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Exclusivo

Dublagem ajudou Marun Reis, nova voz de Elliot Page na Netflix, a se reconhecer trans não-binário

À coluna, dublador fala sobre transição de gênero e conquista de papel na série The Umbrella Academy

Publicado em 19/06/2022
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Quem acompanha The Umbrella Academy perceberá diferenças na dublagem da terceira temporada, que será lançada pela Netflix na próxima quarta-feira (22). A alteração do protagonista, porém, é especial. Elliot Page, que se reconheceu homem trans em 2020, interpreta Viktor, que na série também passou por transição de gênero. Como esta coluna escreveu em 26 de maio, o personagem terá voz de Marun Reis, trans não-binário. Seu maior papel chegou no momento mais importante de sua vida.

Entender a complexidade do ser humano foi desafiador para Marun, que sempre se identificou mais com os meninos do que com as meninas. Entretanto, as convenções sociais que definem o que é homem e o que é mulher o colocaram em um limbo da sociedade. Enquanto procurava seu lugar no mundo, revelou-se bissexual em 2006. Dez anos depois, já na dublagem, começou a encontrar as respostas certas. Ao traduzir um programa, descobriu o gênero fluido, abrindo-lhe as portas para a não-binariedade. Em 2020, reconheceu ser trans. Alterou o nome e o gênero, e na última sexta-feira (17) participou de sua primeira Marcha Trans, em São Paulo.

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“Não tenho nada contra o meu corpo. Em 2016, traduzindo um programa, ouvi falar de gênero fluido. Fez todo o sentido. Não era exatamente o que acontecia comigo, mas acendeu uma chama. Fiz um curso de narrativa queer e me apresentei como gênero fluido. Conheci uma pessoa lá que se identificava como não-binária. Não sabia o que era e fui pesquisar. O não-binário, na verdade, é um guarda-chuva. Dentro dele, há várias definições, entre elas o gênero fluido. Vi ali algo que fazia muito sentido para mim. Não sou nem homem nem mulher, e esse ‘não ser’ me encaixou. O gênero não é o sexo. Não é o corpo. É construção social. Ser um homem hoje é diferente de ser homem 500 anos atrás, ou ser um homem aqui e no Japão. É diferente, porque não está ligado exclusivamente ao corpo, mas à cultura, à construção social. Não precisar me encaixar nestas construções me deu uma liberdade maravilhosa”, conta Marun em entrevista exclusiva à coluna.

Abaixo, o dono da nova voz brasileira de Elliot Page fala sobre suas descobertas pessoais e o impacto em seu trabalho, rendendo a ele um marco na dublagem brasileira, cada vez mais aberta à comunidade LGBTQIA+. Confira:

PAULO PACHECO: Antes de perguntar como conquistou o papel, gostaria de saber mais da sua vida pessoal. Você, em 2016, não se identificava mais com o gênero que você tinha ao nascer. Como ocorreu este momento? Porque até chegar nisso houve um processo de você “brigando” consigo próprio, não?

MARUN REIS: Existe uma noção geral de que transgeneridade tem a ver com ódio. Não ocupo esse lugar. Era mais um desencaixe. Primeiro que não se falava de não-binariedade antes. Eu sou trans não-binário, eu não me identifico como homem trans. Falei de não-binariedade pela primeira vez em 2016. Se eu soubesse essa definição clara quando criança teria sido muito mais fácil de entender. Eu me identificava mais com os meninos, estava sempre presente nos rolês de meninos, até que eles se davam conta de que eu não era um deles e me excluíam. Dali para frente fui socializado como mulher. Quando você é socializado como mulher, você aprende coisas muito difíceis que são naturalizadas pela sociedade. Como deve se portar, qual roupa deve usar na rua, em quais lugares pode estar sozinha ou não. Tudo isso é muito violento. Muito. Para mim, era impossível me ver no papel de homem porque, por mais que eu conheça homens maravilhosos, a definição de homem traz em si um monte desse machismo em muitos aspectos. Eu aprendi também a ser mulher. Aprendi a me comportar de uma maneira que era aceitável para a sociedade como uma mulher. Ainda assim as pessoas tinham certeza de que eu era sapatão, porque eu tinha uma coisa mais masculinizada. Uma bobagem, porque nunca fui sapatão, sempre fui bissexual. Namorei mais homens do que mulheres, entrei na comunidade LGBTQIAP+ em 2006, 2007, já defendendo bandeiras da bissexualidade, falando abertamente sobre isso e ouvindo muita bifobia dentro da comunidade. Passei muito tempo fazendo esse papel feminino. Fazia, mas não gostava. Meu sentimento era de estar me esforçando para ser aquela pessoa. Sempre associo ao teatro, porque depois de construir o personagem você tira a maquiagem e volta para casa, mas eu não tirava e ficava com ela o tempo inteiro. Não tenho nada contra o meu corpo, diferentemente da ideia do ‘corpo errado’. Há pessoas com disforia, mas não pode se resumir a isso.

