Entrevista com Ronnie Von – Parte 1: Do rótulo de “Príncipe” ao prestígio internacional

Cantor, compositor, ator e apresentador, "Tio Ronnie" fala com a simpatia e a sinceridade de sempre

Publicado há um mês
Por Christiano Blota
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Nesta semana, nosso convidado na coluna Por Trás da Tela é o cantor, compositor, ator e apresentador Ronnie Von. Ele é uma das lendas do Brasil, já fez “um pouco de tudo” no nosso cenário artístico.

Ele fala do começo da carreira como cantor, um pouco de suas atuações em TV e cinema e também do ofício de apresentador de TV – hoje podemos vê-lo no YouTube.

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O clima de descontração marcou a entrevista, que foi de fato uma conversa livre, com muitos dados interessantes sobre a vida do artista. O encontro foi tão produtivo que rendeu duas colunas, para que os leitores possam desfrutar bastante das histórias de Ronnie, o “Príncipe”. Confira a primeira delas!

Christiano Blota – Ronnie, você é uma das primeiras pessoas que eu tenho em mente quando se fala de mídia, desde que gravou Cinderela 77 (novela da TV Tupi). Apesar de eu ter nascido em 1972, você foi um dos primeiros rostos que eu vi na vida e depois, claro, acompanhei sua carreira.

Ronnie VonQue divertido isso, que bonitinho… Obrigado, isso justifica toda uma carreira.

CB – Quem sabe um dia eu consiga abraçá-lo pessoalmente tomando um Primitivo de Manduria (vinho que me veio à cabeça).

RV – Você gosta de Itália, um vinho italiano?

CB – Adoro vinho.

RV – Eu também. Sou sommelier, estudo muito.

CB – Você é profissional e eu ainda estou engatinhando, entendo de algumas regiões e uvas.

RV – Você sabe que o Primitivo de Manduria, levaram essa cepa para a Califórnia, e se deu muito bem lá. É uma uva espetacular.

CB – Eu fui à Califórnia depois do filme Sideways, mas não fui muito feliz degustando vinhos na região, acho que me levaram a lugares mais preocupados com o turismo do que com o bom vinho.

RV – Mas olha, tem umas coisas espetaculares por lá. A uva primitivo de lá se chama Zifandel. Você conhecendo uma boa verificação de Zifandel, que seria o Primitivo de Manduria, é espetacular. Um dos impecáveis vinhos do mundo é californiano, chama-se Robert Mondavi, mas não são todos, claro. Degustar vinho tem dessas coisas. O pior vinho que eu tomei na vida foi um francês, e o melhor também foi francês.

CB – É verdade. Nós brasileiros também fazemos bons vinhos.

RV – Essa região do Espírito Santo do Pinhal, por exemplo, é boa para vinhos. O melhor espumante do planeta é brasileiro.

CB – Nossa conversa está tão boa que eu nem comecei a entrevista, na verdade nem abordei os assuntos que eu me propus. Um dia quero conversar contigo pessoalmente e te dar um grande abraço.

RV – Vai acontecer com toda a certeza, pode acreditar.

CB – Você tem uma história com o grupo The Brazilian Bitles (importante banda de rock dos anos 1960).

RV – Sim. Eles me deram o nome de Ronnie Von. Eu estava no Litlle Club, lá no Beco das Garrafas (Rio de Janeiro), para assistir o Brazilian Bitles, nós estávamos sempre juntos. Meu pai na época era ministro plenipotenciário em Londres, última parte da carreira diplomática, e na época a febre eram os Beatles. Meu pai me trazia os últimos discos da banda, que demoravam de seis meses a um ano. Quando ele trazia, eu levava para o Brazilian Bitles, eles gravavam em fita o disco em vinil e ensaiavam.

Eu ensaiava com eles. Havia a apresentação do grupo no Beco das Garrafas (chamávamos no Rio de “Mingau”, um tipo de matinê). Começava às duas da tarde, então, você chegava da praia, comia uma coisinha e ouvia as bandas de garagem.

Não podia bebida alcoólica, então, eu para fazer charme tomava água tônica com rodela de limão, para fingir que estava tomando gim-tônica. Em um determinado momento o Eli Barra (um dos integrantes do grupo) me chamou para cantar. Minhas pernas tremeram.

