“Evelina é ‘da paz'”, diz Nívea Maria sobre papel em A Dona do Pedaço

Publicado há um ano
Por Felipe Brandão
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Uma presença discreta, porém marcante, vem roubando a cena desde o início de A Dona do Pedaço. Mas foi só de uns tempos pra cá que Evelina passou a ganhar uma trama para chamar de sua na trama de Walcyr Carrasco, ao se envolver num triângulo amoroso com Antero (Ary Fontoura) e Marlene (Suely Franco).

Coisa que é motivo de alegria para sua intérprete, Nívea Maria. “Acho que a Evelina não deve fazer maldade com a Marlene – mas ela com certeza vai se aproveitar dessa situação! [risos] O fato é que ele vai ficar dividido entre as duas, e aí a gente vai ver o que vai acontecer“, comentou a veterana.

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Confira a entrevista completa do Observatório da Televisão com essa grande atriz.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Como anda o ritmo de gravações de A Dona do Pedaço nesta reta final? Cansativo?

NÍVEA MARIA – Sim! Aliás, uma das mais coisas que está acontecendo com a equipe inteira, com todo mundo desse nossa novela é isso: cansaço. Mas eu acho que está valendo a pena porque a gente está levando ao público muitas histórias – ‘a gente’ não, o Walcyr [Carrasco, autor da trama], né? Com a criatividade dele, está levando pro público vários comportamentos que a gente tem na sociedade, vários personagens que estão vivendo problemas que na vida real as pessoas também têm. Não só em termos de caráter, mas em termos de sobrevivência, de saúde, de solidariedade. Eu por exemplo, como vocês vêm acompanhando, tenho a minha Evelina em torno de várias histórias, mas sempre ao lado da filha.

Como é pra você fazer parte de uma novela que está logrando tanto sucesso, como é o caso de A Dona do Pedaço?

O brasileiro é muito receptivo. É claro que as pessoas às vezes fazem críticas, às vezes não gostam de ver discutidos determinados assuntos, às vezes resistem a algumas realidades que a gente está vivendo… Mas a grande maioria do nosso Brasil adora se ver retratado numa telenovela, numa teledramaturgia brasileira. E o Carrasco traz na novela dele um universo múltiplo de comportamentos e de personagens, tanto homens como mulheres, que representam a diversidade que a gente têm hoje – acertando, acho eu, e fazendo gol em cada uma dessas histórias.

A Evelina agora está começando a paquerar o doutor Antero (Ary Fontoura)…

É, eu não sabia muito como ia acontecer essa história… A Evelina, dentro do mundo dela, está ali pra apoiar a filha, pra tentar esclarecer ou entender o comportamento da neta… É uma mulher da terceira idade, saudável, inteligente e nada invasiva na intimidade dos outros – tanto que ela não entra na intimidade da Maria da Paz, ela dá a sua opinião com muita discrição, com limite, respeitando o que a Maria resolve fazer da vida. Ela tampouco crucifica a neta, apesar de saber que a Jô tem um comportamento realmente muito feio, muito triste. E tem também o seu lado ‘mulher da terceira idade’, que é muito pouco valorizado dentro da nossa sociedade. E de repente o Walcyr, dentro da história, ao invés de colocá-la só observando o que acontece no mundo, colocou-a participando das relações afetivas. Quando você descobre que está sendo interessante pra outro ser humano – não importa a idade, não importa se é homem, se é mulher -, é claro que a sua vaidade, o seu ego infla! É isso o que está acontecendo com a Evelina. O Antero, [vivido pelo] nosso querido Ary [Fontoura], de repente fez despertar dentro da Evelina um lado ainda vivo, e saudável, da afetividade dela, da vida dela. Não sei como vocês vão ver o comportamento dela quando ela aceita essa cantada do Antero, principalmente sendo amiga da Marlene e tendo uma gratidão muito grande pelo que a Marlene fez pela filha dela – e por ela também, quando ela foi expulsa de casa pela Jô. Acho que isso é que vai ser divertido. Acho que a Evelina não deve fazer maldade com a Marlene – mas ela com certeza vai se aproveitar dessa situação! [risos] O fato é que ele vai ficar dividido entre as duas, e aí a gente vai ver o que vai acontecer.