Em 2016, traduzindo um programa, ouvi falar de gênero fluido. Fez todo o sentido. Não era exatamente o que acontecia comigo, mas acendeu uma chama. Fiz um curso de narrativa queer e me apresentei como gênero fluido. As pessoas não entenderam muito bem e não perguntaram porque ficaram com vergonha de perguntar, e ainda bem, porque eu não saberia explicar. Mas a grande questão foi: eu verbalizei. Ferrou. Quando verbalizo, tenho que lidar com essa informação. Conheci uma pessoa lá que se identificava como não-binária. Não sabia o que era e fui pesquisar. O não-binário, na verdade, é um guarda-chuva. Dentro dele, há várias definições, entre elas o gênero fluido. Vi ali algo que fazia muito sentido para mim. Não sou nem homem nem mulher, e esse ‘não ser’ me encaixou. O gênero não é o sexo. Não é o corpo. É construção social. Ser um homem hoje é diferente de ser homem 500 anos atrás, ou ser um homem aqui e no Japão. É diferente, porque não está ligado exclusivamente ao corpo, mas à cultura, à construção social. Por isso não me encaixo nessas construções sociais. Não precisar me encaixar me deu uma liberdade maravilhosa.

PP: De certa forma, foi uma libertação no sentido de querer o seu padrão, não é?

MR: Sim, no começo fiquei perdido sobre o que eu queria ou não queria. Fui experimentando. Deixei de me achar ridículo com coisas masculinas, e depois passei a me achar bonito. São sempre passinhos, nenhum gigantesco. No meio de 2020, pedi para as pessoas me chamarem no masculino. Mudei meu nome em 2021. Falei disso no Instagram recentemente. Publiquei a carta para o Elliot e houve gente na minha família que descobriu ali. As coisas vão caminhando lentamente, mas na minha cabeça faz todo sentido. Tenho tanta certeza de que está certo porque tudo está acontecendo bem, estão se abrindo caminhos, não fechando. Acho que o momento histórico e social ajuda. Não no Brasil, mas em 2022. Até a Netflix trazendo mais personagens trans, mais representatividade. O momento foi bom também nesse sentido. Quando saí do armário trans, não achei que o mercado se fecharia para mim. E abriu muitos caminhos.

PP: Recentemente, você comemorou o aniversário com sua família. Como é a relação com seus pais?

MR: Minha família é ótima, no sentido de que sou muito, muito, muito privilegiado. Tenho pais que se amam, são casados há mais de 30 anos. Tenho dois irmãos e uma irmã. Meus pais não são homofóbicos ou transfóbicos, mas têm sempre receio de como isso afeta os filhos. Quando saí do armário como bissexual, foi uma questão até eles entenderam, e isso levou um tempo. Meu irmão é homossexual, também foi uma questão e depois deixou de ser. Fiz o casamento do meu irmão com o marido dele, meus pais estavam do lado, no altar. Tenho uma irmã de criação, Sandra, 12 anos a mais do que eu, tenho 34, o André, homossexual, tem 32, e o Heitor, 31. Um filho bi, um homossexual e um hétero. Bem diverso! Você vê que não tem nada a ver com criação. Em nenhum momento eu tive receio de ser posto para fora de casa, por exemplo, ou ter algum tipo de reação violenta. Isso dá uma segurança enorme. Esse tipo de amor faz toda a diferença. Converso abertamente com eles tanto sobre bissexualidade quanto sobre o processo de transição. Eles tentam entender, têm o tempo deles também. Eu demorei anos para ouvir falar e anos para entender, então como posso exigir que eles entendam assim? Não é fácil. Não exijo nem que meus pais me chamem pelo masculino. O resto do mundo sim, até os meus irmãos, mas para os dois eu não faço questão. Eu sei que daqui um tempo vai acontecer. Mas eu entendo e respeito o processo deles. Minha relação é ótima.

