“A gente tem que ter noção que é grave e noção que não podemos parar”, diz Johnny Massaro sobre artistas combaterem a censura

Publicado há um ano
Por Muka Oliveira
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Aos
27 anos de idade, Johnny Massaro
trilha seu caminho na televisão há mais de uma década e se prepara para viver
novamente Geraldinho, na nova temporada de Filhos da Pátria, da TV Globo.

Em conversa exclusiva com o Observatório da Televisão, Johnny fala como enxerga seu personagem Geraldo Bulhosa Filho na trama de Bruno Mazzeo, revela seus próximos passos em sua carreira e comenta sobre o momento difícil que vivem os atores com os ataques à cultura.

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Confira a entrevista:

Qual a visão sobre o seu personagem
em Filhos da Pátria?

Eu mantive alguns pensamentos do Geraldinho da primeira temporada pra cá, porque não tem como mudar tudo, apesar da época, e a primeira sensação que eu tenho do Geraldinho que ele é uma pessoa que não consegue transferir o olhar pro outro, ele é absolutamente voltado para ele mesmo, para suas próprias necessidades, que todos os seres humanos tem: fome, sede, sono, vontade de amar, sexo, mas tudo é pra ele mesmo. Então acho que isso produz um personagem muito condizente com agora, porque eu acho que a alteridade está esquecida, isso de se colocar no lugar do outro, e ao mesmo tempo eu acho que ele tem esse lado infantil e tudo que confere alguma espécie de encanto pra ele, então eu acho isso meio perigoso em alguns lugares, como esse encantamento e também por essa repulsa pelo outro. Então eu fico muito feliz de poder dar vida a isso.

O que o Johnny tem do Geraldinho e
o Geraldinho tem do Johnny?

Eu gosto muito de trabalhar com proximidade. Eu fico pensando nas nossas diferenças. Com certeza tem muito meu do Geraldinho. Mas o que? Acho que eu prefiro não pensar! (risos).

A série fala muito de política e
tem uma correlação com os dias de hoje. Você é uma pessoa muito politizada.
Esse seria um ponto entre você e o seu personagem?

Acho que o primeiro ponto que eu penso é que infelizmente a série começa em 1800 e depois pula 1930 e é chocante perceber que as coisas não mudaram, ou mudaram muito pouco. Ao mesmo tempo que temos discursos maravilhosos sendo colocados na roda como o feminismo, o racismo, e etc… E como a gente precisa superar tudo isso, ao mesmo tempo a gente tá lidando com tudo isso. Então a série é muito brilhante em apresentar tudo isso, e de uma forma muito bem humorada. Então eu acho que ela acessa em vários lugares.

E se Filhos da Pátria ganhasse uma
nova temporada. Em que época deveria se passar?

Uma das grandes maravilhas dessa série pra mim é o diálogo aberto que o Bruno Mazzeo (autor) apresenta. Ele é o mais animado de todos. Há um ano ele já mandava coisas, já mandava cenas, já ia infectando todo mundo com essa energia. E a gente já conversou algumas vezes o que seria esse próximo do momento, de uma nova temporada, mas eu não me lembro (risos).

A série já foi gravada, né? Qual
será seu próximo passo?

Sim, terminamos de gravar há uns três meses. E agora eu to na pressa porque eu to indo para Vitória finalizar um filme que eu to fazendo, e junto com esse filme tem mais cinco pra estrear no ano que vem, tem uma série, tem uma peça muito legal que eu vou fazer agora em São Paulo com a Monique Gardenberg que se chama Os Sete Afluentes do Rio Ota, que é um clássico que vai voltar, que todo mundo que assistiu gosta muito, tem essa peça e televisão será só ano que vem mesmo.

Você tem se consagrado bastante no
humor. Mas você também faz drama. Você tem alguma preferência de papel?

Eu não tenho preferência mesmo. Inclusive esse filme que eu estou fazendo agora é um drama absurdo. Eu estou mais magro, inclusive, porque meu personagem tá doente, eu pretendo emagrecer mais, é muito drama. É um prazer muito grande poder passear pelo drama, assim como é um grande passeio passar pela comédia. Mas a comédia pra mim parece um pouco mais difícil, porque tem muito a ver com precisão, e eu até agora to pensando numa cena em que eu falava ‘Agrega ou revolução’, em que eu podia só ter virado o olho… É matemática. A comédia me deixa um pouco inseguro pra ser sincero. Apesar de eu estar tendo muitas oportunidades através dela.

Desde quando você começou na TV a
comédia está presente nos seus personagens, né?

Eu consigo entender que a vida é muito trágica e a vida é muito cômica, sabe? Então acho que inevitavelmente isso vai sendo levado para o trabalho, mesmo quando eu tenho coisas que são muito mais densas ou dramáticas, dá pra botar um pouquinho no humor, e no humor dá pra botar um pouquinho de comédia. Então acho que a série tem muito desse lugar. Então acho que é isso que deixa ela mais interessante. Você não vai só rir, ou se você rir você vai perceber que isso não é risível.

Você acha que essa nova temporada
tá mais hilária que a primeira?

