Vale a Pena Ver de Novo: 40 anos do compromisso dos noveleiros nas tardes da Globo

Desde a estreia com 'Dona Xepa', sessão já exibiu quase 100 reprises

Publicado há 5 meses
Por Fábio Costa
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Há 40 anos, em 5 de maio de 1980, a TV Globo passou a denominar sua faixa de reprises de novelas à tarde de Vale a Pena Ver de Novo. A saber, o título já era utilizado desde os anos 1960, pela TV Excelsior e pela TV Tupi, para reapresentar programas da linha de shows, e pela própria Globo, que reprisava jornalísticos nas manhãs de sábado.

Além disso, igualmente desde a década de 1960 tivemos na faixa da tarde do canal dos Marinho reprises de novelas, embora em condições diferentes das que conhecemos há tempos.

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Só para ilustrar, produções como A Grande Mentira (1968/69), de Hedy Maia, e O Primeiro Amor (1972), de Walther Negrão, reestrearam à tarde enquanto sua exibição transcorria normalmente no horário noturno. Bem como prosseguiram normalmente até que chegassem ao final à tarde enquanto à noite já haviam dado espaço a outras novelas.

Na ocasião, a TV Globo utilizava um ou dois horários vespertinos, entre 12 e 14h, com variações, para proporcionar à audiência uma alternativa para que pudesse não apenas acompanhar as novelas da casa como também atrações de outras emissoras, eventualmente, ou dar conta de suas obrigações fora de casa.

Entre 1974 e 1976 os horários vespertinos de reprises de novelas na Globo foram ocupados por enlatados, como Julia e Jeannie É Um Gênio. Em abril de 1976, onze meses depois de sua estreia original às 18h, a novela Helena, de Gilberto Braga, com base no romance de Machado de Assis, inaugurou novo ciclo de reapresentações de novelas pela TV Globo à tarde.

Devido aos limites etários, temáticos e horários impostos pela Censura Federal na época, a grande maioria das produções reprisadas entre 1976 e 1980 à tarde foi exibida pela primeira vez na faixa das 18h, de espírito literário.

Em menos de um ano as adaptações das 18h voltavam às 13h30. Foi esse  o caso de A Moreninha (1975/76) e Escrava Isaura (1976/77), entre tantas outras. As exceções foram, pela ordem de reprise, Locomotivas (1977), Carinhoso (1973/74) e Estúpido Cupido (1976/77), novelas produzidas para a faixa das 19h.

Em 1980, ano de seus 15 anos, a TV Globo adotou o nome Vale a Pena Ver de Novo para o horário das reprises de suas novelas à tarde. Quando a nova nomenclatura foi implantada, o horário das novelas em segunda exibição mudou para as 16h45min. Todavia, após poucos dias voltou para as 13h45min, logo depois do Jornal Hoje, faixa na qual se manteve com pequenas variações até a década de 1990.

A primeira novela da nova fase das reprises foi Dona Xepa (1977), de Gilberto Braga com base em texto teatral de Pedro Bloch. Originalmente exibida às 18h, claro. Êta Mundo Bom! (2016), de Walcyr Carrasco, estreia mais recente, é a 95ª atração do Vale a Pena Ver de Novo. Entre as novelas é a 80ª.

Quatro anos se passaram até que uma novela das oito chegasse à sessão

Somente em 1984 foi que o Vale a Pena Ver de Novo apresentou sua primeira novela das 20h: Água Viva (1980), de Gilberto Braga. Nesse ínterim, a distribuição entre histórias feitas para os horários das 18h e das 19h foi mais justa: de nove novelas anteriores a Água Viva na sessão, cinco foram das 18h e quatro, das 19h.

No TBT da TV, que fazemos no canal do Observatório da TV no YouTube, celebramos em fevereiro os 40 anos da estreia da novela. Veja no vídeo abaixo:

A média de tempo entre o final à noite e a reestreia à tarde nessa época foi de dois anos e meio. Todavia, houve casos de voltas precoces como a de As Três Marias, de Wilson Rocha, que saiu do ar em abril de 1981 e voltou em agosto de 1982. A novela foi livremente inspirada no livro de Rachel de Queiroz.

Ou os seis anos e meio que separaram o término de A Moreninha, de Marcos Rey a partir da obra de Joaquim Manuel de Macedo, em fevereiro de 1976, de seu retorno em outubro de 1982. Mas vale lembrar que nesse meio tempo, como dito acima, a novela já havia sido reprisada no horário uma vez.

Depois de Água Viva, apenas em 1990 o Vale a Pena Ver de Novo exibiria outra novela das 20h. No caso, Roda de Fogo (1986/87), de Lauro César Muniz, escrita com Marcílio Moraes.