PP: Você é dublador trans e vai dublar um personagem trans. Como o trabalho em The Umbrella Academy chegou até você?

MR: Foi teste. Houve uma preocupação do estúdio e da Netflix de que fosse um dublador trans. Temos outras pessoas trans no mercado da dublagem, mas não me falaram sobre as outras vezes do teste. A Som de Vera Cruz entrou em contato, nunca tinha dublado lá, e quando me ligam direto normalmente é para um personagem trans. As pessoas estão buscando essa representatividade. Mas não me falaram o papel. Quando entrei no estúdio para dublar e apareceu Umbrella, fiquei assim [boquiaberto]. ‘É o Elliot Page?’. ‘É’. ‘Então vamos combinar o seguinte? Você pede para repetir quantas vezes for necessário, dirige tudo o que você quiser, repito 500 mil vezes se for preciso, porque quero muito esse papel!’. Fiz várias vezes. Uma semana passou, duas semanas passaram, e aí entendi que não tinha pegado. Na quarta semana, eu até tinha esquecido. Eu tinha o contato de um cara da tradução. Um mês depois, ele me manda mensagem. ‘Oi, estou falando de você com a Netflix há um mês e não sabia que era você. A gente quer que seja você a voz, só que estão com medo de ser um papel grande para quem está começando e você trabalha na Vox Mundi. Eles não sabem se você vai dar conta e pediram outro teste’. E aí fiz com a Miriam Ficher [diretora de dublagem de The Umbrella Academy]. Fizemos três cenas. Três dias depois, estava na casa de uma amiga e perguntaram quando eu poderia gravar três horas. ‘Pode me confirmar a produção?’. ‘Umbrella’. Foi assim que fiquei sabendo! Só divulguei depois do trailer, e eu não sabia que iria sair naquele dia [26 de maio]. Eu estava em uma reunião chatíssima quando um amigo me mandou pelo WhatsApp: ‘Amigo! É verdade?’. Porque eu não contei para ninguém, só para o meu namorado. Na verdade, na hora que eu soube comecei a chorar, ele estava perto e perguntou, aí contei.

PP: Você já acompanhava o trabalho do Elliot, então esse trabalho é muito mais especial para você. Vamos voltar para 2020, quando o Elliot se reconheceu como homem trans no final daquele ano. Como foi o seu caso no mesmo ano? Como ele te inspirou nessa identificação?

MR: É legal ressaltar que em 2011 foi aceita a união estável e em 2012 tivemos o primeiro casamento. Faz dez anos, é recente demais. As pessoas se declararem homossexuais, bissexuais, transgênero, é uma coisa que marca muito. Quando alguém que tem uma visibilidade absurda como a dele se declara daquela maneira, abre a visão para todo o mundo. Ele não simplesmente se declarou homossexual, saiu como bastião dos LGBTs no mundo! Ele veio ao Brasil entrevistar a escória homofóbica brasileira, o Bolsonaro, e ouviu coisas absurdas. Quando falamos de ativismo, com quem eu durmo não faz a menor diferença. O que faz diferença é dar visibilidade para tornar natural, para que a gente consiga conquistar cada vez mais direitos realmente iguais! Falam muito de privilégios, mas só queremos direitos. Qualquer pessoa que tenha uma visibilidade grande e saia como ativista já me inspira, e ele me inspirava muito nesse sentido. Era uma pessoa muito parecida comigo na forma de lidar com o assunto. Achei incrível. Nunca fui homossexual, sou bissexual, mas é dentro da sigla e é uma luta a qual me diz respeito.

