Clássico

Segunda versão de Selva de Pedra chega ao Globoplay e mostra desafios da recriação de um clássico

Durante mais de 30 anos, novela foi o único remake escalado pela TV Globo para o horário das 20h

Publicado em 09/10/2022

Nesta segunda-feira (10), o Globoplay incorpora a seu catálogo o remake da novela Selva de Pedra, de Janete Clair. Originalmente exibida entre 1972 e 1973, a história teve seus 243 capítulos reduzidos para 155 pelos adaptadores Regina Braga e Eloy Araújo.

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    Consta que tenham sido 160, mas esse número se refere à quantidade oficial de capítulos escritos e gravados. Em 1986 foram 31 semanas de exibição, de modo que a produção se encerrou com 160 capítulos exibidos em 155 noites.

    Conforme entrevista à revista Amiga, na época do final de Selva de Pedra, Regina e Eloy tiveram diversas dificuldades no processo de adaptação. Com efeito, talvez o acesso aos roteiros de Janete ter ocorrido aos poucos e não de uma vez possa ser considerado o maior desses percalços.

    Além disso, os primeiros 20 capítulos foram reescritos pela dupla três vezes, até que o texto ficasse do agrado do diretor inicial da produção, Walter Avancini. Ele comandou os dois terços finais da versão original, e por isso foi escolhido para implantar o remake. Do capítulo 21 em diante, outros diretores assumiram os trabalhos.

    Adaptação do original aos poucos prejudicou os responsáveis pelo novo texto

    Regina Braga e Eloy Araújo declararam que recebiam os capítulos da novela em blocos, sem que tivessem a visão do conjunto da história previamente.

    De modo que isso dificultou o processo, uma vez que a atualização (conforme os créditos da abertura) não poderia trair o espírito da obra original. Ao mesmo tempo, o projeto teria que modernizar conflitos e temáticas eventualmente datados nos 14 anos que separavam as duas versões.

    Todavia, como modificar uma história sem saber o que vem pela frente, que pode ser comprometido e/ou truncado a partir do que você modificar em diálogos, atitudes, relacionamentos entre os personagens? Com toda a certeza, algo que dificultou ainda mais a tarefa já difícil de saída. Adaptar um dos maiores sucessos da teledramaturgia e da obra de Janete Clair, autora das mais importantes.

    Muitos diretores, uma só novela: Selva de Pedra e seus quatro comandantes

    Dennis Carvalho foi o diretor-geral de Selva de Pedra da saída de Avancini, prevista desde o princípio, até mais ou menos a metade da novela.

    Daí até o final, José Carlos Pieri e Ricardo Waddington, que já dirigiam a novela sob a batuta de Dennis. A saber, Pieri chegou a assinar como diretor-geral ainda na fase que contava com Dennis.

    Além das próprias mudanças na história, que vai dificultando cada vez mais o acerto da vida de Simone (Fernanda Torres) e Cristiano (Tony Ramos), sem dúvida as trocas constantes de profissionais à frente da direção levaram a desníveis no decorrer da história.

    O “neorrealismo italiano” da direção de Avancini e o “claro e escuro” de Dennis

    Os primeiros 20 capítulos, da “fase Avancini” (apresentados em 16 noites), introduziram a história de uma maneira bem mais crua e sem medo da sensação de angústia que tomava especialmente o personagem Cristiano.

    Com um quê dos filmes do neorrealismo italiano, livres de butiques e perfumarias e que usavam do universo pobre e sofrido sem subterfúgios.

    Grandes exemplos disso pudemos acompanhar com Cristiano vivendo de uns poucos trocados obtidos de um cego, Túlio (Wilson Fragoso), ao qual serviu de guia, ou sendo assaltado e chegando às raias de ter que atuar como garoto de programa para agradecer a um homem que o salvou dos ladrões e o levou para sua casa.

    A própria crueza da vida difícil da família Vilhena em Duas Barras, com cenários reais bastante pobres, a casa de pintura gasta, rachaduras nas paredes e péssimas condições, também davam esse clima.

    Fora o figurino paupérrimo de Sebastião (Sebastião Vasconcelos), Berenice (Yara Lins), Diva (Iara Jamra) e Zelinha (Neuza Caribé), respectivamente pais e irmãs do protagonista.

    Dennis fez uso de práticas identificáveis em outros trabalhos seus, como jogos de claro e escuro, níveis diferentes de intensidade da iluminação em partes distintas do mesmo cômodo, por exemplo.

    Pieri e Waddington mantiveram algumas dessas características, ao mesmo tempo em que também “clarearam” ambientes. Especialmente locais novos que surgiram no enredo, como as novas casas de Laura (Maria Zilda Bethlem), ao lado dos maridos Bartô (Miguel Rosenberg) e Poli (Kleber Drable).

    As lembranças do elenco original e as comparações

    Se com Pantanal, para usarmos de um exemplo recente, o público fez diversas comparações entre os intérpretes da primeira versão, produzida pela TV Manchete em 1990, e os da segunda, no ar em 2022 na TV Globo, imagine com duas versões de uma novela que havia sido encerrada apenas 13 anos antes e reprisada duas vezes nesse meio tempo? Foi o que aconteceu com Selva de Pedra em 1986.

    Com o título de “Namoradinha do Brasil” que ostentou por muitos anos, Regina Duarte ficou muito identificada com a personagem Simone, mocinha da história criada por Janete Clair. Seus muitos sofrimentos e o amor pelo marido ambicioso, embalados por B. J. Thomas e sua ‘Rock and Roll Lullaby’, ícone dos temas românticos de novelas, são lembrados até hoje.

    A importância da obra, da autora e da personagem Simone foram fatores determinantes para que Fernanda Torres, então uma jovem atriz de 20 anos, em ascensão especialmente no cinema, aceitasse o desafio de estrelar a novela das 20h. Mas não tardou para que seu entusiasmo passasse, ante o dia a dia puxado das gravações de um papel que ia contra o que Fernanda esperava e pretendia.

    Numa das edições de Ofício em Cena, programa de entrevistas apresentado por Bianca Ramoneda na GloboNews em meados dos anos 2010, Fernanda chegou a dizer para Regina Duarte, que estava na plateia, um “Eu não sei ser você”, em referência ao processo de criação da figura da mocinha.

    Tony Ramos foi elogiado por seu trabalho como Cristiano, mas foi bastante citada a interpretação de Francisco Cuoco para o personagem no começo dos anos 1970. À época, Tony declarou não ter visto a versão original de Selva de Pedra, por dividir-se entre as gravações de Vitória Bonelli, novela das 19h da TV Tupi, escrita por Geraldo Vietri, e a temporada de uma peça de teatro.

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