Entre 1984 e 1990, portanto, as novelas das 18h e 19h seguiram imperando na sessão, com uma exceção: Gabriela (1975), exibida às 22h originalmente. E essa nem era a primeira reprise da adaptação da obra de Jorge Amado por Walter George Durst: em 1979 e em 1982 já haviam ocorrido repetecos dela.

Ademais, nesse período sete das atrações haviam sido novelas das 19h, contra seis das 18h, refletindo a boa fase das comédias do início da noite nos anos 1980. Jogo da Vida (1981/82), Vereda Tropical (1984/85) e Brega & Chique (1987), cartaz atual do Viva, foram alguns dos sucessos que tiveram segunda exibição vespertina nessa época.

A partir da década de 1990, embora novelas exibidas mais cedo tenham seguido com mais chance de voltar no Vale a Pena Ver de Novo, que por ir ao ar à tarde acolhe bem histórias mais leves e “para a família”, os folhetins das 20h foram mais recorrentes.

No entanto, das 80 novelas já reprisadas, 31 foram originalmente exibidas às 18h. Empatados com 24 títulos cada um estão os horários das 19h e das 20h. Das 22h, como dito acima, somente uma.

Mudança de horário e atrações mais curtas, por período também curto

Nos anos 1990, estiveram entre as atrações da sessão de reprises produções como Top Model (1989/90), de Walther Negrão e Antonio Calmon; Sinhá-Moça (1986), de Benedito Ruy Barbosa a partir da obra de Maria Dezonne Pacheco Fernandes; Meu Bem, Meu Mal (1990/91), de Cassiano Gabus Mendes; e O Salvador da Pátria (1989), de Lauro César Muniz.

Só para ilustrar, nesses 40 anos de Vale a Pena Ver de Novo apresentando novelas, o retorno de Top Model foi o mais rápido: encerrada em maio de 1990, já em janeiro de 1991 a história estava de volta. Em 1994, o até ali semanal Vídeo Show passou a diário, e foi inserido entre o Jornal Hoje e as reprises de novelas, que com isso mudaram de horário para as 14h.

Outra curiosidade sobre o Vale a Pena Ver de Novo nos anos 1990 foi a apresentação de minisséries durante três meses (abril, maio e junho) de 1991. Além da novela em cartaz, que era justamente Top Model, a sessão também exibiu nesse período Riacho Doce (1990), O Pagador de Promessas (1988), O Tempo e o Vento (1985) e Lampião e Maria Bonita (1982), a primeira das minisséries brasileiras.

O ano de 1991 marcou um dos momentos de grande competição da TV Globo com o SBT, e a dobradinha de dramaturgia vespertina fazia com que o público ficasse ligado na Vênus Platinada mais cedo do que de costume. Uma curiosidade é que em maio de 1991 o jornal O Globo noticiou que Grande Sertão: Veredas (1985) seria reprisada no Vale a Pena Ver de Novo no mês seguinte, mas isso não aconteceu.

Em julho de 1991, essa sessão “extra” de dramaturgia em reprise foi mudada para a faixa das 17h, com Roque Santeiro (1985/86), de Dias Gomes com coautoria de Aguinaldo Silva – mas sem o nome Vale a Pena Ver de Novo, ao contrário do que muita gente diz por aí.

A reprise da novela ficou em cartaz ao longo de todo o segundo semestre daquele ano, e funcionava como sala de espera para a grade noturna, que seguia com as novelas das 18h e das 19h, o jornal local, o Jornal Nacional e a novela das 20h.

Alavancando Salomé e Vamp, Roque Santeiro ajudava a conter a fuga de espectadores para o noticiário popular do Aqui Agora, no SBT.

A classificação indicativa e as dificuldades na escolha das reprises

Justamente no ano 2000, a entrada em vigor da Portaria 796, que tornou mais estreitos os limites da classificação etária por horário para a apresentação de conteúdos na televisão, dificultou um pouco a vida da TV Globo em se tratando das escolhas para o Vale a Pena Ver de Novo.

Assim como nos tempos da Censura, a emissora praticamente ficou refém das novelas “amenas” das 18h e das 19h. Ou teria que se conformar em apresentar versões bastante cortadas das novelas das 20h, a fim de adequá-las ao que o horário (já 14h30 a essa altura) permitia. A escolha de A Próxima Vítima (1995), de Silvio de Abreu, para reprise a partir de julho de 2000 já foi sob as novas bases de análise.

Nessas condições, a TV Globo pensou em apresentar outros formatos de dramaturgia no Vale a Pena Ver de Novo. A intenção era proporcionar ao público uma variação que pudesse ajudar na audiência do programa, além de tentar escapar às amarras da classificação indicativa sem prejudicar a qualidade do que fosse reprisado. Afinal, os telespectadores não aceitaram bem cortes em cenas fundamentais para os enredos das novelas, para que elas pudessem ser veiculadas à tarde.

