Curiosidades sobre Vale Tudo, que chega ao Globoplay

Produção entra para o catálogo da plataforma neste domingo (19)

Publicado há 3 meses
Por Fábio Costa
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Neste domingo (19), Vale Tudo volta às telas através do Globoplay. É o quinto título do projeto de resgate de novelas clássicas pela plataforma. Relembre algumas curiosidades da história escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.

Gilberto Braga queria Odete Lara para o papel da vilã Odete Roitman, que tinha outro nome, mas a atriz não se sentia preparada para um personagem tão importante na época, após alguns anos de hiato profissional e mudanças de vida de cunho espiritual.

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Odete recusou o convite, mas disse a Gilberto que faria sua próxima novela. Assim, quando se decidiu por Beatriz Segall para viver a personagem, seu nome foi trocado para Odete, numa homenagem à atriz pensada antes, e com o talento de Beatriz entrou para a história da teledramaturgia.

Na ocasião, ela estava ausente da Rede Globo havia algum tempo – sua última novela na emissora havia sido Champagne, de Cassiano Gabus Mendes, exibida entre outubro de 1983 e maio de 1984.

Além de Odete Lara, Tônia Carrero também foi pensada por Gilberto Braga para viver Odete Roitman. Seria a realização de algo que já havia sido tentado em Água Viva (1980), quando Tônia perdeu o papel de Lourdes Mesquita para a mesma Beatriz Segall, e em Louco Amor (1983), cuja vilã Renata Dumont passou de Tônia para Tereza Rachel.

Beatriz Segall como Odete Roitman em Vale Tudo

Por vezes, até por parte da própria emissora, a autoria de Vale Tudo é creditada apenas a Gilberto Braga. Mas o próprio sempre faz questão de ressaltar que trabalhou com a parceria de Aguinaldo Silva e Leonor Bassères e que inclusive era Aguinaldo quem fazia uma parte difícil, as “escaletas” – divisão de cenas de cada capítulo com o que deve acontecer em cada uma delas.

Gilberto Braga (Divulgação)

O título da novela inicialmente seria Pátria Amada, mas devido à existência de um filme da cineasta Tizuka Yamasaki com o mesmo nome, optou-se por alterar e chegou-se a Vale Tudo, que expressa bem a tônica da discussão sobre honestidade e caráter proposta pela história.

Gilberto Braga conta que a ideia inicial para escrever Vale Tudo surgiu de uma discussão em família na qual seu padrinho foi chamado por um dos parentes de “medíocre” e “babaca”.

Isso porque ele havia sido delegado nas cidades de Foz do Iguaçu (PR) e Belém (PA) e, ao contrário de outros que também ocuparam o cargo, donos de apartamentos na Avenida Vieira Souto, no Rio, o padrinho nada tinha. “Eu queria fazer uma novela sobre o seguinte assunto: vale a pena você ser honesto num país onde todo mundo é desonesto?”, disse Gilberto ao Projeto Memória Globo.

Em virtude da grande discussão em torno da honestidade proposta pela novela, não faltou quem apontasse uma eventual influência de Vale Tudo no resultado das eleições municipais de 1988, das quais saíram vitoriosos diversos candidatos da esquerda em cidades importantes como São Paulo (Luiza Erundina) e Porto Alegre (Olívio Dutra).

Em seu livro O Circo Eletrônico – Fazendo TV no Brasil (Jorge Zahar, 2000), Daniel Filho – que participou da novela no papel de Rubinho, ex-marido de Raquel e pai de Maria de Fátima (Glória Pires) – conta que a sinopse original previa que apenas por volta do capítulo 40 Fátima venderia a casa em Foz do Iguaçu e deixaria a mãe sem ter onde morar.

Ele argumentou que se o fato não ocorresse já no primeiro capítulo a história não atingiria o objetivo declarado pelos autores, e assim, com Gilberto confiando na parceria com Aguinaldo e Leonor e ouvindo o conselho de Daniel, a trama central da novela foi antecipada em sete semanas. Foi uma decisão sábia.

Maria de Fátima era ambiciosa em “Vale Tudo” (Reprodução/TV Globo)

O autor desenvolveu a partir de Vale Tudo uma trilogia que teve por base a temática da ética e da honestidade em nosso país, e que se seguiu com O Dono do Mundo (1991) e Pátria Minha (1994/95). Todas as novelas tiveram direção geral de Dennis Carvalho.

A exemplo de Dancin’ Days (1978/79), também de Gilberto Braga, os atores Cláudio Corrêa e Castro e Antonio Fagundes interpretavam os papéis de pai e filho.

