Episódio com Carioca e oposição a Bolsonaro “queimaram” Adriana Araújo na Record

Jornalista foi "rebaixada" após questionar linha editorial a favor do governo

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A saída de Adriana Araújo da Record, após 15 anos como repórter, correspondente internacional e apresentadora, começou a se desenhar em 4 de março de 2020. A partir deste dia, a competente jornalista passou por constrangimentos e divergências com a chefia da emissora em relação à linha editorial favorável ao presidente Jair Bolsonaro, que culminaram em seu “rebaixamento” até a despedida, nesta sexta-feira (19).

Naquele 4 de março de 2020, Adriana Araújo comandou o Domingo Talks, evento de apresentação para a imprensa da nova programação dominical da Record. Horas antes, em Brasília, o novo contratado da emissora, Carioca, apareceu fantasiado de Bolsonaro, ao lado do presidente, para gritar com os jornalistas presentes no “cercadinho” em frente ao Palácio da Alvorada. Após a cena bizarra, o humorista viajou até São Paulo e, ainda como o personagem, participou do lançamento das atrações do canal.

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A interação com Carioca foi desastrosa para Adriana Araújo. Como “presidente”, ele zombou da repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, que havia sido insultada por Bolsonaro, e reagiu sorridente. A então apresentadora do Jornal da Record recebeu críticas, já que havia assinado um manifesto com outras colegas de imprensa em apoio à profissional da Folha.

Desconfortável com o episódio ao lado de Carioca, Adriana Araújo também entrou em atrito com a alta cúpula da Record no auge da crise política do governo Bolsonaro. O Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, integra a base aliada do presidente no Congresso. Interessada em agradar o Planalto, a ala religiosa da emissora passou a controlar a linha editorial do jornalismo.

Um exemplo de clara interferência política ocorreu no último Jornal da Record comandado por Adriana Araújo, em 18 de junho. A prisão de Fabrício Queiroz, investigado por operar o crime de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro, era a principal notícia do dia, porém ficou “escondida” entre outras reportagens policiais e ocupou apenas cinco minutos do telejornal.

Adriana Araújo também passou a questionar a postura do jornalismo da Record na cobertura da pandemia, e recebeu o apoio dos colegas de redação. Alinhada a Bolsonaro e ao bispo Edir Macedo, que chamou o coronavírus de “inofensivo” e “tática de Satanás”, a cúpula religiosa da emissora determinou uma “caça às bruxas” aos profissionais que criticam o governo nas redes sociais. Jornalistas foram demitidos e Adriana, “rebaixada” ao Repórter Record Investigação, programa semanal de curta duração.

Adriana Araújo sai de cabeça erguida do canal que lhe proporcionou os melhores e piores momentos da carreira. Em sua carta de despedida publicada no Instagram, ela deixou implícita a luta por seus princípios como jornalista frente ao aparelhamento ideológico da Record.

“Fui repórter do começo ao fim desse ciclo, ao persistir na defesa da notícia, da verdade. E quero me lembrar daqui 20 ou 30 anos que, num dos momentos mais dramáticos da humanidade, me posicionei ao lado da ciência e da vida. E lutei por preservar a dignidade profissional da qual não se pode abrir mão. Vou sempre me lembrar de quem caminhou comigo nessa jornada. Felizmente todos eles sabem quem são”, escreveu.

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