Sou fã do Elliot há muito tempo. Já tinha visto muitos filmes, e o primeiro que me pegou foi Juno (2008). Na época vi dublado e era muito bom. Jussara Marques dublou em São Paulo e a Luisa Palomanes no Rio [ela também dublou Elliot na segunda temporada de The Umbrella Academy]. Já trabalhando em dublagem, percebi que minha voz e a dele eram muito parecidas. Ele sempre falou mais baixo, mais grave. Seria um personagem legal, mas comecei a dublar em 2015 e bem pouco.

PP: O que te levou a dublar?

MR: Um monte de coisas. Quando era criança vinha a São Paulo ver peças na Fiesp. Aos 9, vi Buster, o Enigma do Minotauro. Não lembro muito a peça, mas lembro que me causou uma coisa muito louca, ‘nossa, quero fazer isso com as pessoas’. Sou de Clementina, no interiorzão, longe para burro, 7 mil habitantes. De lá, fui para Itatiba, onde morei até cursar letras na Unesp de São José do Rio Preto. Em 2011, depois de me formar, vim para São Paulo. Viver de teatro no Brasil tem a ideia difundida de que é impossível. Meus pais nunca me impuseram nada, mas deixaram claro que existem situações em que você trabalha muito mas não consegue se sustentar. Para mim, o teatro era isso. Fui ter uma profissão que dá muito dinheiro: tradução (risos). Vim para São Paulo e conheci a Vox Mundi, uma empresa que agora é gigantesca mas na época tinha três andares em um prédio comercial em Perdizes. Na época, a Álamo era a casa de dublagem em São Paulo e a Vox só tinha um cliente, o Discovery. Não tinha pretensão alguma de trabalhar ali, mas um tradutor de espanhol ficou doente e chegou um trabalho. ‘Você faz espanhol?’. ‘Ô se faço’ (risos). Fiz o teste como se minha vida dependesse daquilo. E passei! Fiquei seis meses traduzindo o site do Discovery.

Depois fiz meu primeiro trabalho de tradução para dublagem, o programa A Volta ao Mundo em 80 Sabores. Horroroso! (risos). Depois, me passaram o primeiro trabalho em inglês, Baby Story: História de Um Bebê. Vi partos de todas as formas que você possa imaginar. Sei tudo! Aí deslanchei como tradutor em dublagem. Trabalhei a distância a faculdade inteira, mas a Vox me chamou para trabalhar internamente quando me formei, em 2011. Mas meu foco era o teatro. Estudei no Teatro Escola Macunaíma, entre 2011 e 2014. Tirei o meu DRT [registro profissional de ator] e o pessoal perguntou: ‘Você não vai dublar?’. Não conhecia tanto. Já se ouviu gravado? É esquisito! Hoje eu acho ótimo, mas no começo achava horroroso! Comecei a dublar, mas não era o meu foco. Quando comecei a dublar, em 2015, era muito ruim, e isso é doido, porque quando você tem mais de dez anos em uma área e está bem naquilo, e de repente entra em outra área completamente diferente, sem saber nada, é um perrengue! Fiquei assim até 2018, quando peguei meu primeiro personagem importante, o Nunu de League of Legends. Foi a minha virada na dublagem.

PP: Sua primeira fala na dublagem foi qual? Foi uma mulher cis?

MR: Na verdade, foi um pato. Um pato em um vozerio só com Orlando Viggiani, que tem mais de 50 anos de dublagem, e quem estava dirigindo era a Fernanda Bullara. Estava tão nervoso que tive que fazer a reação do pato algumas vezes (risos). A dona da Vox falava o tempo todo, desde o início: ‘Você tem voz de menino, tem que dublar menino’. Demorei uns bons meses para entender o que era isso. Cheguei até a fazer fono para entender o que era uma ‘voz de menino’, foi legal. A maioria dos papéis que peguei foi em desenhos, de meninos que apareciam ao fundo.