Olha… Eu confesso que essa temporada tá ‘muito mais’ coisas que a primeira. Mais direta, ao ponto, até porque eu acho que a situação exige uma abordagem mais direta, apesar do humor dar uma leve maquiada na coisa, então acho que ela é mais madura em vários sentidos. Até mesmo pelo Bruno, nós mesmos revisitando papéis que já fizemos e a própria direção… Então estou mais seguro com o resultado dessa temporada do que da primeira.

Você acredita que o Brasil pode ter
dias melhores e não ficar repetindo o passado?

Eu acredito plenamente que vamos viver dias melhores, porque eu não posso acreditar em outra coisa. Eu acho que a revolução começa muito na gente mesmo através dos nossos pensamentos, das nossas palavras, das nossas ações… Se eu não acreditar que dias melhores virão em mim, isso nunca vai acontecer no mundo. E claro que eu acreditar sozinho não adianta muita coisa, então a gente tem que trabalhar num contágio dessa energia e acreditar que vai melhorar. Porque ao mesmo tempo não foi muito melhor do que está agora, pelo contrário, hoje em dia a gente tá falando de certas coisas, vivendo de certas formas, então é um caminhar que a gente tem que ter muita calma e confiar que vai chegar.

O que você tem achado sobre essa
política em cima do cinema nacional, que vive um grande crescimento…

Recentemente eu participei de uma mesa sobre o futuro do cinema, e foi um confronto de gerações, eu era o mais novo e tinha uma galera muito mais velha que trabalha com cinema há muito tempo, e durante a conversa alguém falou sobre a canetada do Collor que acabou com a EmbraFilme, e eles perguntaram pra mim sobre eu ser dessa geração, como eu vejo isso, e eu respondi que não sei… Mas o que eu penso ouvindo que já passamos por uma coisa parecida ou talvez até pior… Talvez pior eu não diria porque o Bolsonaro faz isso de forma velada, que é pior ainda, mas não podemos parar de fazer ou de tentar. Por mais que os tempos estejam difíceis, por mais dificuldades sempre teremos, é trabalhar o que tem, sabendo que é sim grave, porque um cara não pode fazer um vídeo testando os motivos pelos quais ele vai censurar filmes com temáticas LGBT’s, temáticas raciais, quando na verdade estamos tentando chegar lá… Então a gente tem que ter noção que é grave, e noção que não podemos parar. É continuar fazendo e fazendo… E o lugar dos artistas nisso tudo, atores, cantores, escritores, bailarinos, tudo… Pelo menos o meu ponto de vista é tentar entender agora. E é por isso que um governo como esse ataca a cultura, ou ataca a educação, ou ataca o produzir do pensamento, porque se as pessoas pensam e entendem o meio onde eles estão, as coisas mudam… Então ver todos esses ataques aos artistas, falando que a mamata acabou, chamando de petralha quando não tinha nada a ver com o PT… Foi muito doído receber esses comentários, mas também temos que entender que cada um tá no seu processo…

E fala um pouco sobre o filme que
você está fazendo…

Se chama Os Primeiros Soldados e conta sobre a primeira infecção de AIDS lá em Vitória, nos anos 80, e tá sendo legal porque o elenco é majoritariamente de Vitória e tá sendo muito divertido conhecer essas pessoas… Tem também a Renata Carvalho que recentemente fez Jesus e foi muito execrada e ao mesmo tempo muito enaltecida, porque tem todo esse horror, toda essa tragédia, todo esse medo, mas tem também um movimento muito proporcional ao mesmo tempo muito grande que temos que prestar atenção, porque todo movimento de ódio gera um movimento de amor proporcional… Temos que trabalhar com essa dualidade. Ao mesmo tempo que ela foi muito execrada, censurada, ao mesmo tempo ela viajou para o mundo inteiro apresentando o trabalho dela.

E o que você pesquisou para o seu
personagem, sobre o início do HIV?

Foi uma coisa horrorosa, porque as pessoas estavam começando a viver uma liberdade muito grande por conta de tudo, e aí vem uma doença que deixa você com medo de ter contato, porque até descobrirem que ela não passa mesmo a não ser por um contato sexual ou transfusão de sangue, todo mundo tinha medo. Daí veio o preconceito de ser uma doença que supostamente veio a partir do homossexual, que não é mesmo verdade, começa num nicho e transborda. Então é muito louco assim. Porque hoje em dia pesquisando e vendo, a AIDS não mata mais. O que mata, o que é difícil é o preconceito em relação à doença. Então é muito bom poder ter contato com esse tipo de coisa.

E o que você fez para emagrecer
para o seu personagem no filme?

Eu comecei a dieta desde setembro, mas agora to intensificando a dieta. Mas eu to animado. Eu gosto de ser ator porque a oportunidade que eu tenho desse deslocamento… Porque naturalmente na minha vida eu jamais faria uma dieta, porque na verdade eu já parei de comer carne, açúcar, leite, glúten, então isso reverbera no seu corpo e na sua energia de outra forma, e todos os contatos de pesquisa que tem que ser, então por isso acho muito legar ser ator.

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