo do filho foi achado e passou a ser chamado de Beato Salu, procurado para dar conselhos aos romeiros que passaram a frequentar a cidade.

Outro fato que concorre para a fama de Roque como milagreiro é a suposta aparição do mártir para a menina Lugolina, que, ao ouvir dele o conselho de passar por cima de feridas que possuía a lama do rio, curou-se delas. Estava iniciado o culto a Roque Santeiro, cada vez mais forte e atraindo mais gente para a cidade, digno até uma estátua diante da igreja matriz.

Claro que os políticos e comerciantes locais arrumam um jeito de tirar vantagem do mito. Amigo de infância de Roque, José Ribamar de Aragão (Armando Bogus) ergue grande patrimônio com a venda de medalhas e outros apetrechos para turistas, o que lhe rende o apelido de Zé das Medalhas.

Ele se casou justamente com Lugolina, a Lulu (Cássia Kiss), que luta na idade adulta para ser uma mulher normal, como todas as outras, na contramão da aura santificada que querem impor-lhe.

O barbeiro Florindo Abelha (Ary Fontoura), conhecido como Seu Flô, na atualidade é prefeito de Asa Branca, ao passo que sua mulher Dona Pombinha (Eloísa Mafalda) lidera as beatas locais e cuida da casa dos ex-votos de Roque.

A filha dos dois, Mocinha (Lucinha Lins), antiga namorada do mártir, segue solteirona e casta, o que lhe rende a alcunha de “Viúva Virgem”, apesar do grande amor que o soturno Professor Astromar (Rui Rezende) sente por ela.

No entanto, ninguém ganhou mais com o mito de Roque Santeiro, e em muitos aspectos, do que o casal formado por Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e a Viúva Porcina (Regina Duarte).

Amantes há muitos anos, eles na verdade usufruem de uma grande mentira: Malta a fez ser tida por viúva de Roque, quando ela chegara à cidade atrás do fazendeiro, e com isso Porcina tornou-se a pessoa mais respeitada de Asa Branca, quase uma santa na Terra. O que obviamente afastaria suspeitas do caso dos dois.

Só o “Rei da Carne Verde”, um dos maiores criadores de gado do País, e a “viúva que foi sem nunca ter sido” sabem da verdade. O prefeito, Zé das Medalhas e todos os outros habitantes, incluindo o Padre Hipólito (Paulo Gracindo), que nem aprecia o culto à figura de Roque Santeiro, seu antigo coroinha, ignoram o fato de Porcina jamais foi casada.

A projeção da história de heroísmo de Roque e do poder que ele teria conferido às águas de Asa Branca é tão grande que uma equipe de cinema do Rio de Janeiro vai para a cidade filmar a história do santeiro.

Liderados pelo cineasta Gerson do Valle (Ewerton de Castro), eles se instalam na Pousada do Sossego, antigo convento alugado pelo Padre Hipólito para que Matilde (Yoná Magalhães) fizesse o local para hospedagem.

Matilde também é uma figura atraída pela cidade e pelo retiro do local para recomeçar sua vida, destruída após escolhas erradas no amor, especialmente o mau-caráter Ronaldo César (Othon Bastos) que, claro, aparece por lá para infernizá-la.

Amiga de Sinhozinho Malta, ela tem nele uma proteção garantida, e mantém também a boate Sexus, onde as belas dançarinas Rosaly (Ísis de Oliveira) e Ninon (Cláudia Raia) causam furor.

Os fatos do cotidiano da cidade correm dentro da normalidade, com um adultério aqui, um discurso entediante do professor ali, uma confusão das beatas acolá.

Até que belo dia surge em Asa Branca um homem bem vestido, educado, que se admira do progresso do antigo vilarejo e não vê razão aparente para isso. Ele procura o Padre Hipólito para pedir seu perdão e entregar a ele uma encomenda especial.

O tal homem é o próprio Roque Santeiro, mais vivo do que nunca, após quase 20 anos na Europa, para onde viajara depois de fugir da cidade com um valioso ostensório da igreja em seu poder – e o mesmo que ele agora restitui ao padre e à paróquia.

O guardião do templo foi na verdade quem o saqueou… E deixou que a culpa recaísse sobre Navalhada, que está preso até hoje e deseja se vingar da injustiça. Afinal, além de tudo ele é tido como assassino do coroinha.

A propósito: o corpo encontrado no rio era de um membro do bando de ladrões, a quem Roque dera seu gibão para que ele se aquecesse enquanto ambos foram mantidos reféns.

A volta de Roque a Asa Branca provoca grande desespero e muita apreensão nos poderosos da cidade. Para Sinhozinho Malta, além do problema que representa para todos a presença do “carcará sanguinolento”, como ele o apelida, há outro.

Como mantê-lo afastado de Porcina, sua amante, já que para a cidade Roque e ela eram casados e, obviamente, com ele vivo podem, e até devem, retomar o casamento?

Ciente da confusão que causa, Roque vai ficando em Asa Branca, envolve-se com Porcina, diverte-se com o desespero do prefeito, do empreendedor e do “coronel”, que detesta o rótulo que mais lhe cabe, e passa a influir em questões importantes para o povo local, por trás da identidade de “Seu Duarte”.

O progressista Padre Albano (Cláudio Cavalcanti), ou “padreco vermelho” para Malta, torna-se um de seus grandes amigos. Bem como Tânia (Lídia Brondi), a filha única de Malta, que detesta Porcina e é apaixonada por Albano, depois de um namoro sem maiores consequências com o galã de cinema Roberto Mathias (Fábio Jr.), que interpreta Roque no filme.

