Lilia Cabral analisa Valentina, sua vilã em O Sétimo Guardião: “Ela descobriu que podia ser má”

Publicado há 2 anos
Por João Paulo Reis
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Em O Sétimo Guardião, Lilia Cabral será Valentina Marsala, a grande vilã da trama. Abandonada no altar em Serro Azul sua cidade natal no passado, a empresária voltará ao local ao saber que é lá onde está morando seu filho Gabriel (Bruno Gagliasso). Em conversa com a atriz, ela contou um pouco sobre a personagem, que ela acredita ter nascido má. E falou ainda sobre sua carreira, e o carinho que sente por Aguinaldo Silva, autor do folhetim. Segundo Lilia, Aguinaldo conseguiu enxerga-la como profissional. Confira o bate papo completo a seguir:

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Conta para a gente um pouco sobre sua personagem…

“A Valentina é uma mulher amargurada, má. Nasceu má, mas só descobriu depois. Quando ela foi abandonada no altar, ela descobriu que podia ser má e com isso ela aproveita para fazer da vida que ela escolheu, tomar atitudes que ela bem quiser. Já que ela ficou empoderada e se enriqueceu, dentro dessas atitudes, ela não tem folga para bondade”.

Ela não tem nenhum lado de afeto, nem com o filho interpretado pelo Bruno Gagliasso?

“Não. Ela não tem nenhum lado de afeto. Ela inclusive não gosta desse filho, e as pessoas vão descobrir isso mais adiante”.

E isso pode ter a ver com ela ter sido abandonada no altar pelo pai dele?

“Lógico. Ela não criou uma defesa contra isso. Como ela enriqueceu, ela se acha no direito de poder usar dessa construção da vida dela, um artificio para poder ser aquilo o que é e dizer o que pensa. Ela faz o que quer, manda até matar se for preciso. Ela não é uma pessoa do bem, acho que tem muita gente assim dissimulada”.

Vilãs de Aguinaldo Silva

Você acha possível uma mãe não gostar do filho?

“Possível é, mas graças a Deus não conheço nenhuma assim”.

As vilãs escritas pelo Aguinaldo Silva são sempre maravilhosas. A Valentina tem algo especial, um quê de humor?

“Sim, aos poucos o humor vai aparecendo. No começo é como se ainda estivéssemos implantando essa personagem”.

Você se inspirou em alguma outra vilã?

“Ela é minha (risos). Eu gosto de fazer esse lado dissimulado, eu amo fazer. Amo fazer as pessoas chorarem comigo e em cinco minutos verem que não é nada daquilo”.

Você acha que a Valentina veio para marcar as suas personagens?

“Eu acho que a Valentina é uma grande personagem e eu vou fazer de tudo para que ela seja bem defendida”.

O que você acha do realismo mágico. Acha que estava faltando isso na televisão?

“Sim, com certeza. Falta, primeiro porque tem uma geração que não conhece o que é esse realismo mágico. E é muito importante conhecer porque é a história da dramaturgia brasileira. Quem não conhece vai ver como é bom você se desligar um pouco da realidade e começar a assistir a uma novela como se estivesse lendo um livro”.

Você já trabalhou muito com o Aguinaldo. O que você diria que ele tem de especial?

“É a minha sexta novela escrita por ele. Ele é muito criativo, tem uma inteligência brilhante para criar personagens. Tanto que quem vê uma novela dele, não esquece justamente por ele ser tão instigante nesse sentido. O Aguinaldo não se contenta com o politicamente correto. Ele se contenta com a ousadia e é brilhante nisso. Sabe criar histórias que se encaixam nos personagens. Essa é a grande beleza dele”.

Bordões

As vilãs dele costumam ter alguns bordões. A Valentina vai ter algum?

“Eu não gosto de bordão, e ele não me deu bordão nenhum. A Valentina fala algumas coisas divertidas, até pode repeti-las, mas não que sejam bordões. Desde que interpretei a Amorzinho (Tieta) em que eu falava ‘Cinira’, eu me irritei com bordões”.

Você se identifica com algo da sua personagem?

“Me identifico com tudo (risos)”.

A novela tem o segredo da fonte de juventude. Você tem essa preocupação de não envelhecer?

“Eu não tenho interferência cirúrgica nenhuma. Nunca coloquei Botox na minha vida. Tenho sim uma genética muito boa que é familiar, e isso ajuda bastante. Vou torcer para que eu continue nesse estado porque eu acredito que os personagens cabem a você conforme o tempo vai passando. Não adianta eu querer ser mais nova ou até mentir a minha idade, porque algum amigo vai saber. Eu tenho 61 anos, e faço aquelas coisas normais de mulher. Me cuido, sou vaidosa, não gosto de comer coisas gordurosas, faço pilates… Tenho todo um cuidado, mas voltado para a saúde em primeiro lugar”.

