Record chama “especialistas” evangélicos para “demonizar” anime que nunca viu

Emissora usa jornalismo para sustentar narrativa distorcida da Igreja Universal sobre Death Note

Publicado em 18/10/2021 14:19
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Anime, em geral, nunca foi bem interpretado pela “família tradicional”. Vistos como “desenhos”, são associados a produtos para crianças e, por isso, viram alvo da censura de supostos “defensores” da moral e dos bons costumes (mas que aplaudiam as câmeras do Domingo Legal quase introduzidas na genitália das convidadas). Até hoje é lembrada na internet a edição do Boa Noite Brasil, da Band, em que Gilberto Barros acusou Yu-Gi-Oh! de ser demoníaco segurando uma carta do Rei Caveira.

O alvo favorito dos últimos anos é Death Note. Desde seu lançamento como mangá, em 2003, famílias desagregadas “culpam” a produção japonesa por mortes de crianças e adolescentes. Nunca foi comprovada a influência do anime nos casos, porém já serviu como argumento para os pretensos “protetores” da família esbravejarem contra a história, já “demonizada” por essas mesmas pessoas por causa do título.

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“Demonizar” é a definição ideal para a perseguição a Death Note, já que no Brasil boa parte das falsas interpretações e narrativas distorcidas vêm de evangélicos. No último domingo (17), o Domingo Espetacular, da Record, emissora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, “denunciou” os riscos de Death Note às crianças. O argumento básico: “Como deixar seus filhos assistirem a um desenho que se chama ‘Caderno da Morte’?

“Não há fundamento nessa perseguição. Death Note não é necessariamente mais violento do que outros animes, nem mesmo do que outras obras de ficção no geral. Existem cenas pesadas na obra, mas para isso deve ser respeitada a classificação indicativa. O que acontece é que muitos pais julgam que qualquer desenho animado é feito para crianças pequenas, o que não é o caso – existem animações feitas para todas as idades, então os responsáveis devem prestar atenção no conteúdo antes de permitir que os filhos tenham acesso”, pontua a jornalista e youtuber Miriam Castro, especializada em cultura pop, em entrevista à coluna.

“Porém, isso não deve ser feito na base do preconceito e sensacionalismo, como foi sugerido na matéria, que apenas gera um pânico em relação a obras japonesas. Death Note não tem mais violência do que é mostrado às crianças na programação da tarde em certos canais da TV aberta, e ainda propõe uma visão crítica à máxima do ‘bandido bom é bandido morto’, que tantos programas policiais promovem”, analisa a influenciadora digital.

Diferentemente de Death Note, a Record já foi considerada culpada e condenada (aqui e aqui, por exemplo) por tentar fazer justiça com as próprias mãos. Assista abaixo:

Igreja Universal usa Record para “demonizar” anime

Durante quase 12 minutos, o Domingo Espetacular rasgou a primeira aula de jornalismo da faculdade: estudar a pauta (o tema da reportagem). O programa simplesmente não sabia do que se tratava Death Note e forçou o “risco à sociedade” distorcendo a premissa do anime (se você escrever o nome de uma pessoa no “caderno da morte”, ela morre).

Entretanto, ao analisar friamente o material exibido pela Record, foi possível perceber que não se tratava de um material jornalístico. Na verdade, a emissora usou a integridade e a importância do jornalismo para legitimar argumentos rasos sobre um anime ao qual eles nunca assistiram. Basta se atentar aos “especialistas” chamados pelo Domingo Espetacular para “demonizar” Death Note, como a coluna fará abaixo. Em resumo: trata-se de uma “reportagem” da Igreja Universal do Reino de Deus contra a animação japonesa.

O primeiro entrevistado, Thiago Cortês, é apresentado como “sociólogo”, mas atua como bolsonarista e membro da Escola Sem Partido, movimento que tenta censurar professores não conservadores sob o argumento de que eles são “comunistas”. Já foi acusado de ser “funcionário fantasma” do deputado estadual Gil Diniz (PSL-SP).

Após exibir uma fala de pais cristãos (porque o nome “Jesus” aparece no quarto das filhas), a reportagem conversou com outros dois “especialistas”, integrantes da Igreja Universal do Reino Deus: Pastor Walter Barboza e a mulher, Patrícia Barboza, coordenadores do grupo Força Teen Universal, projeto que tenta evangelizar adolescentes sob o pretexto de “educá-los para a sociedade”.

Segundo o Domingo Espetacular, a Igreja Universal recebeu a “denúncia” de uma mãe que leu o próprio nome no “death note” da filha. Ao invés de conversar para entender se poderia estar fazendo algum mal à adolescente (que tem os pais separados), a mulher procurou a igreja. A reportagem ainda aproveita para fazer propaganda do Força Teen Universal, exaltando seu “nobre” propósito.

A entrevistada seguinte, Bruna Pinelli, aparece como “advogada”. Coincidentemente ou não, é evangélica, frequentadora assídua do Templo de Salomão e integrante do Movimento Sócio Abrigo Brasil, pertencente à Igreja Universal. Quem também valida a “demonização” de Death Note é Cassiana Tardivo, psicóloga que defende o cristianismo na educação familiar.

O deputado federal Altair Moraes (Republicanos-SP) (Reprodução/Record TV)

A “cereja do bolo” é a participação de um controverso deputado estadual que assina um Projeto de Lei que “estabelece medidas de proteção a menores de idade na aquisição de livros e artigos literários no Estado”. Na prática, é contra Death Note. O parlamentar em questão é o pastor Altair Moraes, do Republicanos (partido fundado pelo núcleo da Igreja Universal). Um detalhe que chama a atenção é que o documento, disponível no site da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) é de 14 de outubro, apenas três dias antes da exibição da reportagem. O tema, portanto, nem estava em discussão quando ganhou 11 minutos na programação da Record.

Preste atenção à justificativa do deputado para censurar Death Note: “O presente Projeto de Lei tem como objetivo proteger as crianças e os adolescentes de livros, cadernos, mídias ou quaisquer outros tipos de material que incitem à violência ou ainda ao suicídio. Livros impressos, livros digitais, audiolivros, nós temos hoje em dia uma gama de possibilidades de leitura e acesso ao conhecimento. E nesse sentido é que mora a grande preocupação dos pais: ‘Qual conteúdo meu filho (a) está consumindo?’, essa pergunta torna-se cada vez mais recorrentes nos lares paulistanos. A título de exemplo existe o ‘DEATH NOTE’, se trata de uma série que CULTUAM A MORTE. Nas livrarias é vendido o Caderno Death Note com ilustrações e regras que incitam a violência. Por isso, esse projeto de lei é de suma importância. Os pais precisam e devem filtrar o que seus filhos consomem, uma vez, que a incitação à violência é demasiadamente perigosa para a leitura de crianças e adolescentes.”

Em seu trabalho como parlamentar, Altair Moraes se mostra, no mínimo, incoerente. Quer um exemplo? Enquanto tornou “obrigatória a apresentação da carteira de vacinação no ato da matrícula escolar” (Projeto de lei 1018/2019, de 07/09/2019), quis proibir “a exigência de apresentação do cartão de vacinação contra a Covid-19 para acesso a locais públicos ou privados no Estado” (Projeto de lei 668/2021, de 02/10/2021).

Para finalizar, a coluna indaga o deputado, “orgulhosamente” conservador, bolsonarista e defensor da “família tradicional brasileira”: se Death Note “incita violência” de crianças e adolescentes, o que seria a imagem abaixo?

Jair Bolsonaro e Altair Moraes (à esquerda) e posando com uma criança armada (Momtagem/Reprodução/Instagram/Twitter)

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