“Muitos negros se sentem representados por mim”, afirma Ana Flávia Cavalcanti sobre papel em Malhação

Publicado há 3 anos
Por Leandro Lel Lima
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A dramaturgia tem o poder de retratar os mais diferentes estilos de vida de uma sociedade. Novela, por exemplo, carrega em alguns casos o merchandising social já explorado por Manoel Carlos, Gloria Perez e tantos outros autores. Assim como o teatro e o cinema, mas TV no Brasil é a grande vitrine.

Mas as tramas desses renomados autores são levadas ao ar na faixa nobre, às 20h/21h, já Malhação está há mais de vinte anos no mesmo horário, 17h, e com um público específico: adolescentes e seus familiares, já levando em conta as novas famílias que hoje ganham cada vez mais visibilidade da mídia e da sociedade.

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Escrito por Cao Hamburguer e uma equipe de colaboradores tendo como pano de fundo a capital Paulista, o folhetim que bate recordes de audiência traz temas importantes para serem debatidos durante o café da tarde, o romance não ficou de fora, mas o preconceito social – cor, classe social, orientação sexual, entre outros – está ali como eixo central.

Em seu segundo papel de destaque na TV, – a atriz esteve em Além do Tempo – , Ana Flávia Cavalcanti tem em Dóris o mix de várias mulheres: negra, de origem simples, batalhadora, culta, bem sucedida. Será que falta algo na personagem? Muitos vão pensar: um amor e filhos.

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Em entrevista exclusiva ao Observatório da Televisão, a atriz analisa a personagem, suas inspirações, o papel da mulher em meio ao mercado de trabalho versus relacionamento, preconceito e empoderamento. Em Malhação, Dóris está focada no trabalho, apesar de um relacionamento com Bóris, um educador de escola particular interpretado por Mouhamed Harfouch.

“Ser mãe é uma escolha que cabe apenas às mulheres. Por isso eu sou a favor da descriminalização do aborto e de políticas públicas que protejam as mulheres nessas escolhas”, destaca a atriz que está em cartaz nos cinemas com Corpo Elétrico.

Confira:

Como se preparou para dar vida a uma diretora de escola pública? 

Primeiramente eu fiz uma boa análise dos meus anos de escola. Pensei nos diretores e diretoras que tive. Eu fui aluna de escola pública desde a creche até o ensino médio. Reuni qualidades, postura, entrega e comprometimento desses diretores para com a escola e os alunos.

Depois visitei algumas escolas na região da Vila Mariana onde está localizada a escola Cora Coralina. Conversei com uma diretora muito competente que me relatou o dia-a-dia em uma escola.

Sempre foi boa aluna? 

Sempre fui boa aluna. Amava português, história e geografia. Tirava boas notas, mas o José Antonio era melhor aluno que eu, um amigo de sala, acho que éramos meio rivais.

Dóris representa milhares de mulheres por conta da profissão, das conquistas no campo da educação, vida social e empoderamento. Quais são as suas inspirações para compor a personagem?

Eu me inspiro muito nas mulheres brasileiras que vejo no meu dia-a-dia.

Costumo dizer que as mulheres são muito guerreiras porque pra conseguir sobreviver em uma sociedade tão machista como a nossa tem que ter muito pulso firme.

As mulheres que têm filhos então, põe guerreiras nisso, elas trabalham fora, fazem as compras, limpam a casa, preparam a festinha pro filho, acham um tempinho pra uma cervejinha, é muita coisa, entende?

A nossa sociedade distingue homens e mulheres desde que somos pequenas com frases do tipo “isso é coisa de menino e isso é coisa de menina”.

E o mais intrigante é que geralmente as “coisas” ditas de menino estão relacionadas com a diversão e o prazer, e as “coisas” ditas de menina estão relacionadas com o cuidar do outro e com a organização de uma casa/família.

Eu acho isso muito cruel, porque você cataloga uma experiência de gênero que pode ser bem mais plural.

Uma mulher, por exemplo, pode resolver não ter filhos e priorizar a carreira.

Como tem sido a reação do público?

O público me recebe muito bem. Com carinho, as crianças sempre vêm falar da Dóris. Muitos negros me cumprimentam e dizem sentir-se representados por mim na Malhação, o que deixa muito honrada.

Dóris não pensa em ter filhos, está focada na carreira. Como avalia esse “nova” forma de viver da mulher? 

Eu não vejo como um “nova” forma de viver da mulher, mulheres trabalham desde sempre.

