Na vitória ou na derrota, entrevistar atletas no pós-prova requer habilidade

Não é possível escolher só momentos positivos para o registro, mas é preciso elaborar bem as perguntas

Publicado em 4/8/2021
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No calor dos acontecimentos, o pós-prova ao vivo é um momento delicado para uma entrevista, imediatamente depois de uma vitória ou uma derrota na carreira de quem dedica sua vida ao esporte. Nesta Olimpíada de Tóquio, mais do que nas anteriores, a presença de microfone e repórter na saída das provas com entrevistas obrigatórias vem gerando controvérsias em especial pela ampla repercussão da Tokyo 2020 nas redes sociais. Afinal, deve-se ou não entrevistar atletas neste momento?

As pessoas em geral curtem e vibram com a entrevista quando há vitória, pois é um momento de glória, de agradecimento, de pura emoção. Mas esporte não é só vitória e muitas vezes nestes Jogos Olímpicos temos visto os nossos atletas em desabafos de indignação, tristes, com choros, desesperados até. Daí todo mundo vai às redes dizendo que não é hora de se entrevistar. Do ponto de vista jornalístico, é hora sim.

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O objetivo de toda reportagem ao entrevistar esportistas é, antes de tudo, registrar e dar informação sobre aquele momento.  Se o momento tem conotação de felicidade (vitória) ou tristeza (derrota), é do jogo. O que não estaria certo é poder escolher: dar a entrevista somente em caso de vitória.  

A partir do momento em que as emissoras com direitos de transmissão ao vivo tiveram autorização de se postar ali com seu microfone – e as brasileiras TV Globo, canais SporTV e BandSports optaram por colocar –, então não se pode selecionar o registro apenas de momentos felizes. A cobertura da competição está acima dos resultados e isso é puro espírito esportivo.

Também é uma oportunidade única de se ter depoimentos sinceros e espontâneos dos atletas, sem intermediação de assessores de imprensa e de imagem. O público talvez não saiba mas, hoje em dia, toda personalidade de relevância em suas áreas (e também nos esportes mais populares) é instruída a dar entrevistas a partir de um media training, quando treinam antes com um time profissisonal de assessores sobre como responder a determinadas questões dos repórteres.

Mas o que a gente pode e deve questionar é a qualidade das perguntas que estão sendo feitas. Muito provavelmente embebidos também pela emoção, muitos dos repórteres tropeçam na formulação das questões no momento delicado. E não é somente em caso de derrota. Há que se ter sensibilidade em entender o momento de êxtase do entrevistado, que acaba de passar por um grande estresse, em esforço físico e também mental, também quando há êxito.

Na vitória

Veja por exemplo o caso da vitória de Rebeca Andrade, com prata e ouro inéditos na ginástica artística para o Brasil. Ao sair das provas do individual geral, onde levou a prata, na área de recuo e ao dar entrevista para a Globo, veio a pergunta do repórter: “E aí, já conversou com a família?” No seu momento máximo de felicidade, a ginasta não poderia ter sido mais simpática e sincera: “Como eu iria falar com eles se eu vim direto pra cá falar com você?”. Hora da chamada vergonha alheia da reportagem.

Outros tantos registros foram de pura emoção da vitória, como o surfista medalha de ouro ítalo Ferreira, aos prantos lembrando-se da avó já falecida. Ou da medalhista de ouro na maratona aquática Ana Marcela Cunha, na sua alegria confiante de quem se sabia muito bem preparada para a prova e para o resultado de medalha.

O terceiro lugar também foi muito celebrado, com o bronze tendo gosto de ouro para as tenistas da dupla Luísa Stefani e Laura Pigossi, por exemplo. Que feito foi o delas, chegando de última hora para um evento que conseguiram ser chamadas uma semana antes e se consagraram no pódio.

O choro de alegria nos agradecimentos dos bronzes do judô – esporte que nessa edição dos Jogos Olímpicos frustrou expectativas — também foi grandioso, em especial o de Mayra Aguiar. O judoca Daniel Cargnin também ganhou medalha de bronze.

O nadador Bruno Fratus, medalhista de bronze nos 50 metros livre, foi à desforra. Na Rio 2016, o nadador tinha sido confrontado com uma pergunta mal formulada ao sair da prova em que tinha favoritismo sem nenhuma medalha: “Qual seu sentimento” perguntou a repórter de forma muito direta naquela ocasião, ao que ele apenas conseguiu responder, com ironia: “Tô felizão, o que você acha?”.

A atitude gerou uma injusta antipatia ao nadador. Desta vez, no entanto, ele respondeu que estava feliz de verdade. São duas situações que resumem bem a dosagem que se deve dar na hora de fazer pergunta, ao vencedor e ao derrotado.

Na derrota

Nas derrotas, as respostas são as mais difíceis e cada atleta tem seu motivo para o jeito de se expressar. Os brasileiros reclamam quase sempre, e não sem razão, da falta de estrutura na sua modalidade, da dificuldade que foi chegar até ali, da falta de apoios e cada um a seu modo tem justificativas.

Poucos têm a sinceridade de admitir que os adversários foram melhores — o que, convenhamos, é muito natural numa competição onde só participam os que atingiram as melhores marcas em suas modalidades. Todos os esportistas que chegam ali também se esforçaram muito, alguns deles em condições piores até do que as do Brasil.

Quem faz as perguntas precisa também estar preparado para o momento difícil da desclassificação. Numa prova com participantes adolescentes, então, é necessário ter um certo jogo de cintura. O repórter do SporTV, na saída da atleta Isadora Pacheco do skate, insistiu em saber se a menina de 16 anos estava chorando de tristeza por não ter ido à grande final – ela ficou entre as dez melhores do mundo na modalidade, já em si um feito. 

Ela teve de explicar mais de uma vez que estava chorando de felicidade, feliz demais, de ter chegado ali, de estar ao lado de quem admirava no esporte, de estar com as amigas. O repórter parecia não entender.

Um bom exemplo de abordagem diante de uma quebra de expectativa foi a entrevista feita pela Globo com o ginasta Arthur Zanetti, nas argolas. O atleta ficou sem pódio, mas a performance foi abordada de forma técnica. Para isto, é preciso ter informações sobre o histórico do entrevistado, pesquisar antes, o que é sempre recomendável. Veja aqui .

E se alguém ainda reclama das entrevistas no momento da derrota, é bom também verificar que muitas vezes o público parece ter ficado mais chateado do que o atleta. Como no caso do vôlei de praia.

O jogador Alison, da dupla com Álvaro, reclamou à Globo da falta de investimento no esporte. Vale lembrar que o Brasil sempre foi medalhista desde que a categoria estreou nos Jogos, em 1996. Porém, neste ano em Tóquio, a modalidade não conseguiu emplacar nenhuma dupla nas finais. Veja aqui .

* As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de sua autora e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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