Análise: Death Note é “boi de piranha” para Bolsonaro censurar obras não conservadoras

Governo quer rever classificação indicativa sob falso argumento de "proteger crianças"

Publicado em 22/10/2021 13:36
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Em 10 de maio de 1933, ocorreu na Alemanha o chamado Bücherverbrennung (“queima de livros”). Mais de 20 mil publicações de escritores inconvenientes ao regime nazista recém-empossado foram incendiados em praça pública, sob o argumento de “proteção ao povo”, e marcou a fase mais aguda da perseguição de Adolf Hitler contra a cultura, a pesquisa e os intelectuais.

Pulemos para 2021. No Brasil, dois ministérios (Justiça e Segurança Pública e Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) lançaram, no Dia das Crianças, a Política Nacional de Qualificação de Conteúdo para a Criança e o Adolescente, grupo de trabalho que irá “mapear potenciais abusos provocados por violações aos direitos da criança e do adolescente contidas em programas televisivos e conteúdos audiovisuais em geral […], provedores de conteúdo on-line, espetáculos públicos”. É aqui que entra Death Note.

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Nesta semana, duas emissoras descobriram Death Note, uma produção japonesa lançada em mangá em 2003, ganhou animação e, em 2017, um filme live-action (com atores reais) na Netflix. A obra, perseguida em outros países sob acusação (sem provas) de ter influenciado mortes em crianças e adolescentes, virou alvo de canais de TV sob o argumento falso e moralista de “proteção às crianças”.

Primeiramente, o Domingo Espetacular dedicou 12 minutos de seu espaço na Record para alertar pais de família a má influência de Death Note em crianças, que não são o público-alvo da produção, reunindo declarações de “especialistas” como advogados e psicólogos, validando a “denúncia”. Quase todos os entrevistados, entretanto, são vinculados à Igreja Universal do Reino de Deus, pertencente ao mesmo bispo dono da emissora, Edir Macedo.

O “gancho” da reportagem era um Projeto de Lei apresentado na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) na antevéspera do Domingo Espetacular. O autor da proposta? Um pastor da Igreja Universal: Altair Moraes, deputado estadual pelo Republicanos, partido político também vinculado à organização evangélica.

O deputado federal Altair Moraes (Republicanos-SP) (Reprodução/Record TV)

A repercussão negativa nas redes sociais foi instantânea. Fãs de Death Note e de cultura pop japonesa indagaram: por que uma obra com quase 20 anos de existência passou a ser odiada no Brasil somente agora? No primeiro texto publicado por esta coluna sobre o tema, havia a suspeita de que o governo federal estaria interessado ou até diretamente envolvido na “demonização” da franquia japonesa.

No Twitter, Gregório Fonseca, doutorando em Comunicação na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), uniu a perseguição a Death Note à Política Nacional de Qualificação de Conteúdo para a Criança e o Adolescente, citada no início desta análise. Na realidade, esta ligação havia sido feita pela própria Record ao exibir na reportagem uma declaração do ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, sobre a nova iniciativa do governo. O acadêmico, por sua vez, foi além e sugeriu um interesse obscuro da proposta de revisão da classificação indicativa.

A prova definitiva de que o governo está por trás da perseguição a obras supostamente nocivas às crianças foi ao ar na última quinta-feira no Alerta Nacional, transmitido em Manaus em rede nacional pela RedeTV!. O apresentador Sikêra Jr., conhecido por celebrar mortes em seu programa, exibiu um exemplar de Death Note e disse que faz parte “da geração que quer destruir as famílias”.

O apresentador introduziu um componente político à “demonização” de Death Note, pois costuma chamar de “destruidores de famílias” defensores da causa LGBTQIA+ e ativistas de esquerda. Antes de falar mal da obra japonesa, em 2020 ele “queimou” o livro de Xuxa Meneghel sobre uma criança com duas mães. Foi processado por associar a “rainha dos baixinhos” e a homossexualidade à pedofilia.

Sikêra é defensor ferrenho do presidente Jair Bolsonaro, e recebe por isso (só para “receitar” tratamento inútil contra a Covid-19 faturou R$ 120 mil do governo). Na RedeTV!, é apenas mais um que apoia explicitamente o governo, em meio a profissionais como Luís Ernesto Lacombe, Rodrigo Constantino e o vice-presidente da emissora, Marcelo de Carvalho.

Jair Bolsonaro e Sikêra Jr. (Alan Santos/PR)

Na Record, a cúpula bíblica alinhada a Bolsonaro não se incomoda em manchar seu jornalismo (nesta semana, o Fala Brasil noticiou uma simulação de incêndio em um shopping na Grande São Paulo como se fosse uma explosão de verdade, com sete feridos). ET Bilu, Grávida de Taubaté e a morte de Amin Khader são apenas alguns exemplos famosos. Em 2020, os bispos tiraram Adriana Araújo do Jornal da Record e demitiram profissionais que se opuseram publicamente ao governo (por exemplo, se autointitulando “antifascista” nas redes sociais).

Conhece a expressão “boi de piranha”. Death Note, que já tem histórico de perseguição, foi o bode expiatório encontrado pela Record e pela RedeTV!, seguindo os interesses de Bolsonaro, que deseja usar sua mídia “a favor” para influenciar a população e obter apoio para a revisão da classificação indicativa.

A própria ministra Damares Alves justificou a proposta com a série Round 6, imprópria para menores de 16 anos: “A gente vem aí com a iniciativa de rever a classificação indicativa no Brasil. Todos vocês receberam no WhatsApp, com certeza, esses dias, o desespero das famílias com aquela série que tá na Netflix, de violência. Todo mundo recebeu isso. A gente recebe denúncias como essa todos os dias. Em plena 10 horas da manhã, filme de violência e as crianças na sala”, afirmou.

A “demonização” de Death Note não é apenas uma “caça” das emissoras a animes “inadequados”. É o pretexto do governo Bolsonaro para endurecer a censura a obras que considere não conservadoras ou que atrapalhe o regime, repetindo o que já ocorreu na ditadura militar (que proibiu a novela Roque Santeiro e dezenas de outras obras) e o Bücherverbrennung nazista. A nova “queima de livros” já começou.

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