Joana de Verona diz ter retorno do público por causa de Adelaide: “Gostam da batalha dela”

Publicado há 7 meses
Por Guilherme Rodrigues
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Responsável por viver a Adelaide de Éramos Seis, trama das 18h de Angela Chaves, Joana de Verona falou em entrevista ao Observatório da TV sobre a recepção do público com a personagem e também dos temas que são abordados no núcleo.

Como está sendo a resposta do público?

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Tá sendo ótima. O público adora, as pessoas reagem muito. Muitas mulheres nas ruas falam da importância dessa personagem. Mulheres que nasceram em 1950 ou numa época posterior da que a novela fala, mas que sentiram durante a adolescência e fase adulta várias necessidades de afirmação, que tiveram que lidar com vários tipos de preconceito e gostam de ver a Adelaide com identificação. Gostam da batalha e da personalidade dela. É muito bom ter essa reciprocidade do público.

Ela vem para salvar a Justina (Julia Stockler). Começa a conhecer a irmã, e tem a cena do avião. Como foi gravar essa sequência?

Essa cena foi linda, mas difícil de filmar, estava muito calor. Filmamos num sítio. Um lugar perto de Bangu, o Museu Aeroespacial. Um lugar incrível, com uma sensação térmica muito quente, mas foi lindo fazer essa cena.

A relação delas é muito bonita. A Adelaide vem também nessa busca afetuosa da família para suprir as carências dela, já que estava 20 anos fora do Brasil e longe da família. Ela ajuda a irmã e a leva para um caminho de tratamento, novas técnicas psíquicas, levando para a pintura, questionando e provocando muito a mãe. Mas também é um processo para ela própria estar mais ligada com a família e estar com os vínculos afetivos mais fortes.

E ela vai descobrir o que aconteceu, né? Sobre o pai…

Todo mundo vai descobrir, mas eu não posso falar. É uma sequência grande, reveladora, e vamos ficar atentos.

E como está sendo contracenar com Susana Vieira?

Tá sendo ótimo. Susana é uma artista muito experiente, é uma interprete muito ágil. E é bom a gente se surpreender em cena, tentar torná-las surpreendentes e provocadoras para ambas. É muita tensão na nossa dinâmica de mãe e filha, mas a gente se diverte.

Acha que a Adelaide pode se apaixonar?

Pode, mas a forma como conduz isso e tem a gestão de uma relação… Ela é moderna em tudo. Noção de vida, conceitos, e questiona também o relacionamento convencional, a questão do relacionamento aberto e fechado. Ela tem várias convenções e visões de mundo que são muito atuais hoje em dia, quanto mais na época. São a frente, mas ela pode se apaixonar sim.

O público ‘comprou’ a Adelaide. Como está com a recepção?

Eu estou muito grata e feliz. O público ama a Adelaide, ela tá fazendo muito furor por motivos bons. O texto da Angela também, os personagens são muito fortes e tem espaço. As coisas não são em vão, e ela tem coerência, tem uma linha política, de atuação, humana, então todas as questões que ela se engaja estão chegando e tocando as pessoas, e mulheres e homens estão refletindo com ela. Criar esse link da década de 30 para 2020, eu acho realmente incrível.

As pessoas conseguem se rever em muitas coisas. Em muitas vezes que não foram ouvidas, que a opinião não foi considerada, que o homem tem mais força, a palavra dele, é uma personagem que vem levantando essas questões e estou muito feliz porque reverbera nas mulheres de hoje em dia. Quando a gente cria distância e vê uma história acontecendo, a gente consegue refletir e se identificar. Eu tenho muito privilégio de estar fazendo uma personagem que cria tanto impacto com o público. Fico feliz com isso porque é uma coisa que tem retorno.

Como é a parceria com a Julia Stockler?