O início da carreira e o convite para o primeiro álbum

Eu saí correndo para ir embora e os caras me pegaram e me jogaram no palco. Quando eu digo “jogaram”, jogaram mesmo, porque eu caí de quatro no palco. Levantei e cantei “You’ve Got To Hide Your Love Away”, do album “Help” (Beatles), me aplaudiram e eu me senti um astro.

Desci e na base da escada estava um jovem diretor de gravadora, João Araújo, pai do Cazuza. Ele me disse: “E aí, menino, vamos gravar um disco”. Eu disse: “Mas de jeito nenhum. A minha família me enforca”. Ele disse que era somente uma experiência. “Como você canta em inglês e português vamos fazer uma tentativa, só para ver como fica”.

Fui com uma banda de amigos para o estúdio, fiquei fascinado com aquilo. Gravei “You’ve Got To Hide Your Love Away”, fiz uma versão de outra música dos Beatles chamada “Girl” e também gravei com o nome de “Meu Bem”.

Um dia eu estava dirigindo meu carro e ouvindo um programa na Rádio Tamoio AM, se chamava Disco Estrelinha, que tocava novidades do rock do mundo inteiro, e ouço a minha música. Era eu cantando, a perna começou tremer, encostei o carro no meio-fio, foi uma das maiores emoções da minha vida.

Os problemas com a família por causa da vida artística

Cheguei em casa correndo, liguei para todos os amigos e ninguém ouviu. Eu fiquei frustrado. Mas alguém ouviu: uma tia-avó matriarca, que não gostou. Falou que iria jogar a família na lama. “Será que nós criamos uma cobra para nos picar?”. Foi nesse nível. Reunião de família, confusão.

Eu perdi de certa forma o suporte familiar. Minha mãe foi a que me deu mais “trela”, ao contrário da família do meu pai (todos cabeça coroada, vivendo no Império, coisa mofada), era filha de imigrante pobre que fez fortuna no Brasil. Então, ela tinha visão diferente.

Ela disse: “Meu filho, se é isso que você quer, siga seu caminho. Em qualquer atividade profissional você vai encontrar os bons, os medíocres e os maus. Faça isso com o coração e tente ser o melhor”.

Só concordo com a família em um aspecto. Realmente não era ambiente para cavalheiros. Mas era o meu sonho. Meus amigos da faculdade (Economia) também viraram as costas para mim porque era música de inglês cabeludo que cantava rock, guitarra elétrica.

Até que que eu fiz o programa do Brazilian Bitles, que era o BBC Club, na TV Excelsior, no Rio de Janeiro, passava no sábado e vinha para São Paulo uma semana depois (não tinha rede de televisão).

O ingresso no cast da TV Record

Na semana depois que eu cantei, estavam na casa do Agnaldo Rayol (cantor e amigo) assistindo ao programa do Brazilian Bitles, o Tuta (Antonio Augusto Amaral de Carvalho), o Maneco (Manoel Carlos) e o meu querido amigo até hoje, Nilton Travesso, que eram da principal equipe do programa Corte Rayol Show, da TV Record, de grande sucesso.

Por acaso estavam assistindo à Excelsior, o Nilton me viu e perguntou: “Quem é esse? Manda trazer”. Você não tem ideia. Me pegaram em casa no Rio de Janeiro, me levaram para o aeroporto, viajaram comigo. Cheguei a São Paulo, mais gente me esperando, me levaram para um hotel impecável.

Saio de lá, vou para a televisão, canto ao vivo, e me deram dinheiro. Disse: “Meu Deus do céu. E ainda ganha?”. Lembro que meu cachê foi 100 (cruzeiros), não sei que 100 foi, sei lá o que era.

De repente me chamaram de novo para fazer o programa e eu pensei: “Vou para São Paulo”. Eu fui morar em um hotelzinho nada elegante, na Praça Júlio Mesquita, perto da Rua Aurora. Hoje é pior, Cracolândia, mas na época também não era legal.

Meu pai nessa época era presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool. Ele vinha para São Paulo, de vez em quando. Nesse dia ele veio e viu o lugar onde eu estava. Ele disse: “Meu filho. Eu, de fato, tenho que tirar o chapéu porque você demonstrou que sabe o que quer. Esse é um sonho que você está perseguindo, e eu faço questão de estar ao teu lado”.

