Eduardo Sterblitch fala sobre função social de Éramos Seis: “O Brasil está dando ‘tilt’ “

Publicado há um ano
Por Felipe Brandão
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Os atores são unânimes em dizer que toda estreia envolve um certo frio na barriga, por mais experiente que se possa ser. O que dizer, então, de Eduardo Sterblitch? Humorista consagrado na TV, cinema e internet, ele agora vive o desafio de fazer sua primeira novela: Éramos Seis, estreada pela Globo na noite desta segunda (30).

Seu personagem, o simpático e divertido Zeca, foi vivido na versão de 1994 pelo grande Osmar Prado – referência confessa de Sterblitch. “Fui à casa do Osmar algumas vezes, por conta própria. Ele me ajudou bastante a acalmar minha ansiedade. Esses grandes mestres sempre estão aí pra ajudar a gente“, revela o eterno Freddie Mercury Prateado, do extinto Pânico.

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Confira nosso bate papo completo com o artista.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Éramos Seis é sua primeira novela, certo?

EDUARDO STERBLITCH – Sim. Talvez a última, se eu for muito ruim. Se eu mandar muito mal, me matam logo. [risos]

Mas o pessoal que viu as chamadas tem elogiado muito sua química com a Maria Eduarda de Carvalho, que será seu par na trama…

Eu não acredito nem quando falam bem, nem quando falam mal. Você tem que ir na sua, senão perde a pedalada. Eu estou muito empolgado, muito ansioso pra entender qual vai ser o resultado diante do público – o que o público vai achar. O público é o grande imperador dessa brincadeira toda, né? Dessa maluquice que a gente faz de querer representar a vida dos outros.

Como é o Zeca, seu personagem na história?

O Zeca é um personagem muito genuíno, muito autêntico. É como essas pessoas do interior que são muito simples e que você quer fica do lado o tempo inteiro. É uma pessoa muito ‘de verdade’. Não quer ser melhor, mais rico, maior, mais bonito. Ele simplesmente é ele e tem muito orgulho do que é. É bem brasileiro também, e muito apaixonado [pela Olga]. O maior desafio de fazer a minha primeira novela é isso: me concentrar pra ficar bastante atento e aprender com os meus colegas que fazem novela há muito tempo – e com toda a equipe da Globo também.

Você já tinha dentro de si o desejo de atuar numa novela? Ou nunca havia pensado nessa possibilidade?

Eu sou imaginativo, então já pensei sim. Mas nunca pensei que eu chegaria a fazer de fato. Desde criança, eu sempre fui muito chato com TV, sempre odiei televisão. Era aquele ator que queria fazer teatro para sempre, ia morrer pobre. [risos] Mesmo fazendo televisão, você morre pobre, mas nunca imaginei que eu fosse me entregar ao mercado televisivo. [risos] Aí pintou o Pânico e ele me ensinou a fazer humor e televisão. Com eles, aprendi a ser engraçado e a entender a televisão de uma forma mais profunda. E aqui [na novela] estou aprendendo a fazer televisão de uma outra forma, né? Claro, tem humor, eu consigo usar tudo o que já aprendi até agora. Mas principalmente eu estou aprendendo e jogando esse jogo com o olho bem atento.

O que você tem em comum com ele?

Também sou um romântico apaixonado, mas ele é mais do que eu. Eu desisto mais rápido. Ele ama a Olga, faz de tudo para ficar com ela. Não tem família, é sozinho. Foca a vida dele pra ficar com ela, e ela utiliza o amor dele para fazer com que ele seja o que ela quer. Estou torcendo para que o público goste bastante.

Como surgiu para você a oportunidade de atuar em Éramos Seis? Você fez teste ou foi convidado?

Eu sou péssimo em teste. Então qualquer teste que eu fizer, eu não vou passar, porque sou realmente muito ruim. Quando eu percebo que estou sendo testado, eu não consigo ‘funcionar’. O que é difícil pra mim, porque eu acabo não pegando vários papéis que talvez seriam bem interessantes. Leitura também, sou péssimo. Sempre fico ansioso em dar o melhor de mim e essa ansiedade me atrapalha nos momentos iniciais de trabalho. Eu dei muita sorte, porque o Chico Accioly [produtor de elenco e preparador de atores], que é uma grande cabeça dentro da Globo, pirou nessa ideia de que eu faria bem a novela. Aí me chamaram, o Carlinhos [Carlos Araújo, diretor artístico de Éramos Seis] gostou da ideia, a gente conversou, curtiu um ao outro… Eu amo compor personagem e, por isso, gosto de entregar um personagem muito legal, com o qual eu fique satisfeito. E eu nunca fico satisfeito! [risos] É um inferno! Eu fico sempre tentando. E eles [Accioly e Araújo] estão me ajudando muito. Diria que era pra ser. Acho que inicialmente nem seria eu. Era pra ser outro ator [fazendo o Zeca], mas ele não pôde fazer… O universo conspira quando é pra acontecer mesmo.