Você acha que o fato de ter sido abandonada a tornou uma vilã?

“Ah, quantas são abandonas ou quanta tragédia pode acontecer com uma menina nova? Nem por isso a pessoa se transforma numa pessoa intragável. Eu não acredito que ela tenha se transformado. Acredito que ela sempre foi má. Se eu ficar pensando que ela se transformou fica parecendo que ela tinha uma vida antes, e uma vida depois”.

Relação com a cultura

Como é para você voltar para o universo do Aguinaldo Silva?

“Eu sou eternamente agradecida. Acho que o Aguinaldo é um autor generoso. Você estar ao lado de uma pessoa que olha para você assim é incrível. As minhas conquistas foram porque olhou para mim como atriz. Um autor quando tem essa vontade de olhar para um ator, não tem nem o que dizer. De fato, o que ele me mandar fazer, eu vou fazer”.

A cultura no Brasil não é valorizada. Como você se sente sendo um patrimônio cultural do país, honrando seus compromissos com arte?

“Quando decidi ser atriz, sabia que o caminho a trilhar seria difícil, mas nunca desisti. Então saber que eu posso sobreviver da arte, me deixa feliz. O fato de as pessoas verem nossa imagem e pensar que aquilo vai ser sucesso porque estamos lá é de grande responsabilidade, e dá um medo insuportável pelo estigma. Acredito em trabalho de equipe e trabalhar com o Papinha é um plus, porque ele dá esse espírito de equipe. Tem que estar bom para todo mundo, não só para você. O diretor estabelece para que todos estejam na mesma sintonia. Quando junta um autor supergeneroso, com um diretor que também tem esse olhar, percebemos que estamos na trilha certa”.

Estigmas

Você disse que o sucesso da novela é um trabalho de equipe. A cada novela, você está com uma equipe diferente e seu estigma é que seus personagens são de sucesso e Lilia Cabral é fatalmente considerado padrão de qualidade. O que te faz aceitar um personagem?  

“Eu aceito porque geralmente são muito bons. Quando me convidaram para fazer a Silvana (A Força do Querer), eu disse ‘quero’, porque jamais iria negar. Quando fui convidada para fazer Liberdade Liberdade, eu acreditei naquela personagem. Eu aceito quando vejo que tem muita coisa boa naquele trabalho, seja autor ou diretor que você gosta. Agora estou louca para trabalhar com novos autores para conhecer outros caminhos também e por aí vai. Posso dizer que tenho sorte. Poderia continuar com o estigma de fazer personagens que não me rendam ou que não me valorizem, e não acontece isso. Na primeira conversa com o autor você já sente se o personagem vai dar certo. É impressionante, acho que é porque a gente faz muita novela e está acostumado”.

A novela tem certo misticismo. Você é uma pessoa mística?

“Eu sou religiosa. Gosto dos meus santinhos, mas mística eu não sou. Às vezes me dão uma pedra, e eu até esqueço dela (risos). Se eu fosse mística eu estaria grudada com a pedra, mas em compensação não saio de casa sem meu espírito santo, sem minha nossa senhora, estou sempre com um santo”.

Trabalhos reprisados

Tem alguns trabalhos antigos seus sendo reprisados, como Tieta que foi exibida no Viva em 2017. Você gosta de se ver?

“Eu gosto de me ver. Já me perguntaram se eu não fico saudosa, e não. Se a vida da gente tivesse ido para trás, eu não gostaria de me ver, mas a vida da gente mudou tanto. Imagina, quando eu comecei não tinha filha, marido, minha casa. Olho agora para o crescimento, com todas as dificuldades que a gente passa – porque a gente passa mesmo – mas não fico saudosista”.

Você sempre sonhou com esse momento na carreira?

Sempre sonhei, sonho todos os dias. Quero mais que todo mundo sonhe, mas não adianta só sonhar. Tem que sonhar e ir à luta. Trabalho com gente que luta e que gosta da profissão. Aqui não tem uma pessoa que eu não fale, e que não esteja estimulado. Essas coisas também te estimulam”.

Você mudou muito seu método de trabalho, de anos atrás para hoje?

“Método é mais ou menos a mesma coisa. Antigamente eu era mais relaxada. Parece que a gente vai ficando mais velha e aí tem mais responsabilidade, e pensa ‘ai meu Deus’. Antes eu não tinha tanto medo de errar, agora eu tenho, com aquele cuidado de estar no caminho certo. Eu era mais leve”.

A Valentina vai voltar para Serro Azul para se vingar. O que você pensa disso?

“Uma perda de tempo, tem tanta coisa para a gente ir para a frente. Acho que temos que nos apegar a coisas que valham a pena. As outras, temos que deixar para trás”.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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