A Bruna Hamú entrou recentemente na novela como Joana, que dizem ser a filha verdadeira da Maria da Paz. Como você encara essa possibilidade de reviravolta na trama? Já gravou algo nesse sentido?

Em virtude de ‘nós’ termos ficado muito chocados com o comportamento da Jô, e aí vem a presença da Joana – uma menina que tem os seus problemas, a sua vida, mas é de uma bondade, de uma simplicidade, de uma sinceridade, de uma doçura tão grande que ela conquista a gente! Mas daí a ela de repente fazer parte da família, ser a ‘minha’ neta, ser a filha da Maria da Paz… Só aguardando pra saber o que o Walcyr vai decidir. É mais um enriquecimento dentro da história, da trama toda, essa entrada da Joana na novela. E dessa atriz linda, que é uma gracinha, um amor de pessoa, e vai acrescentar mais ainda.

Como está sendo pra você retratar, através dessa personagem, o sexo na melhor idade?

Sexo, hoje em dia, é uma coisa muito complexa de se conversar. As pessoas têm reservas de algumas coisas, ou criticam algumas coisas, em todos os sentidos – no sentido da escolha de sexo, escolha de gênero, comportamento sexual… Eu acho que o corpo da gente, enquanto ser humano, tem uma coisa animal que leva ao sexo – que pode ser com amor ou não. E essa libido vive com a gente a vida inteira, só precisa ser despertada no caso. Eu espero que realmente, dentro da história [de Evelina e Antero], a gente possa mostrar uma terceira idade saudável, sexualizada, inteligente e que saiba aproveitar a vida sem ir pro lado ‘pequeno’ e ‘baixo’ do sexo. Isto é: na terceira idade, você não necessariamente precisa ter relações sexuais. Agora, a relação entre dois seres humanos, em qualquer contexto que seja, é sempre muito importante e existe sempre até você morrer!

Na novela quem cozinha é a sua filha. Mas, na vida cotidiana, você também tem esse lado ‘Maria da Paz’?

Eu gosto muito de cozinhar. O Walcyr colocou que a minha personagem não tem uma mão boa na cozinha pra ajudar a Maria da Paz. Mas, como toda mulher, principalmente da minha geração, a Evelina sabe com certeza ir pra cozinha! Se você se casa cedo, tem filhos, você aprende a cozinhar, com certeza. Mas, no que compete a mim, Nívea, eu gosto de cozinhar, e isso me levou a essa área, empresarial, de abrir o meu próprio restaurante [chamado Dois em Cena e localizado no Rio de Janeiro] – onde, mais do que o sucesso ou o lucro, meu foco é levar às pessoas que frequentam uma boa qualidade de comida, num preço que a pessoa possa pagar. Além de gerar emprego, algo também muito importante. E, apesar da crise, estamos nos mantendo de pé. Não está fácil, mas a gente continua.

Você esperava um envolvimento maior da Evelina na trama da Josiane contra a Maria da Paz – no sentido de até, talvez, vir a desmascarar a neta-megera?

Não. Quando você faz uma minissérie, você tem uma trajetória mais exata do que acontecerá ao seu personagem. Mas novela, realmente, é uma coisa aberta. Eu tentei desde o começo mostrar ao público que a Evelina pressentia que alguma coisa não estava certa no comportamento da neta e no comportamento do Régis (Reynaldo Gianecchini) também. Mas não era a missão dela interferir. Isso na vida real eu faço também. Tenho três filhos, e vou até certo ponto. Porque os respeito, eles são indivíduos que sabem dos próprios problemas. A Evelina, da mesma forma, tentava proteger a Maria da Paz e alertá-la de forma inteligente. Não acho que ela teria esse temperamento [de desmascarar abertamente a Josiane]. A Evelina é uma Ramires, ela sabe usar uma arma, mas ela não tem esse ímpeto, essa violência no temperamento dela. Ela é, digamos assim, ‘da paz’.

