Marcelo Serrado analisa Nicolau de O Sétimo Guardião: “Deve ser um cara extremamente frágil”

Publicado há 2 anos
Por Greicehelen Santana
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Em O Sétimo Guardião, Marcelo Serrado está vivendo Nicolau. O rapaz é dono de uma lanchonete na cidade de Serro Azul, casado com Afrodite (Carolina Dieckmann) e pai de dois adolescentes: Diana (Larissa Ayres) e Bebeto (Eduardo Speroni).

Seu maior sonho é ter um filho jogador de futebol. Para ver esse desejo se tornando realidade, Nicolau vive monitorando o período fértil da esposa. Já o seu maior pesadelo é saber que o filho Bebeto ama dançar e que a jovem Diana se identifica com o esporte Karatê.

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Em entrevista ao Observatório da Televisão, Marcelo conversou sobre o processo de criação do personagem, que não esconde seus pensamentos preconceituosos e homofóbicos. O ator também fala sobre a trama escrita por Agnaldo Silva, vida pessoal e carreira. Confira a seguir:

O personagem

Como está sendo interpretar o Nicolau?

“O Aguinaldo tem muitos personagens nessa novela. É uma novela que tem 71 personagens, uma coisa atípica. Então ele vai trabalhando núcleo por núcleo. Esse núcleo é um núcleo muito à parte da novela. Um núcleo que fala dessas questões que são muito pertinentes: preconceito, machismo, quase uma coisa homofóbica. Um pouco de inspiração em cima de Billy Elliot também. Pensando nesse garoto que quer dançar e o pai bronco.

Pelas reações das pessoas, você vê que tem muita gente que pensa assim ainda. É um pai preconceituoso com o filho que quer dançar, ou com a filha querendo fazer um esporte. É um pai que ficou no século retrasado. Acho que são questões pertinentes em uma novela que tem esse realismo fantástico, mas que também tem as questões reais que o Aguinaldo está tratando”.

Como é desenvolver os trejeitos do Nicolau?

“Novela é tipo, você está criando um tipo. Eu não tenho aquela barriga, inflo na hora. Fico até meio cansado porque fico inflando a barriga sempre. Estou inventando agora de ficar penteando os cabelos da barriga. O público ama isso e se diverte. Eu vejo que os câmeras ficam rindo e eu coloco mais. Isso é legal porque a gente vê que funciona. É um personagem popular, cria uma empatia com o público”.

“Os diretores foram deixando”

Como foi o processo de laboratório do personagem?

“Eu comecei a ver que tinha que criar um tipo diferente do que já tinha feito. Até para o próprio Aguinaldo porque fizemos muitos trabalhos em cima do Crô. Então eu queria criar um tipo para ele completamente diferente. Ele também queria me dar um personagem diferente do que ele já me deu.

Ele falou que ia criar um cara homofóbico, que não gosta de gays. Aí eu procurei dar alma a ele dentro dessa composição. Eu criei a coisa do cabelo, da barriga, do pente. Os diretores foram deixando. Cada um vai fazendo a sua criação até achar. Hoje, eu creio que já achei o personagem”.

Você acredita que o Nicolau esconde algum segredo por trás desse comportamento rude?

“Na verdade, ele deve ser um cara extremamente frágil por dentro. Tanto que ele chorou vendo o filho dançando. O menino que faz o meu filho é ótimo, o Eduardo Speroni. É um garoto que veio do teatro. Ele faz as cenas de verdade, dedicado. Um menino realmente talentosíssimo. Meu personagem tem questões muito arcaicas no pensamento. É um personagem extremamente de direita, radical. Todo um maluco nesse sentido”.

Nicolau e a família

Vai ter uma reviravolta na história da Diana ter largado o Karatê?

“Eu não sei. Aí é o Agnaldo que sabe. Os capítulos veem e a gente fica meio sem saber o que ele vai aprontar. Ele (Agnaldo) já está escrevendo lá na frente. Eu sei que agora vai entrar um outro personagem. Ele é um empresário e eu acho que ele está assediando a minha filha. É bom fazer cenas assim, fortes e contundentes, em uma novela”.

O casamento do Nicolau e Afrodite vai ficar abalado com as brigas e com a greve de sexo?

“Eu não sei, não sei. Eu sei que teve uma briga, mas… aí vocês vão ver”.

O Nicolau vai continuar com o desejo de ter um filho jogador de futebol?

“Não sei. Aí é uma coisa com o Agnaldo. Não posso falar muito”.

A Afrodite vai começar a bater de frente com o Nicolau. Você acha que esse empoderamento dela pode deixar ele menos rude?