Um tropeço ajuda a iniciar a era das “rerreprises”

Em julho de 2001, o programa interativo Você Decide, que entre 1992 e 2000 exibiu semanalmente histórias com temas polêmicos, cujo final o público decidia através de telefonemas, foi cartaz do Vale a Pena Ver de Novo durante três semanas.

Novos finais para as histórias poderiam ser exibidos, já que a votação foi novamente aberta ao público nas reprises. O final escolhido quando da apresentação original dos episódios era declarado, para ver se os espectadores mantiveram a mesma opinião de antes, ou se a modificaram.

Todavia, alguns fatores levaram o Você Decide a ter um dos piores desempenhos de uma atração do Vale a Pena Ver de Novo nesses 40 anos. Fosse pelo estranhamento ao formato, depois de novelas por tantos anos, fosse pela inadequação da nova roupagem do interativo, com Susana vestida como adolescente, fazendo intervenções num cenário que reproduzia um quarto, a audiência foi muito baixa.

O que levou a TV Globo a escalar urgentemente outra atração para a sessão. Uma novela, claro. Isso após a nova fase pretender exibir séries, entre elas Mulher, também na época recém-encerrada.

A Gata Comeu (1985), de Ivani Ribeiro, foi a escolhida para o Vale a Pena Ver de Novo voltar ao filão que não deveria ter abandonado. Anteriormente, a novela já havia ocupado a faixa (em 1989), e com isso tornou-se a primeira a ser exibida duas vezes como atração da sessão.

No entanto, a onda de “rerreprises”, novos retornos de novelas já reprisadas, não começou aí. A Gata Comeu foi um caso isolado em 2001, e A Viagem (1994), também de Ivani, foi outro em 2006… Só na década seguinte a prática se tornou mais comum na Globo.

Nos anos 2000, o Vale a Pena Ver de Novo seguiu sem demonstrar padrões para suas escolhas. Afora o fato de em geral terem sido sucessos nas exibições originais, as novelas variavam em temática, horário original e distância entre o término noturno.

Tanto uma novela voltou quase 12 anos depois, caso de Deus nos Acuda (1992/93), de Silvio de Abreu, quanto O Cravo e a Rosa (2000/01), de Walcyr Carrasco e Mário Teixeira, estreou pela segunda vez apenas um ano e 10 meses depois de terminar às 18h.

Na década de 2010, boa parte dos cartazes do Vale a Pena Ver de Novo já havia passado pela sessão numa ocasião anterior. Isso se deveu em parte aos mesmos problemas de classificação indicativa dos anteriores.

Sem falar no sucesso do Canal Viva, que entrou no ar em 2010 na TV por assinatura e resgatou desde então cerca de 40 novelas de sucesso da história da TV Globo.

Até aqui, 10 novelas das 80 selecionadas para a sessão estiveram nela duas vezes. Só para exemplificar, na onda de “rerreprises” que assolou o Vale a Pena Ver de Novo estiveram Mulheres de Areia (1993), de Ivani Ribeiro, O Rei do Gado (1996/97), de Benedito Ruy Barbosa, e Senhora do Destino (2004/05), de Aguinaldo Silva.

Também foi nesse período que a sessão teve sua mais drástica mudança de horário desde que foi criada. Após muitos anos sucedendo o Vídeo Show na grade e entregando para a Sessão da Tarde, o Vale a Pena Ver de Novo passou das 14h40min para as 16h40min em 2014. De maneira que a TV Globo começou a ter na ocasião três produtos de sua dramaturgia em sequência: a novela em reprise, Malhação e a novela das 18h.

Com toda a certeza, essa aposta em conteúdos que já haviam sido apresentados no Vale a Pena Ver de Novo fez com que algumas novelas dos anos 2000 e 2010 “envelhecessem” para a faixa.

Algumas poucas que acabaram voltando, como Cobras & Lagartos (2006), de João Emanuel Carneiro, e O Profeta (2006/07), de Duca Rachid e Thelma Guedes com base em original de Ivani Ribeiro, não fizeram muito bonito em audiência nas reprises promovidas.

Outras tantas como Um Anjo Caiu do Céu (2001), de Antonio Calmon, Paraíso (2009), de Benedito Ruy Barbosa, Escrito nas Estrelas (2010), de Elizabeth Jhin, e Lado a Lado (2012/13), de João Ximenes Braga e Cláudia Lage, vencedora do Emmy, se encaixam nessa categoria das “esquecidas”.

Com investimento baixo diante dos bons resultados que reprises de novelas de seu vasto acervo rendem, a TV Globo não deve tão cedo se desfazer do Vale a Pena Ver de Novo, verdadeira instituição das tardes da televisão brasileira.

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