Apesar de também ter um lado cômico, o Zeca terá muitas cenas dramáticas. Como é pra você, que vem do humor, fortalecer esse lado do personagem?

Eu tento fazer tudo dramático. Não com relação a ‘ser triste’, e sim a não me preocupar com a comédia. Fazer o mais natural possível para que o público não enxergue o Edu, e sim o Zeca. A minha maior preocupação é estudar bastante o texto para que o personagem conte a história dele da melhor forma possível. E a graça a gente vai achando no processo da coisa. Nunca fico pensando em como vou trazer a comédia, tento deixar natural. Até porque a autora [Ângela Chaves] já escreve o Zeca de uma forma graciosa – não necessariamente para rir, mas para encantar, te fazer torcer.

Você procurou assistir a alguma coisas das versões anteriores?

Assisti! Assisti praticamente toda a novela [de 1994, produzida pelo SBT] na internet. Em parte achei que poderia me atrapalhar, porque o Osmar Prado [que interpretou Zeca naquela versão da trama] é um gênio, e eu fiquei pensando que não conseguiria fazer à altura. Fui à casa do Osmar algumas vezes, por conta própria. Ele me ajudou bastante a acalmar minha ansiedade. Esses grandes mestres sempre estão aí pra ajudar a gente. Fui pra Itapetininga também. Fiquei quatro dias lá na cidade do Zeca, pra conhecer as pessoas de lá e poder homenagear de alguma forma a própria cidade.

O Zeca é farmacêutico. Você fez alguma preparação pra retratar a profissão do seu personagem?

Não. Só tomei Novalgina diariamente pra dar conta da enxaqueca. [risos]

Éramos Seis, além de ser sua estreia nas novelas, é uma história que tem um lugar todo especial na memória afetiva do público. Isso pesa como uma responsabilidade pra você?

Eu penso bastante nisso. Mas tento evitar entrar nesse vício de pensamento, porque isso atrapalha, né? Você fica com a expectativa maior do que a do público. Quem apresenta a dinâmica é sempre a gente [atores]. O público pode comprar ou não essa dinâmica. Mas eu acredito que vai comprar bastante [a nova Éramos Seis]. De fato, a novela anterior é um fenômeno, já foi montada várias vezes… Mas eu acredito que o sentimento da novela, o que ela passa, em termos de sensação, independe de quem está fazendo. É uma visão diferente dessa mesma história.

Qual a importância de se recontar uma história como essa nos dias de hoje?

Importância total. Eu sinto que o Brasil está dando um ‘tilt’. Todo mundo está muito nervoso e não sabe direito o porquê. Eu faço terapia há muito tempo e percebo que, na terapia, você tem que falar das coisas do seu passado pra tentar lembrar de alguma coisa, talvez inconsciente, que tenha relação com certa característica ou comportamento seu. Acredito que, quando a gente passa por crises, temos que buscar na história a resposta para o que está acontecendo. Eu estudei em escola particular – tive esse privilégio -, e mesmo assim conheço pouquíssimo da história do Brasil. Acredito que essa história, contada nesse momento do país, vai deixar claro algumas coisas do passado. A coisa do amor romântico, da família, machismo, como homem não podia demonstrar sentimentos, da força das mulheres, no momento em que o espartilho é trocado pelo sutiã, e as mulheres começam a poder votar… É um momento do Brasil muito louco [o retratado em Éramos Seis]! A novela vai mostrar porque a sociedade ainda é tão arcaica em lugares tão básicos e óbvios. A novela vai mostrar isso de maneira leve, não vai tocar na ferida. Vai mostrar a realidade daquela época, e quem for inteligente e sensível vai conseguir pescar por que a sociedade está doente em alguns lugares. Pode ser curativo!

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

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