Seis meses antes do Nunu, eu tinha mandado um registro de voz para a Unidub, do Wendel Bezerra, para outra coisa. Depois, mandaram mensagem marcando escala. Eu nunca tinha dublado lá! Ele mandou mensagem: ‘Você foi escalada, o cliente te escolheu!’. Nem sabia o que era League of Legends (risos). Liguei para o meu irmão: ‘Heitor, LoL é um jogo importante?’. Ele: ‘Tem campeonato mundial!’. Passei a ter fãs e haters, ganhei seguidores no Instagram, e foi antes da minha transição de gênero. Eu me entendo como não-binário desde 2016, mas comecei a falar disso em rede social só em 2020. Ainda tinha meu nome anterior. Foi meu primeiro grande papel, que me rendeu outras coisas, mas não chegou ao tamanho do Elliot. É realmente um choque! Traduzir me ajudou a dublar, e dublar me ajudou a traduzir melhor, para entender as pausas e outras questões.

PP: A Netflix te perguntou se gostaria de mudar todos os créditos para o seu nome atual. Você se viu respeitado naquele momento?

MR: Muito! Houve essa preocupação. Eu trabalho com eles há muito tempo, já conversei diretamente com a galera de lá, fizeram projetos que acho muito legais, em conjunto com a Vox e a Cia Dom Caixote de Teatro, e estou envolvido nos três, de treinamento em dublagem. A Netflix paga parte da bolsa, a Vox paga outra parte, para pessoas de origem humilde, pessoas pretas, pessoas LGBTQIAP+. Porque uma coisa é o cliente exigir um dublador trans e não ter ninguém. Estão treinando pessoas para que elas possam de fato entrar no mercado. Isso é incrível! Isso é uma mudança que faz toda a diferença. Quando o Elliot exigiu [a troca dos créditos], achei legal, mas não imaginei que isso fosse acontecer comigo, e aí vieram me perguntar se eu gostaria. Isso foi de um cuidado impressionante. É o mesmo cuidado que eu sinto todas as vezes que alguém me chama no masculino. Eu sei quando a pessoa me chama no feminino porque errou, isso acontece, é normal, mas sei quando a pessoa está fazendo de propósito, e eu me sinto respeitado todas as vezes que me chamam no masculino. Isso é muito bom, recomendo (risos).

PP: Como está sentindo o ambiente da dublagem mais inclusivo e plural?

MR: Devo muito a algumas pessoas, entre elas a Flora Paulita. Nos últimos anos, houve um movimento muito grande em prol disso, fazer com que houvesse uma abertura. Na pandemia, ocorreu uma reunião dos dubladores em prol de ajudar quem passava por dificuldades. Aproveitaram esse espaço para fazer palestras, discussões, e saíram duas coisas muito boas: uma delas foi a discussão sobre LGBTs na dublagem e outra foi a questão de machismo no sentido de abuso. Foi legal trazer esses dois assuntos. Dali, saiu uma lista para entender abusos que já aconteceram, como mudar dentro dos estúdios. Foi fundamental. Antes de mim, vieram muitas pessoas, todas jovens. Uma galera maravilhosa que passou por muitas coisas. Ver essa mudança dentro do estúdio, em questão de respeito, já é bonito. Acompanhei mais a mudança na parte textual, de tradução. Não podia palavrão, mas podia homofobia. Temos hoje uma lista de coisas que não podem entrar na dublagem. Vamos alterando a linguagem. Acho que o streaming ajudou muito nisso, por ter material do mundo inteiro. Por exemplo, um dos meus ‘Oscars’, o curta indiano Absorvendo o Tabu, de 2018, é sobre menstruação. A Vox teve o cuidado de me escolher para a tradução. Escolheram pessoas que menstruam! Quem dirigiu foi a Raquel Marinho. Todas as dubladoras entendem o feminismo. O trabalho fica mais bonito do que colocar um diretor machista que acha tudo isso uma grande bobagem. É um movimento que vem acontecendo e é lindo de ver. Ainda sinto um carinho muito grande na dublagem, as pessoas têm me recebido muito bem, mas ao mesmo tempo tem uma coisinha de ‘ah, só pega papel porque é trans’. Fica na cabeça, é natural, mas já passei por isso outras vezes. Não quer dizer que o meu trabalho seja bom, vou me desenvolvendo. Eu, Marun, não tenho problema de fazer personagens femininos, mas eles perguntam. É uma preocupação recente. Estou vendo o mundo mudar em 2022, em pleno Brasil de Bolsonaro! Isso me dá bastante esperança.

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