Roberta Rodrigues analisa sua personagem ciumenta em Segundo Sol: “Ela não tem visão de que isso é uma doença”

Publicado há 3 anos
Por Paulo Henrique Lima
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Depois de uma participação em Cidade dos Homens, Roberta Rodrigues está de volta à tela da Globo. Ela será Doralice na segunda fase de Segundo Sol, atual novela das 21h, escrita por João Emanuel Carneiro, com direção de Dennis Carvalho e Maria de Médici.

Formada no grupo Nós dos Morro, a atriz que foi revelada através do filme Cidade de Deus, conversou com nossa reportagem e falou sobre o grupo e as más condições que o projeto vive hoje. Ela ainda revelou que sua personagem terá ciúme doentio do marido, Ionan, vivido pelo ator Armando Babaioff.

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Você ficou conhecida com o filme Cidade de Deus. Como é sair do cinema e depois ir para as novelas?

“Eu fico chateada porque o filme nunca é reprisado na Sessão da Tarde, mas é muito pesado, não é? Ele teve uma repercussão muito grande, mas as novelas são o que sabemos fazer de melhor no Brasil. Impressionante como nenhum lugar do mundo consegue fazer o que a gente faz aqui.”

E você gosta de fazer televisão?

“O Dennis Carvalho falou que a gente se vira nos 30 e é verdade. É como no carnaval, não sabemos como, mas acontece. Sou grande admiradora desse veículo que é a TV, porque nos damos ao máximo, mergulhamos no personagem, e tudo é de verdade. A comida, o cenário, é como se estivéssemos em outro universo. Agradeço e me sinto privilegiada por fazer parte da indústria da telenovela.”

Você começou no Nós do morro, como vários outros atores. Como você enxerga esse projeto atualmente?

“O Nós do Morro é meu chão, onde comecei e sou grata. Sinto uma dó imensa pelo projeto não ter um patrocínio e estar meio abandonado, mas infelizmente não tenho como transformar isso sozinha. Nós que viemos de lá há algum tempo, não pensávamos em ser famosos, dar autógrafos nem nada disso, queríamos só fazer arte. Acho que depois de um tempo degringolou, porque muita gente foi para lá com o intuito de ficar famoso e  começou a perder a essência. As fases passam, assim como ficar famoso passa, e as pessoas literalmente abandonaram o projeto.”

Como anda seu trabalho como cantora?

“Eu saí do Grupo Melanina Carioca, e agora eu começo no projeto Linda Flor, que eu já tinha sonho de fazer o projeto com as meninas Cintia, Sabrina e Betinha. Estamos começando a ir para o estúdio, ensaiar e ver o repertório.”

Como é para você estar em uma novela, e poder exercer sua profissão quando a maioria dos atores está com dificuldade de poder fazer sua arte pela falta de incentivo?

“É um privilégio e ao mesmo tempo é muito triste. Eu vim do teatro, e fazíamos peças para não ganhar nada, às vezes mal tínhamos o almoço e o jantar. Ficávamos o dia todo trabalhando e ensaiando e papai do céu me permitiu estar aqui com pessoas que disseram:’eu quero ela’.  Sei que tem uma galera atrás de seu objetivo que infelizmente não consegue. Acho um pecado que nossos governantes não invistam na arte, porque acredito que é a única coisa que realmente transforma, e consegue fazer com que o ser humano se livre de suas mazelas. Infelizmente nosso país não valoriza o artista, não valoriza o teatro, o músico, não valoriza ninguém. Temos que nos unir e batalhar, porque não adianta cada um ficar no seu cantinho, e enquanto isso não acontecer continuaremos dando murro em ponta de faca. Faço um projeto social no Vidigal, que não tem a ver com teatro e me mobilizo a fazer a festa de Natal, Dia das Crianças, Páscoa para as crianças de lá, e aí começamos a pedir doações. Algumas pessoas vão lá, dão três caixas de bombom para uma única criança quando sabem que estamos nos juntando para poder dar algo para todas, e por que não nos ajudam?  Porque cada pessoa quer ter seu mérito, eu não, faço por amor. É como a minha arte, que faço por amor e não me pertence, entrego ao mundo. Fico triste, por termos no teatro tantos artistas incríveis em peças sem patrocínio, e temos que ficar implorando. Não sei o que pensar, é uma incógnita e não consigo ter sabedoria para pensar onde iremos parar com essa loucura que está acontecendo no Brasil.”

O fato de ter vindo da comunidade te faz pensar que você tem que voltar pra lá e fazer ações para fortalecer esse lugar?

“Ter nascido no Vidigal foi um privilégio, é um lugar maravilhoso, com pessoas maravilhosas, e sou quem sou graças às pessoas que estão ali. A minha responsabilidade para com o Vidigal é uma responsabilidade de cuidar do meu lugar, e isso não é um peso, faço com todo amor do mundo. É um lugar que eu quero ver florescer. Não moro mais no Vidigal, mas sou Vidigal, digo que quem tem raiz é árvore, eu não, tenho origem, o Vidigal é minha origem. Infelizmente coisas acontecem em função de um descuido para com aquele lugar e com aquelas pessoas que vivem ali.”

E você se sente culpada de alguma forma por não ver aquelas pessoas que moram no Vidigal terem as mesmas oportunidades que você teve?  

“Cada um tem seu caminho, sua estrela, sua oportunidade. É o que eu falo: ‘se você não tem oportunidade, faça a sua oportunidade’. Tiveram dias que eu desci do Vidigal e não tinha dinheiro para pagar a passagem para fazer testes. Eu ia andando do Vidigal até Botafogo e não falava nada para ninguém. Saía três horas antes, sabia que minha mãe e meu pai não tinham dinheiro, mas ia feliz da vida, pensando: ‘nada é por acaso’. É isso, a vida é assim.”

Fale um pouco sobre a sua personagem.

“Doralice é uma mulher muito forte, uma mulher que ama a família, seus filhos e seu marido. Mas ela é muito ciumenta e o ciúme é algo que a destróiÉ um ciúme tão forte que ela cria coisas na cabeça e vai começar a pagar por isso. Ela é filha do dono de um terreiro de candomblé que quer que ela assuma o lugar, mas ela não quer. Ela foi criada nessa religião, mas não deseja essa responsabilidade. Deseja apenas estudar e viver a vida dela. É muito doida!”

Como foi a preparação para fazer essa mulher doida?

“Estou fazendo a Doralice de uma forma em que ela acredite realmente que esse ciúme é algo normal. Ela não tem essa visão de que isso é uma doença. Ela é simplesmente maluca. Ela acredita que o marido a está traindo, e paga pessoas para darem mole para o marido e testar se ele cai. Ela grita, e bate nele achando que tudo aquilo é normal, mas um dia esse homem cansa.”

Normalmente acontece com a mulher, mas na novela existirá o caso de a mulher agredir o homem?

“Justamente. Contei para um amigo que teríamos esse tema na trama, e ele disse: ‘Eu apanho, mas não posso nunca encostar a mão na minha mulher, porque senão eu vou ser um monstro, mas ela pode me bater à vontade, porque isso é muito normal, as pessoas acham que mulher bater em homem é engraçado’. Só que não é. Nem mulher bater em homem e nem homem bater em mulher. A novela vem mostrando um outro lado, porque a gente sempre mostra a mulher apanhando, mas também tem o outro lado que também é importante mostrar.”

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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