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Nila diz que papel em De Volta aos 15 a ajudou em transição de gênero: “Medo deu lugar à vontade de lutar”

À coluna, atriz fala sobre mudanças de Camila, personagem trans de série da Netflix

Publicado em 05/07/2023

A segunda temporada da série De Volta aos 15 estreou nesta quarta-feira (5) com Nila como principal destaque. Entre as duas levas de episódios, a atriz se declarou trans não-binária. A identidade de gênero também é a trama central de sua personagem na produção da Netflix. Na história inédita, César irá se aproximar mais da cultura LGBTQIAP+, e o público entenderá a transição para Camila (Alice Marcone).

“Eu nunca vi César como um homem cis porque ela nunca foi um homem cis”, afirma Nila em entrevista exclusiva à coluna. Para a atriz, os dilemas vividos pela irmã de Fabrício (João Guilherme) a ajudaram em suas descobertas na vida pessoal.

“A forma que esta personagem chegou para mim foi como um caminho aberto até os meus próprios conflitos. Construir e me tornar César, de alguma forma, fez com que eu avançasse muito mais rapidamente nos meus processos e encarasse a minha própria realidade enquanto pessoa trans. Era engraçado demais porque havia momentos que eu, na minha vida privada, vivia uma situação que, quando eu parava para analisar, era igualzinha à que César estava vivendo, e vice-versa. A personagem amadureceu, e esse crescimento teve muita influência sobre mim. Depois que eu fiz essa temporada, aprendi coisas suficientes sobre mim para perceber que eu precisava mudar algumas coisas na minha vida, e isso é maravilhoso, porque autoconhecimento é um dos assuntos centrais de De Volta aos 15”, analisa.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com Nila sobre De Volta aos 15:

Antonio Carrara, Maisa, Klara Castanho, Nila e Caio Cabral no evento TUDUM
Antonio Carrara Maisa Klara Castanho Nila e Caio Cabral no evento TUDUM

PAULO PACHECO: Nila, quando De Volta aos 15 começou a ser filmada como você se identificava em relação ao gênero e à sexualidade? E como recebeu uma personagem que era um homem cis no passado e uma mulher trans no presente?

NILA: A primeira temporada de De Volta aos 15 começou a ser filmada no início de 2021, e nesta época eu já me identificava enquanto uma pessoa trans não-binária e estava transicionando. Estes últimos dois anos foram bem importantes para o meu processo de autoconhecimento, porque em 2021 eu comecei a usar os pronomes ela/dela fora do meu ciclo de amizades e, em 2022, eu comecei a experimentar Nila como nome. Eu nunca vi César como um homem cis porque ela nunca foi um homem cis. E durante todo o processo de construção de personagem eu estava ciente de que, ainda que ela não tivesse se entendido enquanto uma pessoa trans, isso jamais a destituiria da sua verdade enquanto mulher, porque, mesmo que as pessoas ao redor a enxergassem como um homem, a transgeneridade é algo que está inerente ao indivíduo, mesmo que a pessoa ainda não se entenda desta forma.

Todos os conflitos que César vive na primeira temporada podem ser lidos a partir do recorte de gênero: ser oprimida na escola a leva ter pouquíssimos amigos e isso, inevitavelmente, a faz criar todo um universo online onde ela pode se expressar por meio das personagens que cria em suas webséries; gostar de um menino e não conseguir concretizar essa relação por causa da sua imagem e da forma que ela se expressa também é um traço das muitas opressões que pessoas trans vivem. Sendo assim, a forma que esta personagem chegou para mim foi como um caminho aberto até os meus próprios conflitos. Construir e me tornar César, de alguma forma, fez com que eu avançasse muito mais rapidamente nos meus processos e encarasse a minha própria realidade enquanto pessoa trans. Para mim, esta é a grande maravilha de ser atriz: aceitar que nunca serei a mesma porque as personagens têm o poder de mudar quem a gente é.

PP: Na primeira temporada, você ainda é creditada com o nome “morto”. De que forma seu papel na série te ajudou a se reconhecer? Como foi o processo de descobertas durante as filmagens?

N: O fato de estar entrando em contato todos os dias com o assunto da transição e tendo que vivenciar isso no meu próprio corpo durante o trabalho fez com que eu levasse as reflexões e descobertas da personagem para minha própria vida. Era engraçado demais porque havia momentos que eu, na minha vida privada, vivia uma situação que, quando eu parava para analisar, era igualzinha à que César estava vivendo, e vice-versa. Quando as pessoas erravam meus pronomes, eu sentia a mesma necessidade de imposição que César sentia em determinados momentos da série. Nesta segunda temporada, César está mais expansiva e sociável, já não tem tanto a necessidade de passar despercebida pelos lugares como na primeira temporada e isso faz surgir uma coragem de bancar tudo aquilo que ela acredita. Dá para ver que a personagem amadureceu, e esse crescimento teve muita influência sobre mim. Depois que eu fiz essa temporada, aprendi coisas suficientes sobre mim para perceber que eu precisava mudar algumas coisas na minha vida, e isso é maravilhoso, porque autoconhecimento é um dos assuntos centrais de De Volta aos 15.

