Um Sonho a Mais, 35 anos: a lembrança do TBT da TV nesta semana

Publicado há 9 meses
Por Fábio Costa
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Em 4 de fevereiro de 1985, o horário das 19h da TV Globo substituía Vereda Tropical, de Carlos Lombardi e Silvio de Abreu, por Um Sonho a Mais, cujo argumento foi desenvolvido por Daniel Más e Lauro César Muniz. Apenas o primeiro conduziu a novela inicialmente, a saber. Partiu de Lauro a sugestão de referenciar um texto teatral inglês do começo do século 17, justamente Volpone, de Ben Jonson, contemporâneo de William Shakespeare. A direção-geral coube a Roberto Talma, que contou com Mário Márcio Bandarra, Carlos Magalhães e Luca de Castro em sua equipe.

Volpone e a busca pela justiça em Um Sonho a Mais

Antônio Carlos Volpone (Ney Latorraca) vive fora do Brasil há quase 20 anos. Ele teve que fugir, após ser acusado do assassinato do Dr. Telles (Rubens Corrêa), pai de sua esposa Estela (Sílvia Bandeira). O crime ocorre na noite da lua de mel do casal, e tudo leva a crer que Volpone é o autor do crime. Um amigo comum dos dois apaixonados, Orlando Aranha (Fúlvio Stefanini), se valeu da situação e casou-se com Estela. Os dois tiveram uma filha, Mônica (Tássia Camargo), hoje com 18 anos. Quando a história começa, encontramos Volpone no Egito, muito rico. E ele revê Estela ao acaso, depois de tanto tempo. A chama desse amor jamais se apagou, e Volpone decide regressar ao Brasil, na companhia do sempre fiel amigo Mosca (Marco Nanini), para reconquistar a confiança de Estela e provar sua inocência no caso da morte do pai dela.

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Só que, para poder circular livremente no Brasil e lidar com os amigos e inimigos de maneira a não ter maiores empecilhos a seus planos, Volpone tem a ideia de fazer uso de vários disfarces
e identidades. De modo que, para cada situação, ele se vale de um desses personagens. O principal é sua procuradora, Anabela Freire, que defende os interesses de Volpone e cuida para que sua enorme fortuna
não seja dilapidada pelos eventuais herdeiros. O milionário volta à terra natal supostamente à beira da morte, necessitado de toda a proteção contra o contágio das mais corriqueiras
doenças, numa bolha de plástico.

As identidades de Volpone em Um Sonho a Mais

Além de Anabela Freire, Volpone se utiliza de outras três identidades bastante diferentes entre si. Augusto Mello Sampaio é um executivo de meia-idade, circunspecto e sisudo, típico
“paulista de 400 anos”, perfeito para inserções na casa e na vida de Aranha e Estela. Nilo Peixe é um médico de cabelos brancos, nariz protuberante e forte sotaque lusitano. Ele é
angolano, especialista em doenças tropicais, e sua figura desperta confiança. Por sua vez, André Silva é um típico carioca da gema, que trabalha como motorista do próprio Volpone e
adora heavy metal. O “verdadeiro” Volpone também finge, já que se passa por moribundo, e essa sua condição engana perfeitamente a governanta Guiomar
(Henriqueta Brieba), que crê ser ele realmente um homem debilitado e à beira da morte.

O romance de Anabela e Pedro Ernesto e a Censura

Anabela Freire desperta grande paixão em Pedro Ernesto Mendes (Carlos Kroeber). Empresário viúvo, ele é pai de Emílio (Roberto Bataglin), um pretendente de Mônica.
Aranha deseja que os jovens se casem, para que possa unir seus negócios de navegação aos empreendimentos financeiros de Pedro Ernesto. Sendo Anabela um personagem de Volpone, diversas situações
cômicas surgiram desse amor inabalável que Pedro Ernesto desenvolveu por ela/ele. Inclusive, Ney Latorraca e Carlos Kroeber trocaram uma rápida “bitoca” na novela, ao darem o “sim”
que selou o casamento de Anabela e Pedro Ernesto. Todavia, a secretária-executiva não podia consumar a união, por motivos sabidos pelo público, mas não pela maioria dos personagens da novela.
De maneira que surgiu em cena a sexóloga Olga Del Volga (Patrício Bisso), contratada para sanar os problemas de bloqueio sexual manifestados por Anabela.

A presença de Anabela, suas irmãs Florisbela – encarnada por Mosca – e Clarabela – na verdade, Lula (Antônio Pedro), outro amigo – e da sexóloga Olga Del Volga provocou bastante celeuma junto à Censura Federal. E a celeuma foi tanta que apenas Anabela pôde prosseguir na história, com sua presença justificada no enredo de forma mais incisiva, digamos assim, do que as outras. Ao final, Anabela é dada como morta e Pedro Ernesto não fica sabendo que ela, na verdade, era uma identidade de Volpone. O viúvo tem uma oportunidade de recomeçar ao lado de Dorothy (Tamara Taxman). Esta, amiga de Volpone apaixonada por ele, “desencana”.

Pesadelos com tanques cheios de roupa pra lavar

A irmã de Orlando, Renata (Susana Vieira), tem como marido Guilherme (José Lewgoy), irmão da mãe adotiva de Volpone. Muito rico e já idoso, o “Nenê”, como Renata o chama, é um prato cheio para mulheres como ela, vidradas em maridos ricos e vida confortável. Valéria (Maitê Proença) é filha de Renata, mas foi criada por Beatriz (Yara Amaral), uma mulher pobre. O sonho de Valéria é arrumar um marido rico, tarefa na qual Renata a ajuda no que pode. Tamanho é o pavor da moça de ser pobre como Beatriz que a leva a ter pesadelos com tanques cheios de roupa pra lavar.

Do capítulo 37 em diante, Lauro César Muniz passou a cuidar do texto de Um Sonho a Mais após a saída de Daniel Más. Junto com Lauro assumiram a novela Mário Prata, como coautor, e Dagomir Marquezi colaborando. Ao contrário do que com o passar do tempo foi se cristalizando, provavelmente devido aos problemas de produção motivados também pela Censura e por críticas da imprensa, a novela não foi um insucesso. Aliás, muito pelo contrário. Com média geral em torno dos 50 pontos de audiência, conforme medição da época, Um Sonho a Mais é uma das novelas de maior sucesso do horário das 19h. Foi tão assistida quanto sua sucessora, Ti-ti-ti (1985/86), de Cassiano Gabus Mendes, por exemplo.

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