“Eu acho que a personagem da Carol Dieckmann vai, em algum momento, largar esse cara. Ele vai para o prostíbulo agora atrás de prazer, já que a mulher não está transando com ele. Só que quando ele chagar lá, toma chibatada da mulher. Gravei até a cena cruzando a praça nu. Mas ele também pode no futuro, não sei, querer fazer de novo um filho”.

Redes sociais e bastidores das gravações

Você acompanha a repercussão do personagem nas redes sociais?

“Sim. Depois da cena foi muito bom. Até o Agnaldo falou: ‘posso me aposentar depois dessa cena’. Ele escreveu uma cena muito contundente da porradaria da família. Muitas pessoas comentaram no Instagram e no Twitter. Eu uso muito o Instagram. Botei a cena e senti muito comentários positivos e pessoas com ranço. Ninguém aguenta esse personagem. É legal fazer uma cena assim. Acho que quando tem uma cena contundente em uma novela que tem tantos personagens, é sempre uma coisa que te deixa feliz”.

Como são as gravações com o seu núcleo?

“É núcleo legal. É um núcleo à parte da novela, tanto que a gente grava muito separado. As nossas cenas são separadas. Todo mundo passa pelo BB na Chapa, no trailer. Tem cenas que a gente tem que estar lá”.

“É uma brincadeira que eu estou fazendo”

Você tem liberdade para criar em cena?

“Tenho, tenho. O Papinha é muito generoso. Com o negócio do pente, eu nem perguntei se podia. Eu penteei. Eu não peço nada, eu faço. Se o diretor mandar cortar, eu corto. Mas eu faço. O barato é isso. Outro dia eu falei: ‘hambúrguer e prazer só no X BB’. Com a minha filha eu falei: ‘vai lá shimbalaiê’. Shimbalaiê é a música da Maria Gadú (riso).

É uma brincadeira que eu estou fazendo, espero que ninguém leve isso a ferro e fogo. Não é o Marcelo Serrado, o personagem é assim e ele tem essas questões todas. Acho que trazer humor para um personagem que tem uma certa vilania faz com que ele fique mais interessante aos olhos do público”.

O que você está achando dos personagens da novela?

“O Aguinaldo escreve muitos tipos, arquétipos. Tem o Marcos Paulo, o meu personagem, a personagem Afrodite. Tem o tipo da Letícia Spiller, o Milhem Cortaz, o Paulo Betti, o Adamastor, a Ondina. A novela é um painel dessa cidade. A cidade Serro Azul é um personagem. Diria que o personagem mais importante da novela. As histórias estão entrelaçadas e acontecem por ali. Eu sei como o Aguinaldo funciona. Ele gosta de ver muito a reação do público em casa”.

Recentemente, publicaram uma matéria informando que algumas cenas das novelas foram cortadas e que capítulos foram antecipados. Ocorre alteração no seu núcleo?

“Não sei.  Só a Globo deve saber melhor isso. Essas coisas não chegam na gente. Temos uma coisa de edição ou outra, mas é por conta do tamanho do capítulo. Se o capítulo está grande, eles cortam”.

Contato com o público

Você conhece alguém com uma personalidade parece com a do Nicolau?

“Não. Tenho histórias de amigos. Eu tenho um amigo que conversou comigo outro dia. Ele é gay, casado com um menino, e o pai dele era militar forte, do interior de São Paulo. Ele recebeu muito preconceito do pai. O pai foi muito rigoroso na adolescência pela escolha dele. Agora o pai já aceita ele, mas que no começo foi barra pesada.

E o menino nem é gay, o menino quer dançar. Só que ele acha que o garoto é gay porque quer dançar, que dança está associada a ser gay. Tem milhões de cabeleireiros que não são gays. Acho que o pai da Sophie Charlotte é cabeleireiro, vários outros também. Tem o Wanderley Nunes também. É um preconceito realmente”.

Alguém já te abordou demonstrando concordar com as atitudes do Nicolau?

“Nunca ninguém falou. Fui no Maracanã outro dia e os caras estavam rindo. Acham engraçado”.

O machismo está enraizado na sociedade brasileira?

“Esse cara machista, como o Nicolau é, existe. A gente vê pessoas sendo espancadas no interior do Brasil. No meu Instagram, as cenas têm 10 mil views. O Agnaldo comenta com as pessoas no Twitter, a Carol também. Foi uma cena que criou um impacto”.

O que o público pode esperar do Nicolau nos próximos capítulos de O Sétimo Guardião?

“Na semana que vem tem muitas coisas interessantes na novela para esse núcleo, que é a coisa do puteiro. A mulher não quer transar e eu falo: ‘então eu vou lá procurar o serviço mais antigo do mundo’.  São bem divertidas as cenas”.

Marcelo Serrado na vida real

Como você enxerga todas essas questões que o seu personagem condena?