PP: A série tem um “gap” proposital de 15 anos que não mostra o processo de sua personagem até se tornar Camila. Teremos avanços quanto a esta transformação na segunda temporada?

N: Sim, e está maravilhoso! Antes de começar a preparação para as filmagens, a Maria de Médicis, nossa diretora-geral, marcou um café com algumas pessoas do elenco para falar sobre a série e tudo mais, e uma das primeiras coisas que ela falou para mim foi: “Prepare-se que você vai trabalhar muito! Você precisa estudar demais sua personagem, porque ela está com um arco muito delicado e cada cena é muito importante”. Na hora, eu não senti medo nem nervosismo nenhum, porque trabalhar e estudar são as duas coisas que eu mais amo na minha vida. Respondi para a Maria assim: “Pode deixar, era justamente isso que eu estava querendo”.

Nesta segunda temporada, a transição é o arco principal da César. Todos os conflitos ao redor dela orbitam o seu processo de autoconhecimento, e isso torna tudo muito primoroso porque expõe, de forma leve e profunda, não só a realidade de muitas pessoas trans como também mostra novas possibilidades de existência e aceitação de vivências como a dela. A forma que a relação entre César e Fabrício se aprofunda nesta temporada é muito bonita, e acho que uma das cenas mais emocionantes que eu gravei na série, definitivamente, foi entre César e Geraldo, seu pai, interpretado por Kiko Vianello. Todo o arco familiar para mim é muito interessante de assistir. Fiquei muito orgulhosa pela forma como essa história foi contada.

PP: A Netflix passou a te creditar corretamente nesta leva de episódios. Como foi retornar à série depois que se declarou não-binária?

N: Na primeira temporada, eu ainda não havia mudado de nome, então não tinha algo exatamente a ser corrigido. Eu só passei a me chamar Nila praticamente no final de 2022, e ver este nome, que eu escolhi, sendo creditado em um projeto tão grande como De Volta aos 15 é um impacto muito grande no meu processo. Em me sinto muito orgulhosa de ter reunido coragem para declarar e viver isso dignamente, de forma pública e íntegra. Esse retorno à série, com o TUDUM, evento de estreia e afins, foi muito tranquilo e divertido. Minhas agentes, Miriam e Valéria, se prontificaram ao pedir a retificação do meu nome nos créditos da série, e toda a equipe da Netflix sempre foi muito respeitosa em relação às minhas demandas.

PP: Você revelou ter medo de declarar sua identidade de gênero porque temia perder trabalhos. Com a repercussão da série e o apoio que recebeu do elenco, qual o seu sentimento atual em relação à profissão? O medo ainda existe?

N: Eu sinto, de verdade, que as coisas não são mais como eram antes. Acho que o mercado e as pessoas estão mudando, e quem não está sendo capaz de se atualizar em relação aos avanços sociais, felizmente, está ficando para trás e, aos poucos, perdendo seu espaço neste meio. Acho que o audiovisual precisa crescer muito em relação à dignidade trabalhista, como em relação a Jornada Justa de Trabalho.

Pessoalmente, sinto que depois que me autodeclarei publicamente ganhei alguma evidência nestes últimos meses, mas isso não se reverteu em oportunidades de trabalho. Acho que os profissionais que cuidam de casting precisam parar de colocar a mim e outras pessoas como eu em caixinhas que ditam o que eu serei capaz de interpretar enquanto atriz. Fala-se muito sobre perfil, e eu entendo que o físico é um fator importantíssimo para a concepção de uma personagem, mas como um produtor de elenco cisgênero vai olhar para mim, uma pessoa trans não-binária, se sua pesquisa se baseia demarcadamente na pesquisa de homens e mulheres? Eu posso fazer um homem? Posso fazer uma mulher? Quem deveria dizer isso sou eu ou alguém que não entende a complexidade da minha vivência? O que constitui uma personagem como um homem ou como mulher? Claro que estamos falando de histórias a serem contadas, mas durante muito tempo não se incluíram pessoas pretas, amarelas e indígenas em filmes porque todos os espaços eram ocupados por pessoas brancas. Mas o cinema existe somente para retratar a realidade como ela é ou também para apontar e criar novos imaginários sobre o que podemos ser como sociedade?

Em suma, acho que o medo deu lugar à vontade de lutar para que isso mude. Todo esse momento que lidei publicamente com a minha transgeneridade me fez perceber que nada vai mudar se eu não usar minha voz e o pouco de poder que conquistei ao longo destes cinco anos de carreira.

Nila

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