Você e a Juliana Paes já haviam interpretado mãe e filha antes, na novela Caminho das Índias (2009). Como está sendo esse reencontro?

Eu acho que a gente está cada vez mais unida, cada uma com a sua história de vida, crescendo, amadurecendo… Porque a gente – mesmo eu, com 72 anos – todo dia amadurece um pouco mais. Eu tenho ainda um lado meio ingênuo – talvez daí eu ser uma pessoa positiva e esperançosa nas coisas, porque eu acredito no ser humano. E vejo na Juliana uma coisa assim também. Ela tem uma energia diante da vida, como mulher, como empresária, como atriz, como mãe. Eu me vejo na Ju quando eu tinha a idade dela e vivia o momento que ela está vivendo, pessoal e profissionalmente – sem ‘enfeitar muito o pavão’, indo à luta e pensando no futuro.

Sempre que estreia uma nova temporada da Dança dos Famosos, o Faustão mostra o seu tape, citando que você é uma atriz que tornou aquele quadro antológico. Como a dança faz parte da sua vida? Essa participação também foi marcante para você?

Em vários momentos da minha vida, eu me exigi coisas diferentes, principalmente na minha carreira. Quando eu me ofereci pra fazer a Dança dos Famosos, eu estava um pouco nisso. Era a quarta edição do concurso, e havia pessoas mais jovens. Como eu fiz balé clássico, tenho ligação com música, tenho consciência do meu corpo, de ritmo e tudo o mais, eu ousei me oferecer pra fazer. Claro que, depois, vieram outras pessoas até mais velhas do que eu. Mas para mim particularmente – e acho que o Faustão entendeu isso – foi como, por exemplo, começar um relacionamento amoroso hoje, na idade que eu tenho. Se acontecer, eu vou assumir, não vou esconder. Então, as minhas falhas e as minhas dificuldades na Dança dos Famosos eu resolvi apresentar e mostrar. Isso fez com que eu chegasse mais perto do público, que o público me visse mais como uma pessoa normal, igual a eles.

A Dona do Pedaço é uma novela que nos faz refletir muito sobre o perdão. Você acha que é fácil perdoar?

Eu acho que a gente nunca esquece certas coisas. Mas, por outro lado, quem sou eu pra perdoar alguém? Acho que, geralmente, tem coisas muito mais simples para a gente pedir perdão do que coisas mais graves. O que me incomoda muito hoje, por exemplo, no país que a gente vive, é os nomes que administram a nossa política – não vou citá-los – não pedirem perdão pelos absurdos que falam. Porque a palavra, o discurso, você pode pedir desculpas por ele. O ato, em si, é mais difícil.

E como você trabalha a gratidão?

O tempo inteiro, desde que eu acordo de manhã. O meu ‘bom dia’ é ‘obrigado’. ‘Obrigado’ pra tudo: pra casa que eu tenho, pra comida que eu tenho, pros filhos que eu tenho, por estar viva, pela saúde que eu tenho… Eu não posso reclamar, gente! Gratidão tem que ser todo o dia.

A família Ramires é muito marcada por essa coisa do uso de armas de fogo – uma questão importante e pertinente de ser discutida, sobretudo no momento atual. Como vocês lidam com isso na novela?

É muito difícil, não é fácil não! Aliás, não foi nada fácil desde a primeira vez que eu trabalhei com armas, numa minissérie chamada A Justiceira – inclusive, as pessoas que nos orientaram nesta novela foram as mesmas desse seriado. É muito incômodo, é muito tenso você ter uma arma na mão, mesmo sendo com balas de festim. Eu, particularmente, sou contra o uso da arma, você ter uma arma em casa. Eu costumo dizer que ter a arma te leva a uma ação que não vai ter perdão nunca. Se mexe com o psicológico até de uma pessoa que faz curso pra lidar com aquilo, como um policial, que dirá o ser humano comum, que muitas vezes não está capacitado pra isso.

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

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