“Eu sou um cara de cabeça aberta. O mundo hoje em dia está muito aberto. O que o Nelson Rodrigues fazia de duas meninas com 12 anos se beijando em uma cena no convento era uma coisa. Hoje em dia, as meninas estão se beijando com 13 anos, 14 anos. Isso não é mais uma questão. E quem achar isso parou no tempo. Temos que estar abertos às novas coisas da vida. Eu vou amar meus filhos independente das escolhas que fizerem em relação a qualquer coisa. Vou estar ao lado deles no que eles fizerem.

A minha filha mais velha está com 13 anos. Outro dia, ela falou que deu um selinho pela primeira vez. Ela contou para a mãe e a mãe me contou. Eu falei: ‘o menino estuda na sua sala?’. Ela respondeu: ‘não, pai. Ele estuda na outra sala, mas eu não quero falar disso’. Eu falei: ‘está bom’. Eu tenho uma relação muito aberta com os meus filhos”.

O Nicolau mandei bem com na cozinha. Você também sabe cozinhar?

“Não sei fazer nada. Sou péssimo. Não sei cozinhar um ovo, nada”.

O que os seus filhos estão achando do Nicolau?

“Eles não veem porque estão dormindo. A mais velha também não vê porque acorda cedo. Ela vê depois no Globoplay uma coisa ou outra. Ela me acompanha pouco, mas quando vê gosta”.

Como foi o ano de 2018 para você?

“Cansativo”.

O que você deseja para 2019?

“Eu desejo descansar e dormir um pouco mais (riso)”.

Carreira

O personagem Clô ficou marcado na sua vida?

“Está marcado. Fazendo Velho Chico no sertão da Bahia e o Luiz Fernando de Carvalho gritou: ‘olha o Clô ali’. Faz parte. Quantos atores não queriam ter um personagem como a Carminha, o Clô, o Félix? Eu só tenho a agradecer”.

Como é conseguir viver da arte em um país que não a valoriza?

“É muito bacana. É uma emissora também muito bacana de se trabalhar. A Rede Globo tem esse lado de cuidar da gente, de estar do lado dos artistas, de dar um suporte muito importante para a gente como artistas. É uma empresa que nos apoia em todo o sentido”

Você prefere trabalhar em TV, no cinema ou no teatro?

“Eu gosto de tudo. Eu vou atrás de bons personagens. Esse ano eu fiz muito cinema. Fiz uns seis filmes. Fiz musical também, a Noviça Rebelde. Meu próximo projeto no teatro é um musical. Depois dessa novela, vou ver se descanso um pouco. Eu vim de Pega Pega, emendei com cinco ou seis longas, com musical e com essa novela. Ainda fui para a Colômbia gravar uma série. Estou indo em janeiro lançar a série na Telemundo. Dia 22 de janeiro estarei lá para lançar Jugar com Fuego. No meu Instagram tem um teaser Amores Roubados. É a primeira série em parceria da Globo com a Telemundo”.

“Eu vou atrás de bons personagens”

Fala um pouco mais sobre a série Jugar com Fuego?

“É uma série com atores de oito países diferentes da América Latina. Tem atores de Cuba, México, Porto Rico, Peru, Argentina, Brasil. Acho que é uma boa iniciativa para a gente ir para o mercado hispânico. É uma história original da Rede Globo que saiu e foi para outro lugar. Isso me dá muito orgulho também. Senti muito orgulho de fazer. Provavelmente a Globoplay vai acabar passando no futuro. Tem a ver com a plataforma. Provavelmente vai botar uma legenda em português. E, provavelmente, será uma parceria que vai se estender. Pode vir depois, sei lá, Como Nascem os Fortes, O Rebu ou Assédio em espanhol”.

Como surgiu a oportunidade de integrar o elenco da série?

“Eu fiz um teste na Globo com outros atores da casa também. Foi a coisa do espanhol, do tipo também”.

Comprometimento

Você é um ator que se compromete com os projetos em que está envolvido. Como você analisa sua trajetória nos trabalhos da Globo?

“Tem que abraçar. Eu voltei para a Globo tem 10 anos, eu acho. Eu era muito feliz na Record também, fiz grandes personagens lá. Devo muito a Record também. Se eu estou aqui hoje é muito pelos personagens que eu fiz lá”.

A linha de dramaturgia da Record mudou, né?

“Mudou para um outro lado. Uma pena que tenha mudado para um lado não tão bom ao meu ver, mas eles tinham capacidade de fazer coisas muito interessantes. Nessa minha volta para cá (Globo), eu senti um suporte muito grande. Dei sorte. Uma vez a Marília Gabriela me entrevistou e perguntou: ‘qual fator você acha que um ator de sucesso tem que ter?’. E eu falei: ‘sorte’. Sorte é uma coisa fundamental na vida de um ator. Mas tem que estar preparado para a sorte, quando pinta uma oportunidade”.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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