Não me deu dinheiro, não fez nada, mas eu fui para um apartamento alugado na Vila Nova conceição, que não era ainda o que é hoje. Vila Nova conceição atualmente é um negócio maravilhoso. Eu me mudei para lá e já podia pagar com meu dinheirinho o aluguel, porque meu pai só pagou o primeiro mês.

Foi quando meu pai me disse: “Olha, faça o que você gosta, porque você corre o risco de jamais trabalhar na sua vida. Você só vai se divertir”. Segui essa atividade profissional, não sei se eu faria tudo isso de novo, mas era o grande sonho da minha vida naquela época.

O João Araújo (então diretor da Polydor) me contratou à revelia de alguns diretores da gravadora e apostou em mim, na verdade me inventou. Era uma maluquice. Ele me convidou a gravar um compacto, uma das músicas era “Meu Bem”. O disco simples quase vendeu um milhão de cópias, a despeito de uma pessoa influente que passava todos os dias na porta dele para me desacreditar.

Eu devo minha carreira as pessoas que acreditaram em mim: Agnaldo Rayol, Nilton Travesso, Eli Barra, mas principalmente ao João Araújo.

A imagem de galã e a rebeldia contra as imposições das gravadoras

CB – Você apareceu no cenário musical como galã – a pessoa que deve seguir o que prega a indústria fonográfica…

RV – Eu achava horrível isso…

CB – Mas no meu entendimento não foi o que aconteceu. Eu senti que você procurou se diferenciar em ritmos, estilos musicais…

Ronnie – É… Porque uma coisa que até pouco tempo atrás me deixava absolutamente fora de giro era a frase: “Ronnie da Jovem Guarda”. “Ronnie, o Príncipe da Jovem Guarda”. Bom, eu nunca fui ao programa Jovem Guarda. Eu não tinha nada a ver com Jovem Guarda. Eu surgi naquela época, mas eu tinha meu programa. Eu inventei um grupo, dei nome a eles, lancei no meu programa Os Mutantes, levava Caetano, levava Gil, levava a Gal, era uma coisa completamente diferente da Jovem Guarda.

Mas, como eu surgi nessa época eu virei o Ronnie da Jovem Guarda, o Príncipe da Jovem Guarda. Porque tinha o Rei e, então, tinham que dar outra cabeça coroada, que era o Príncipe Ronnie. E não adianta, porque o Brasil é um país rotulador. E no momento em que me chamaram de príncipe da Jovem Guarda… acabou. Eu sou da Jovem Guarda e até hoje não adianta. Eu dei “8 trilhões” de entrevistas dizendo que nunca fiz parte da Jovem Guarda. Mas você pode ver a mídia, principalmente a impressa: “O Ronnie da Jovem Guarda”. Não tem jeito.

CB Agora, Ronnie, essa sua personalidade de acrescentar o rock psicodélico em algumas músicas, enfim, querer ser diferente (o que eu acho muito legal): foi difícil essa guerra para você?

RV – Foi absurdamente difícil por uma razão muito simples. Eu vou explicar como aconteceu isso. Eu tinha um sonho quando aconteceu esse negócio de música. Primeiro eu queria ver se eu conseguia fundir a música erudita com guitarra elétrica, com bateria… Eu queria muito fazer isso.

Tanto que eu consegui na primeira vez que Os Mutantes estiveram no meu programa. Não queriam de jeito nenhum, os diretores, ninguém queria. E a primeira coisa que apresentei dos mutantes foi a Ritinha (Rita Lee) tocando a “Marcha Turca” de Mozart na guitarra…. Quer dizer… A Rita é minha amiga querida até hoje e depois começamos a cantar juntos (me lembro, nesse mesmo programa).

Eu queria fazer o que o George Martin (produtor musical conhecido como quinto Beatle) fez, que é trazer o erudito para o extremamente popular. Era um programa ao vivo aos sábados, que começou a decolar.

O Paulinho (Paulo Machado de Carvalho Filho, fundador da TV Record) antes de morrer me disse: “Ronnie, eu levei você para a Record para te anular, porque você iria estrear na TV Excelsior no mesmo horário do programa da Jovem Guarda na Record. Então eu levei você”.

