#TBTdaTelevisão: José Mayer e a nódoa numa carreira de sucesso

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
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Na última terça-feira, dia 15 de janeiro, a TV Globo divulgou comunicado oficial a respeito do desligamento de José Mayer dos quadros da emissora. O ator está fora do ar desde março de 2017, quando encerrou-se a novela A Lei do Amor, de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari. Nela, seu personagem era Tião Bezerra, um dos vilões da história. Mayer era contratado da Globo desde 1983, e mesmo antes disso já atuava na casa. Em virtude dessa notícia, o #TBTdaTelevisão desta semana resgata no Observatório da Televisão a carreira de José Mayer. Fábio Costa trata ainda de aspectos relativos à denúncia de assédio sofrida pelo ator, que iniciou a “geladeira” na qual esteve nos últimos dois anos.

Aguinaldo Silva polemiza ao pedir volta de José Mayer: “Não há crime se não há queixa à polícia nem denúncia na Justiça”

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Do Burro Falante ao Zé do Burro: José Mayer no #TBTdaTelevisão

José Mayer ingressou na TV Globo em 1978, na série infantojuvenil Sítio do Picapau Amarelo. Na adaptação da obra de Monteiro Lobato ele deu voz ao Burro Falante por dois anos. Nesse ínterim, participou de episódios das séries Carga Pesada e Malu Mulher, e também do Caso Verdade. Este, a saber, era um programa com minisséries curtas, de cinco capítulos, baseadas em casos reais relatados à emissora através de cartas. Fez também uma pequena ponta em Chega Mais (1980), novela das 19h, como um repórter que entrevista Agda (Renata Fronzi).

Em 1982 viria a primeira grande oportunidade: o marginal Jorge Fernando em Bandidos da Falange. A minissérie de Aguinaldo Silva e Doc Comparato só iria ao ar no início de 1983. Mas rendeu a escalação de José Mayer para viver Ulisses na primeira versão de Guerra dos Sexos, de Silvio de Abreu.

Nos anos seguintes, uma sucessão de trabalhos. O sambista Piscina em Partido Alto (1984), de Aguinaldo e Glória Perez; o marinheiro Edson em A Gata Comeu (1985), de Ivani Ribeiro; Caio, primo rico de Cristiano (Tony Ramos) no remake de Selva de Pedra (1986), de Janete Clair). Mayer foi também o escritor Raul em Hipertensão (1986/87), outra de Ivani.

José Mayer e Malu Mader em Fera Radical (Divulgação/TV Globo)

Ainda em 1987, José Mayer se ofereceu para fazer um teste para o papel de Zé do Burro, do texto teatral de Dias Gomes O Pagador de Promessas. Na ocasião a TV Globo produzia uma minissérie baseada na obra. Ganhou o papel e fez dele um de seus melhores trabalhos na televisão. Os oito capítulos da história foram exibidos já em 1988, na mesma época em que ele vivia seu primeiro protagonista de novela: o Fernando de Fera Radical, de Walther Negrão.

A subida de status e o protagonismo na faixa nobre

Daí para a frente, a protagonização numa novela das 20h (hoje 21h) era questão de tempo. O Osnar de Tieta (1989/90) foi o primeiro de uma série de papéis de José Mayer no horário nobre da teledramaturgia. Ladino, mulherengo e conquistador, Osnar balançava entre Tieta (Betty Faria) e Carol (Luiza Tomé). Esta era a “teúda e manteúda” do comerciante Modesto Pires (Armando Bogus). Mais uma parceria de Mayer e Aguinaldo Silva, que escreveu a novela com Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.

José Mayer e Vera Fischer em Agosto (Divulgação/TV Globo)

Meu Bem, Meu Mal (1990/91), De Corpo e Alma (1992/93), Pátria Minha (1994/95), A Indomada (1997) e Meu Bem-querer (1998/99) foram outras novelas do período. Além disso, teve outro grande momento no papel do Comissário Mattos em Agosto (1993), minissérie baseada no romance de Rubem Fonseca.

José Mayer às voltas com as Helenas do Maneco

A frutífera parceria de José Mayer com Manoel Carlos teve início em 1995, a saber. Foi quando o ator interpretou o médico Carlos Alberto Moretti em História de Amor, novela das 18h. Posteriormente a dupla ator-autor se reuniu em mais cinco trabalhos, todos na década de 2000.