No elenco, ainda as presenças de Wanda Kosmo, Nélia Paula, Luiz Armando Queiroz, João Carlos Barroso, Arnaud Rodrigues, Elizângela, Milton Gonçalves, Tony Tornado, Ilva Niño (“Miiiiiiinaaaaaa!!!”), Waldyr Sant’Anna, Cristina Galvão, Luiz Magnelli, Lícia Magna, Alexandre Frota, Cláudia Costa, os então estreantes Patrícia Pillar, Maurício Mattar e as participações mais do que especiais de Lilian Lemmertz, Cláudio Gaya, Jorge Fernando, Jorge Coutinho, Dhu Moraes, Dennis Carvalho, Ângela Leal, Paulo César Peréio e Tarcísio Meira, entre outros.

Uma novela que tem histórias de amor, mas não é exatamente romântica. Que faz largo uso da comédia, sem ser parecida com as novelas das 19h, já àquela altura consagradas pelo gênero. Que trata de política e grandes temas nacionais como o machismo e o coronelismo tão enraizados.

Como a religiosidade e sua exploração comercial por tanta gente, a corrente renovadora da chamada “Teologia da Libertação”, em voga na época. Um projeto que trazia para a faixa das 20h um tipo de novela que não figurava nela até ali. Uma novela que representava em si mesma a liberdade que os mais de 20 anos de ditadura tiraram dos brasileiros.

Essa conjunção de fatores, aliada a um texto inteligente, diversos acontecimentos movimentando o enredo, direção e produção competentes e um elenco talentoso em estado de graça, se não explicam, ajudam a entender por que Roque Santeiro foi um fenômeno de audiência tão grande, lembrado até hoje e copiado por diversas novelas.

Nordestino, escritor e roteirista de TV como Dias Gomes, Aguinaldo Silva foi escolhido para atualizar os primeiros 50 capítulos e conduzir Roque Santeiro, tarefa para a qual contou com a colaboração de Marcílio Moraes e Joaquim Assis. Por volta do capítulo 160, Dias Gomes reassumiu a escrita da novela e Aguinaldo deixou-a, o que rendeu muito e é relembrado até hoje.

Sem Aguinaldo, a novela seria outra, sem dúvida, talvez melhor, talvez pior. Jamais saberemos. Assim como jamais saberemos se, caso tivesse ido ao ar entre 1975 e 1976 como se pretendia, Roque Santeiro teria sido o fenômeno que se conhece.

Talvez, já que a teledramaturgia global estava consolidada na ocasião. Ou quem sabe não fosse, com a tônica à época mais adequada às novelas das 22h eventualmente rejeitada, pelo estranhamento causado.

Por outro lado, sem Dias, nada haveria. A história em si, os personagens, suas relações, as bases lançadas em quase dois meses de capítulos já prontos – embora um pouco menores do que os capítulos dos padrões de 1985 –, tudo isso é dele.

Tanto um quanto o outro foram fundamentais para o espetáculo de dramaturgia da melhor qualidade que os brasileiros acompanharam com tanto ardor. Como disse Ismael Fernandes em seu Memória da Telenovela Brasileira (Brasiliense, 1987), “É um equívoco diminuir Aguinaldo em favor de Dias. Como é exagero enaltecer Aguinaldo em detrimento de Dias”.

E, assim como a importância de Dias se comprova em outros tantos trabalhos, na própria TV e no teatro – O Pagador de Promessas, O Santo Inquérito, O Bem-amado, Saramandaia –, a de Aguinaldo se ampliou e confirmou posteriormente, em diversos momentos – Tieta, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida, Senhora do Destino.

Dirigida por Paulo Ubiratan, Marcos Paulo, Gonzaga Blota e Jayme Monjardim, Roque Santeiro teve 209 capítulos, o último dos quais apresentado em 21 de fevereiro de 1986.

Seus índices de audiência foram, em média, de 74% em São Paulo e 78% no Rio de Janeiro. Segundo o livro Almanaque da TV, de Rixa (Objetiva, 2000), “a novela da TV Globo foi vista com paixão por 70 milhões de brasileiros”.

Uma segunda exibição ocorreu entre 1º de julho de 1991 e 3 de janeiro de 1992, na faixa das 17h, antecipando o início da faixa nobre da casa num momento de concorrência acirrada com o SBT.

O Vale a Pena Ver de Novo teve Roque Santeiro como seu cartaz de 11 de dezembro de 2000 a 29 de junho de 2001, numa iniciativa tardia de celebração dos 35 anos da emissora (completados em abril) e dos 50 anos da televisão brasileira (setembro). Entre 18 de julho de 2011 e 4 de maio de 2012, a novela foi novamente reprisada, na íntegra, no Viva.

Isso depois de um ano de seu lançamento em DVD pela Globo Marcas, num box que a resumiu em cerca de 50 horas divididas em 16 discos. Foi a primeira novela da TV Globo que chegou ao público em DVD. Em breve, será inserida no catálogo do Globoplay.

É um pouco triste perceber que, apesar de tantos maus momentos já vividos no País, devidamente registrados pela dramaturgia da forma possível, o Brasil siga sendo uma imensa Asa Branca.

Grandes mentiras e farsas ganham peso de verdades, figuras de mau-caráter não raro ascendem ao poder, a fé e a pouca instrução sejam usadas como instrumento de controle em nome de benefícios particulares. A hipocrisia e uma exacerbada moralidade prosseguem mascarando muita sujeira.

Na ficção não foi diferente, inclusive: o final reservou a Asa Branca não a revelação da mentira e o fim da farsa, mas um reforço ao caso do santo que morreu defendo sua terra e sua gente. Tudo voltou a ser como era antes do regresso do morto que não havia morrido. Como condenar Dias Gomes?

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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