Outro parentesco repetido envolvendo as duas novelas foi o de Beatriz Segall com o mesmo Fagundes: em 1978 ela foi sua mãe e aqui chega a ser sua sogra, quando Ivan (Fagundes) se casa com sua filha Helena (Renata Sorrah).

Renata Sorrah e Antonio Fagundes como Helena e Ivan em Vale Tudo

Foi também a segunda das três vezes em que os atores Antonio Fagundes e Regina Duarte formaram par romântico – as outras duas foram em Nina (1977/78), de Walter George Durst, e Por Amor (1997/98), de Manoel Carlos.

Isso sem contar a censurada Despedida de Casado, de Durst, cuja estreia fora proibida após os primeiros 30 capítulos estarem preparados, em dezembro de 1976.

Outro casal, Cássio Gabus Mendes e Glória Pires, se formou aqui pela primeira vez e se repetiu nas novelas Desejos de Mulher (2002), de Euclydes Marinho, Babilônia (2015), de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, e Éramos Seis (2019/20), de Ângela Chaves, com base na obra de Maria José Dupré.

Casamento de Lola (Gloria Pires) e Afonso (Cássio Gabus Mendes) (Divulgação/Globo)

Também em Desejos de Mulher se fez o reencontro de Regina Duarte e Glória Pires, agora como irmãs, mas a novela não fez nem de longe o sucesso de Vale Tudo, até porque as novas personagens tinham trajetórias bastante alheias uma da outra e o projeto teve diversos percalços.

Regina Duarte como Raquel em Vale Tudo

Após a abertura econômica de Cuba, na década de 1990, os restaurantes privados surgidos na ilha receberam o nome de “Paladares”, inspirados pelo empreendimento de Raquel (Regina Duarte) na novela.

Vale Tudo marcou a estreia dos atores Marcello Novaes, Flávia Monteiro e Otávio Müller em novelas da Globo. Otávio participaria de outras novelas de Gilberto Braga, como O Dono do Mundo, Celebridade (2003/04) e Paraíso Tropical (2007).

Numa ação promocional da marca de produtos alimentícios Cica, foi lançada pela Editora Globo uma adaptação da trama da novela em livro, feita por Eduardo Borsato.

Nela, o público soube das outras versões elaboradas pelos autores para o mistério da morte de Odete Roitman, nas quais Marco Aurélio (Reginaldo Faria), Maria de Fátima, César (Carlos Alberto Ricelli) e o menino Bruno (Danton Mello), filho de Ivan e Leila (Cássia Kiss), eram revelados como autores do crime.

O interessante é que esse grande mistério, que entrou para a história da teledramaturgia, durou apenas duas semanas, as últimas da novela; para os que não a conhecem, é surpreendente ver que, ao contrário de Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana) em Celebridade, que morre na metade da história, por exemplo, Odete Roitman participa praticamente de toda Vale Tudo – entra depois de quase três semanas e sai de cena duas semanas antes do fim.

Capas das versões em livro lançadas pela Editora Globo com a trama da novela

Em 2008, uma nova versão da trama da novela em livro foi lançada pela Editora Globo, com texto de Mauro Alencar, mestre e doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela Universidade de São Paulo (USP).

Capas das versões em livro lançadas pela Editora Globo com a trama da novela

Vale Tudo já foi reprisada três vezes nesses 32 anos de sua exibição original: entre maio e novembro de 1992, na sessão Vale a Pena Ver de Novo; no Canal Viva, inaugurando a faixa da madrugada (à 0h45min), de outubro de 2010 a julho de 2011; e outra vez no canal pago, às 15h30 (com horário alternativo à 0h30), de junho de 2018 a fevereiro de 2019.

Foi a primeira novela exibida pelo Viva também num horário alternativo (12h), para aqueles que não conseguiam acompanhá-la devido ao horário tardio. Alguns meses depois, as outras duas novelas do Viva (exibidas às 15h30 e às 16h30) também ganharam horários alternativos, na madrugada.

Em 2002, a Globo produziu uma versão de Vale Tudo para o mercado hispânico nos Estados Unidos, intitulada Vale Todo, em tradução literal, com texto de Yves Dumont e direção-geral de Wolf Maya e Luciano Sabino.

A iniciativa de refazer a história naquelas circunstâncias foi reprovada por Gilberto Braga, como declarado em entrevista a André Bernardo e Cintia Lopes no livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo (Panda Books, 2009): “Achei a ideia lamentável e disse isso a eles. O resultado foi a catástrofe que previa. Claro que o tema é universal, mas eles não queriam uma história transgressora. Deviam ter escolhido uma novela mais convencional para o projeto.”

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