O rude e machista Pedro, de Laços de Família (2000/01), foi outro papel marcante de Mayer na televisão. Amor de juventude de sua prima Helena (Vera Fischer), ele também se envolveu ao longo da história com a veterinária Cíntia (Helena Ranaldi). E com sua outra prima, Íris (Deborah Secco), ao lado de quem termina a novela. Poucos meses depois, na minissérie Presença de Anita o ator viveu Fernando. O escritor tem a vida virada de ponta-cabeça ao conhecer a perversa e sedutora Anita (Mel Lisboa).

Da mesma forma, outras Helenas de Maneco tiveram José Mayer em suas vidas. Outro médico, César, era o grande amor da vida de Christiane Torloni em Mulheres Apaixonadas (2003). Administrador dos negócios de Tide (Tarcísio Meira), Greg começava a história de Páginas da Vida (2006/07) casado com Helena (Regina Duarte). Ele a traía com Carmem (Natália do Valle), também casada e filha de seu patrão. Já em Viver a Vida (2009/10), Mayer foi Marcos, marido de Taís Araújo, a Helena da vez.

Entre uma Helena e outra

José Mayer como Augusto César em A Favorita (Divulgação)

Entre uma Helena e outra, o ator interpretou ainda o jornalista Dirceu de Castro em Senhora do Destino (2004/05), de Aguinaldo Silva. E também o músico Augusto César de A Favorita (2008), de João Emanuel Carneiro. Embora coadjuvante, o papel proporcionou ao ator um tipo bem diferente do que se tornou comum ao longo de anos: o galã maduro, conquistador, “pegador”. Augusto César era meio lunático, acreditava em vida extraterrestre e utilizava esse hobby como fuga para a realidade. Fora abandonado por Rosana (Giulia Gam), um amor antigo. Outra aparição de Mayer nas novelas ocorreu em 2002: o Martino de Esperança, de Benedito Ruy Barbosa.

Nesta década, José Mayer viveu Zico Rosado no remake de Saramandaia (2013), escrito por Ricardo Linhares a partir da obra de Dias Gomes. E mais duas novelas de Aguinaldo Silva contaram com sua presença. Coube a ele interpretar Pereirinha em Fina Estampa (2011/12) e o homossexual Cláudio Bolgari em Império (2014/15). Até aqui, sua última novela foi A Lei do Amor.

José Mayer ganharia personagem em O Sétimo Guardião caso não fosse demitido pela Globo

A denúncia de assédio e a suspensão

No início de 2017, José Mayer foi acusado de assédio sexual pela figurinista Susllem Tonani. Esta integrava a equipe da novela A Lei do Amor. Susllem declarou que o ator havia tocado sua genitália sem seu consentimento, diante de outras pessoas. Inicialmente Mayer negou a acusação e declarou que havia uma confusão de realidade e ficção. Atitudes do personagem Tião Bezerra teriam sido atribuídas a ele. Posteriormente, o ator assumiu os erros. Embora não tenha sido explícito quanto a que atitudes erradas tomou para com sua colega de trabalho.

O caso não foi à Justiça. Todavia, a denúncia e sua repercussão obviamente negativa foram o bastante para que a TV Globo suspendesse José Mayer por tempo indeterminado. Já na ocasião ele foi cortado do elenco de O Sétimo Guardião, para a qual estava escalado e que estrearia inicialmente em maio de 2018. Seu personagem, aliás, seria Feliciano, hoje mendigo, antes muito rico, que vemos no ar interpretado por Leopoldo Pacheco.

Consta do comunicado divulgado nesta semana que a TV Globo e o ator decidiram de comum acordo pelo fim do vínculo. Seja como for, um recado foi dado com clareza. Apesar de não se haver chegado aos tribunais, não teria cabimento manter José Mayer no cast global. Menos ainda escalá-lo para uma novela tão cedo. A denúncia foi bastante forte e merece todo o respeito e consideração. No entanto, a vitoriosa carreira de José Mayer na emissora ao longo de mais de 30 anos não se apaga do dia para a noite. Todas as responsabilidades podem e devem ser apuradas e fica o exemplo. Mas o homem apontado como assediador não deixa de ser o intérprete brilhante de diversos trabalhos na teledramaturgia. Tampouco seu talento e sucesso legitimam comportamento inadequado ou criminoso. Com efeito, uma dualidade difícil de encarar.

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