Nos damos bem cenicamente. Fizemos e fazemos muito teatro, então tem muita conexão de dois interpretes em cena, criando um universo em conjunto. Nos ouvimos e as personagens são muito fortes, a relação delas é muito carinhosa e sensível. Estão sempre se descobrindo, desenvolvendo esse afeto, recuperando a memória da infância. Então é um processo muito intenso.

Você se parece com a Adelaide?

Algumas coisas sim. Sou brasileira, porque nasci aqui, mas cresci em Portugal também, então eu transito entre os países. Mas também estudei direção de documentário na França, faço filmes na Alemanha, às vezes moro no Porto fazendo teatro, às vezes no Recife fazendo um filme. Essa coisa de meio que ir morando em lugares e países que o trabalho exige, faz com que eu tenha uma certa capacidade de adaptação aos lugares e um certo mundo que a Adelaide também tem. A energia dela é mais acelerada que a minha, mas empresto algumas coisas minhas que eu acho que podem servir.

Como você vê a questão do machismo e feminismo nos dias de hoje? Mudou muito do que era lá atrás?

Não mudou. A questão do próprio vagão cor de rosa é uma questão da permanência do machismo. É uma medida que era para ser provisória e está aí. Não é uma medida de mudança de paradigma, de pensamento dos homens. É assumir que eles invadem o espaço de uma mulher sendo grosseiros, agressivos, e invés da gente reverter isso de alguma forma, pela educação, pela mudança de pensamento, a gente cria uma medida que tem que existir, infelizmente, porque é muito contraditório, é óbvio que para muitas mulheres é um sossego tremendo, poder ir em hora de ponto num tráfego absurdo mais tranquilas no metrô, sem serem invadidas, porém, isso é uma perpetuação do que está acontecendo. Não há nenhuma resolução de fato. O problema é tão grave e o fato do vagão perpetuar e quase como admitir e banalizar que seja normal esse tipo de invasão de privacidade, atitude selvagem sem um mínimo de respeito pelo outro, e vamos tentar botar esse pano quente aqui. Isso é um exemplo, então o machismo existe no Brasil e no mundo. De formas diferentes.

Há muitas mulheres machistas, mães e avós que litam com seus filhos de formas machistas. São muitos anos de supremacia masculina com relação a feminina, então tá muito enraizado ainda. Acho que é de todos nós, mulheres e homens, que vão vendo isso acontecer, é bom dar o toque, refletir, ressignificar, pensar se cada um de nós estamos fazendo um discurso ou ação machista, pensar sobre isso e dialogar, estarmos atentos.

Estamos numa era de ressignificação de tudo. Não só das relações interpessoais, mas de tudo. Do preconceito, do racismo, machismo. O Brasil é um território que tem menos anos em comparação com outros lugares do mundo, mas é um ótimo lugar de reflexão, porque é um país tão rico, tantos tipos de pessoas, uma diversidade absurda que só tem aqui. É muito complexo, as questões são muito complexas, e é tudo muito radical, e por um lado tudo bem, porque melhor um ponto radical do que um povo sereno que não reivindica e não faz nada, no meu ponto de vista, mas ao mesmo tempo é isso.

Eu vejo que o machismo existe e é evidente que as mulheres têm que se afirmar de alguma forma e se sentem vulneráveis com relação ao seu espaço, assédio, a questão de fisicamente os homens serem mais fortes que as mulheres, mas isso tudo bem, e anatomia, é natureza, mas a mulher se sentir desprotegida ou frágil porque pode ver no outro uma ameaça, ou porque o salário é menor. É trabalhoso, então o machismo existe, mas a gente está consciente. A mulher tem muita força. Eu acho que os homens se assustam muito com as mulheres. A mulher é um bicho muito ágil e bem mais forte que os homens no geral. Talvez por isso se assustem tanto.

O que irá fazer após a novela?

Vou para Portugal estrear uma criação minha, uma performance que vou co-criar com outro criador português que eu convidei para fazer esse processo comigo. O espetáculo se chama Mapa-múndi e vai estrear em dois festivais de teatro de Portugal.

*entrevista realizada pelo jornalista André Romano

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