Acontece que não reconhecemos como um trabalho o dito trabalho doméstico. Não reconhecemos na figura da famosa “do lar” e não reconhecemos também na figura da empregada doméstica.

Eu tenho uma perfomance que discute exatamente o nosso posicionamento em relação ao trabalho doméstico no Brasil, que se chama “A Babá Quer Passear”.

Mas voltando à pergunta, o que ocorre nos dias atuais é um esforço conjunto de muitas mulheres exigindo espaços que sempre foram garantidos apenas aos homens.

Como por exemplo, ter um plano de carreira. E esse direito foi muito negado às mulheres. Parece que toda mulher tem que ser mãe.

Ser mãe é uma escolha que cabe apenas às mulheres. Por isso eu sou a favor da descriminalização do aborto e de políticas públicas que protejam as mulheres nessas escolhas.

Dóris possuiu uma forte ligação com Ellen. Podemos dizer que Dóris é um espelho pra garota? 

A Doris é uma referência pra Ellen. A figura dessa diretora gera identificação na aluna e o próximo passo é a sensação de pertencimento.

De pertencer a um lugar, a um grupo, de não estar mais sozinho em suas lutas cotidianas.

Pra mim funciona mais ou menos assim: você se vê em um lugar, dai você olha em volta e vê mais pessoas como você nesse mesmo lugar ocupando posições de protagonismo.

Isso faz bem e nos faz pensar que os caminhos são muitos, que podemos escolher qualquer direção, que com determinação, foco, disciplina dá pra chegar onde quisermos.

O audiovisual no Brasil precisa produzir imagens de negros ocupando todo tipo de espaço, isso vai gerar referências em todos os âmbitos.

A Dóris e a Ellen não são a mesma pessoa, elas são diferentes, têm histórias diferentes, com suas pessoalidades únicas, mas que em uma escala social fazem parte do mesmo grupo étnico-social, daí o famoso “uma sobe e puxa a outra” que gostamos muito de usar, nós mulheres negras, faz todo o sentido.

Em uma cena levada ao ar dia 27/07, Dóris trata Edgar (Marcello Antony) com hostilidade. Como analisa o fato de em pleno 2017 alguém ser chamada de “escurinha” e ainda ser alvo da desconfiança da sociedade por conta da cor, crença, classe social? 

Eu nem preciso analisar, racismo é crime.

O Código Penal, em  seu artigo 140, § 3º determina uma pena de 1 a 3 anos de prisão, além de multa, para as injúrias motivadas por “elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, origem, ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”.

Como Malhação Viva a Diferença pode contribuir para que a sociedade reflita sobre os velhos hábitos que tanto machucam milhares de pessoas em nossa sociedade? 

O Cao Hamburguer e sua equipe de colaboradores, que conta com uma roteirista negra, a Renata Martins, têm tido muito cuidado e respeito com as temáticas abordadas, eu arrisco a dizer que nunca tocamos em temas tão pertinentes à sociedade negra com tamanha propriedade e falo isso pensando na figura da Renata que é uma mulher negra e, portanto, tem um lugar de fala garantido, afinal uma mulher preta sabe muito mais sobre ser uma mulher preta do que uma mulher branca ou mesmo (e por incrível que pareça) um homem branco.

Eu falo isso e parece óbvio, né?

Mas o que mais existe são homens brancos escrevendo para todo tipo de personagem, inclusive para uma personagem assim como a Dóris ou como a Ellen. Sem nenhuma identificação.

Complexo.

Eu acredito muito no diálogo, na troca, no encontro entre pessoas diferentes, pode até ser mais conflituoso no início, mas só podemos evoluir como sociedade se pudermos entender as demandas dos grupos dessa sociedade.

Já sofreu algum tipo de preconceito? 

Lógico que sim. Mas eu já tenho mais ferramentas pra me defender do que a maioria da população negra do Brasil.

Quem te inspira? 

Minha mãe me inspira.

No cinema você integra o longa Corpo Elétrico. Como é a sua personagem e o quanto o filme pode contribuir para a discussão da sexualidade e a diferença entre as pessoas?  

A Carla, minha personagem em Corpo Elétrico, é uma operária em uma fábrica de costura no Bom Retiro.

Ela é mãe solteira e um pouco de sua luta diária é por melhores condições de trabalho. Corpo Elétrico é um filme atual, moderno, queer, que vai abalar as estruturas convencionais do cinema nacional desde as escolhas estéticas até as expectativas sobre ser um corpo gay, sobre ser um corpo negro, sobre ser um corpo operário.

Vejam esse filme. Eu recomendo muito.

Aqui o trailer:

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