Haja Coração apostou no trivial e se deu bem

Publicado há 4 anos
Por André Santana
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Ao que tudo indica, a Globo descobriu a fórmula de uma novela das sete de sucesso. E uma fórmula bem óbvia, na verdade: apostar no simples e no trivial, com romances açucarados e um senso de humor quase infantil. Pelo menos foi esta receita que colocou a faixa num crescente de audiência, com as novelas Alto Astral, I Love Paraisópolis, Totalmente Demais e, agora, Haja Coração. A trama de Daniel Ortiz, baseada em Sassaricando de Silvio de Abreu, pode ser considerada um fenômeno atual do horário, pois manteve-se em alta por toda a sua trajetória.

E o sucesso de Haja Coração foi alcançado sem nenhuma pirotecnia. Pelo contrário, o autor deu ao público o que ele espera de uma novela, sem sustos e nem experimentações. Tanto que a única questão aberta que foi respondida neste último capítulo foi sobre o destino amoroso de Tancinha (Mariana Ximenes). Ademais, foi um desfecho clássico de uma novela que andou sempre numa estrada tranquila e sem surpresas.

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O que não é um demérito. Na verdade, Daniel Ortiz teve uma grande sacada ao se inspirar em Sassaricando, mas inverter tramas e adicionar novos personagens e situações. Se em Sassaricando, Aparício (Paulo Autran) era protagonista, e Tancinha (Claudia Raia) o alívio cômico, em Haja Coração o status das personagens foi invertido. Assim, Tancinha se tornou uma heroína romântica, enquanto Aparício (Alexandre Borges) protagonizou uma comédia mais rasgada, com espaço para o nonsense (o núcleo da família Abdala) e o romance (com a sua relação com Rebeca, de uma Malu Mader fora de sua zona de conforto). Remanejar estas peças permitiu ao autor transitar pelos elementos mais clássicos do folhetim, deixando o melodrama no centro da trama e partindo para a comédia rasgada nas tramas paralelas.

Com a manobra, Daniel Ortiz conseguiu conversar com todos os tipos de público. Aos que gostam de um romance tradicional, não faltou história: além do triângulo central envolvendo Tancinha, Apolo (Malvino Salvador) e Beto (João Baldasserini), havia ainda outras histórias de amor, como a de Shirlei (Sabrina Petraglia) e Felipe (Marcos Pitombo), ou Giovanni (Jayme Matarazzo) e Camila (Ágatha Moreira), que exploraram típicas idas e vindas de um folhetim clássico.

Enquanto isso, no núcleo dos Abdala, Ortiz permitiu-se abusar do bom humor, fazendo de Haja Coração um entretenimento dos mais divertidos. Teodora (Grace Gianoukas), Safira (Cristina Pereira), Fedora (Tatá Werneck), Leozinho (Gabriel Godoy), Lucrécia (Claudia Jimenez) e Gigi (Marcelo Médici) protagonizaram momentos de puro nonsense, com direito a metalinguagem e muito pastelão. Também funcionou o quarteto formado por Rebeca, Penélope (Carolina Ferraz), Leonora (Ellen Rocche) e a empregada Dinalda (Renata Augusto). As atrizes tinham química e se divertiam em cena. Destaque total à Leonora de Ellen Rocche, que desferiu os diálogos mais afiados de Haja Coração ao se colocar como uma crítica irônica e debochada do universo das celebridades instantâneas. Leonora sair de cena fazendo sucesso como a Mulher Toupeira foi qualquer nota!

Haja Coração, assim, não foi uma novela pretensiosa, e provavelmente não se tornará um clássico do horário (como foi Sassaricando). Mas foi um arroz-com-feijão bem temperado, com uma direção correta de Fred Mayrink, e uma reunião de bons atores em boa sintonia. Daniel Ortiz, que já havia sido bem-sucedido em Alto Astral, mostra que entende bem o público do horário das sete. Sem dúvidas, uma boa qualidade.

André Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .

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