“A primeira temporada foi mais dolorido”, diz Serjão Loroza sobre Filhos da Pátria

Publicado há um ano
Por Felipe Brandão
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Serjão Loroza é o tipo do artista que gosta de se reinventar. Destaque na primeira temporada de Filhos da Pátria como o escravo Domingos, ele agora enfrenta o desafio de voltar a viver o mesmo personagem num contexto – e num período histórico – bem diferente do anterior.

Se a transição para ele foi difícil? Muito pelo contrário. “Viver um escravo na primeira temporada foi meio dolorido. Em alguns momentos a gente se entreolhava – eu, o Flávio Bauraqui e a Jéssica Ellen – e começava a chorar no set. Porque a gente lembrava daquilo que a gente não viveu, mas os nossos antepassados infelizmente viveram. Essa segunda temporada é muito mais ‘relax’“, compara.

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Confira a entrevista completa de Loroza.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Como estão as suas músicas? Você cantando é sem igual!

SERJÃO LOROZA – Fazendo barulho, né? Sempre enchendo o saco do ouvinte. Meu objetivo é esse. [risos] Eu curto pra caramba fazer, tanto dramaturgia como a música. O meu grande tesão mesmo é me expressar artisticamente.

A Jéssica Ellen também é cantora. Quando vocês não estão gravando Filhos da Pátria, vocês trocam alguma ideia a respeito? De repente até cantam juntos?

A gente fala bastante sobre. Mas ainda não fizemos um dueto. A gente está fazendo mais dramaturgia nesse momento. Mas vai acabar rolando com certeza. Um dia desses a gente vai acabar fazendo um barulho junto.

Como foi a transição da primeira temporada para a segunda?

Há muita semelhança e também muita diferença. Mas eu posso dizer que o lance de fazer a primeira temporada vivendo um escravo foi especial. Foi a primeira vez que interpretei esse tipo de papel. Eu já havia vivido um ex-escravo, mas um escravo, na senzala mesmo, é um ‘bagulho’ muito doido. É muito definitivo. Porque o nosso sangue, o nosso DNA carrega essa injustiça social – e racial – que existiu muito forte. Então, na primeira temporada foi meio dolorido. Em alguns momentos a gente se entreolhava – eu, o Flávio Bauraqui e a Jéssica Ellen – e começava a chorar no set. Porque a gente lembrava daquilo que a gente não viveu, mas os nossos antepassados infelizmente viveram. Era bem dolorido. Por conta disso, essa segunda temporada é muito mais ‘relax’. Agora o meu personagem tem um certo orgulho em ter o barraco dele, de estar construindo a história dele. O Domingos é bem orgulhoso de si mesmo. Eu dei uma relembrada na casa do meu avô, que eu visitava em Cordovil quando era moleque. O barraco do Domingos tem um quê dessa casa. É muito louco isso, né? Ainda tem muita coisa para a gente caminhar, mas estamos caminhando.

Qual você entende ser a mudança fundamental do Domingos da primeira para a segunda temporada?

O que acontece é que, nessa temporada, ele é um compositor de samba no início do século, quando o samba está começando a ser a música oficial do Brasil. No entanto, ele vende os próprios sambas pra poder sobreviver! [risos] Por isso, acaba não usufruindo do sucesso, ou do glamour, que confere o ofício de compositor.

Como foi essa metalinguagem de, sendo um cantor, interpretar alguém que produz essa mesma arte?

Sim! Desse momento até hoje eu não vendi nenhuma música não, mas estamos pensando… [risos] Agora mesmo eu acabei de ler uma reportagem sobre inteligência artificial para composições, algo que está vindo aí… É o Uber do compositor! [risos] O que é isso, gente? Vamos parar com isso! Vamos brincar com isso não! [risos]

Você citou esse novo lado compositor do Domingos como um diferencial do personagem nesta temporada. Mas no primeiro ano da série ele já fazia música também…

No outro ano, ainda que ele fizesse música também, havia uma questão quase que sacerdotal, no sentido de ele ser uma liderança da coletividade. E nesse momento não, ele é apenas um compositor que tá buscando um espaço através da arte.

Como a sociedade dessa nova época enxerga, ou até mesmo rotula, o Domingos?

De uma maneira geral, ele é mais explorado que propriamente taxado. Na verdade, eu imagino que, naquele momento, ser preto já era o suficiente. Não precisava nem xingar mais não! [risos] Por isso é que eu acho que ele não passa exatamente por esse constrangimento de ser ‘menos’ por ser compositor. É ‘menos’ por estar na posição de ter um tom de pele diferente do padrão.

E você? Já sofreu esse tipo de preconceito enquanto artista?

Do tipo ‘você é músico, mas trabalha com quê’? Já ouvi isso. [risos] Mas não achei ruim não. Porque a gente trabalha com a diversão alheia. Então, automaticamente, em algum momento você pode dar uma fugidinha e se divertir também, né? [risos] Nos meus shows, percebo que, quanto mais animado eu estiver, mais o público vai estar. E, se não fosse pra me divertir, eu continuaria trabalhando na Kolinus, onde estava uns anos atrás… Eu entrei nessa é pra me divertir, né, ‘cumpádi’?

Filhos da Pátria usa o humor para criticar o momento político atual. Qual a importância de se fazer de política de uma forma leve nesse contexto político que vivemos hoje?

É ótimo! Eu acho que linguagem é poder. Alguns dizem que o politicamente correto está acabando com o humor – mas não! Está fazendo ele ficar mais inteligente! O artista não pode ser um inimigo da sociedade. Se a gente percebe que, através do nosso humor, pode fazer a sociedade ficar mais legal, vamos aderir a isso!

As pessoas ainda te recordam muito pelo papel do Figueirinha em A Diarista (2004-2007). Também foi um trabalho marcante pra você?

É muito louco isso, né? Tem um tempão [esse seriado], nem tenho noção de quanto tempo tem… Mas o carinho entre a gente [do elenco] permanece, e da parte do público também. Não tem um dia em que as pessoas não falem sobre o programa. E isso é bom, porque mostra que a gente fez uma parada que marcou as pessoas, marcou a vida das pessoas. Isso é muito legal.

E novela, você tem vontade de fazer?

Bom, eu tenho um pouco daquela filosofia Zeca Pagodinho: ‘deixa a vida me levar…’ [risos]. Eu já fiz uma novela, uma novela só, inteira, além de outras participações. Mas, se me chamarem pra outros trabalhos…

Como você lida com a instabilidade da profissão de ator/artista?

É vida louca, né, cara? É muito louco! Quando eu entrei pra essa ‘brincadeira’ [profissão], no passado, muita gente me criticava. Até porque eu tinha um emprego, trabalhava na Kolinos [fabricante de pasta de dente], como produtor de venda, merchandising. Era algo bem mais ou menos, mas em Madureira era o máximo, trabalhar numa multinacional. E muita gente me falava: ‘você vai mesmo largar isso?’ Eu respondia: ‘vou, vou fazer o que eu gosto’. Mas hoje eu sou feliz com a minha escolha.

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