Quando ele disse “para te anular” significaria “geladeira” nos dias de hoje. E tinha que me dar um programa porque, afinal de contas, ele tinha me convidado. Mas eu não tinha casting, cenário, eu não tinha coisa nenhuma. Jogaram no ar aquela coisa e deu certo. Ficou O Pequeno Mundo de Ronnie Von no sábado e Jovem Guarda no domingo. Isso foi o que de fato aconteceu.

CB – E o rock psicodélico?

RV – O negócio do rock psicodélico foi o seguinte. Eu sempre sonhei com essa história do erudito com o popular. Eu gosto muito de artes plásticas, tenho paixão por isso. Eu queria fazer musica que fosse surrealista, como uma tela de René Magritte ou Salvador Dalí.

Eu queria fazer uma coisa assim, bem surrealista mesmo… Eu consegui da seguinte maneira. Houve uma troca da direção da gravadora. O diretor de Nova York vinha para o Brasil, o André Midani, mas demorou um tempo para ele chegar.

Nesse hiato, nesse espaço, eu gravei um disco psicodélico. Quando o produtor (Arnaldo Saccomani) levou para eles o disco com arranjos do Damiano Cozzella (hoje professor da USP), o diretor de vendas disse: “Isso não pode estar acontecendo com a gente”. Eles investiram no estúdio.

Talvez tenha sido o grande fracasso da minha vida. Eu saí de um disco que eu tinha vendido 1 milhão e 100 mil, para outro de 40 mil. Hoje 40 mil cópias é algo de certa importância, mas na época era o maior fracasso que alguém poderia ter.

Aliás, quando chegou o André (Midani), ele disse: “Ronnie, sua ideia é muito legal, você quer fazer música experimental, underground. Mas pega mais leve”. Eu fiz outro chamado “A Máquina Voadora”.

Depois começaram e me encher na gravadora. Falavam que o nome dos meus discos era curto. Eu tinha amizade com todos da gravadora e inventei o título: “A Misteriosa Luta do Reino de Para Sempre Contra o Império de Nunca Mais”. Era um nome pomposo, talvez como eles queriam. Faixa 1A: “De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-me de Volta à Alfa do Centauro, Meu Verdadeiro Lar”.

Como o DJ iria apresentar isso no ar?  Eu não sei. Tinha o Big Boy (Newton Alvarenga Duarte) no Rio, que adorava essa música e tocava na Rádio Mundial, ele a chamava de “Flash Gordon”. O Big Boy dizia: “Vamos ouvir ‘Flash Gordon’ com Ronnie Von”. Os caras da gravadora enlouqueceram: “Como você coloca um nome desses no disco?”.

O André Midani conversou comigo de novo e eu fui cedendo a essa coisa mercenária, monetarista, safada, e comecei a entrar nos eixos, para eles. Para mim, não. Eu estava completamente dentro da minha razão maior.

Anos e anos se passaram e saiu um livro austríaco, onde tinha os principais discos do mundo, e rock psicodélico. O mais importante do mundo foi considerado de um brasileirinho, coitado, que não é conhecido na Áustria, nem nada: está lá meu disco.

Aí foi aquele estouro. A garotada começou a ouvir aquilo e homenagens, mais homenagens. Eu me lembro, ainda na época do Orkut, que meu filho mais novo começou a ver aquilo e disse: “Pai, olha isso aqui”. Entrei lá no Orkut e tinha umas páginas interessantes: “Eu amo Tio Ronnie”; “Tio Ronnie é rock and roll na veia”; “Tio Ronnie é psicodelia pura”. Tinha uma que eu não gostava muito: “Tio Ronnie, o primeiro emo”.   

O disco virou um cult e um amigo meu chegou a comprar em Tóquio por 4.800 dólares. Isso porque era o grande fracasso. Começaram até a piratear, a melhor cópia que eu vi foi uma argentina. Então tentaram lançar no Brasil (Polysom). Esse acontecimento do psicodélico, depois de velho, foi a devolução da minha juventude.

CB – Talvez o público, na época, não estivesse preparado para esse tipo de música…

RV – Não. Imagina. Eu estava saindo de uma coisa bem coisa bem comportadinha, lavada e passada a ferro, de repente eu entro com um negócio desses e ninguém entendeu mesmo. Foram entender muitos anos depois.

Nesta sexta-feira (30), não percam na coluna Por Trás da Tela a segunda parte da entrevista com Ronnie Von, com mais momentos nos quais um artista completo se abre sobre televisão, pandemia, entre outros temas. Até lá!

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