Arieta Corrêa diz ser insuportável se colocar no lugar de Leila: “Vítima de uma situação”

Publicado há 9 meses
Por Guilherme Rodrigues
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No ar como a Leila de Amor de Mãe, trama das 21h de Manuela Dias, Arieta Corrêa falou ao Observatório da TV sobre o desafio de fazer a esposa de Magno (Juliano Cazarré), que acorda do coma após oito anos e vê sua vida completamente modificada.

Você mudou a sua voz para a personagem. Como conseguiu?

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Muito bem observado. A gente se dedica tanto. A Leila me dá muito trabalho, graças a Deus, porque é uma espécie de ressurreição, um milagre. Eu fui pesquisar pessoas que ficaram muito tempo em coma e acordaram, e o que me chamou atenção no depoimento de algumas foi que elas tiveram dificuldade em começar a falar. Pensei ‘meu Deus, não tenho esse tempo, na TV é diferente’, mas que precisava dar verdade e pontuar. Colocar uma cor do que é esse drama de reaprender a andar, falar. Teve uma pessoa que ficou quase meio ano para voltar a falar um pouco. Quem passou por isso vai saber e quem é observador vai perceber.

Qual é a resposta que está tendo do público?

‘Vou dar três murros na sua cara’ [risos]. Tem essa piada, mas eu venho toda semana para São Paulo, saio nas ruas, e as pessoas tem uma espécie de amor e ódio. Elas gostam da Leila, percebo um brilhinho no olho, mas tem uma raiva. Ninguém gosta de mentira. Eu tento me fazer de público também, como ser humano e não só como artista, porque a gente tem que aprender a se colocar no lugar do outro. É muito fácil estender o dedo e falar, ‘ah, fulano mentiu, fulano roubou’, e eu? E você? O que faria no lugar da Leila? Quando eu consigo realmente me colocar no lugar dela, eu fico com uma pitada de compaixão. Muito disso justifica o comportamento da Leila, e também a ausência do amor próprio. Acredito que essa falta de amor gera maldade, violência, guerra, e por aí vai. A gente fica cego pela ganância do que a gente quer, no caso a Leila quer o marido de volta, quer a família. Eu entendo, mas como ser humano eu tenho as minhas ressalvas.

Ela quer o que é dela e para isso vai fazer de tudo?

Eu acho que sim. Eu tento falar, para eu acreditar, que ela é má, mas posso querer entrar num discurso e provar que ela não é. Eu fico fazendo essas contradições comigo para não ficar chapado o que eu vou fazer. Ela tem momentos horríveis, não tem como a gente ser hipócrita e falar que não é certo e nem errado, é errado sim, é maldade sim, uma coisa inescrupulosa. Tudo bem que você tem o seu sonho e quer aquilo, mas não dá para engolir as pessoas, passar por cima, mentir, enganar. Acho bom falar isso, por mais óbvio que seja, porque a gente está num momento no mundo que me parece que tudo não é nada. Você não precisa ter opinião, não tem certo ou errado, não tem maldade e o que é bondade, mas tem sim. Os princípios não mudam e acho importante pontuar a Leila, entender porque ela faz essas coisas, mas admitir que ela faz certas coisas que não são legais e que vai piorar.

E o relacionamento dela com a filha?

Teve uma cena que o público reclamou, que ela manipulou um pouco a criança, ‘ah, você vai ser minha espiãzinha’. Eu acho que ela está tomada, vamos entender que esse ser humano está se readaptando a uma vida que é outra da que ela deixou há oito anos atrás, então ela não está medindo esforços éticos, morais para se posicionar na vida que tinha, já que ela não tem mais nada.

Quando teve o acidente o Magno estava pedindo separação.

Eu tenho para mim que ela sabe disso. A Leila precisa fazer uma terapia, ela tem problemas sérios de possessividade, ciúme, muitos talvez se identifiquem com um terço disso, é normal essas coisas, mas acho que ela tem sim o mínimo de consciência que aquela relação estava adoecida, que ela tinha vários problemas e ouviu que o Magno queria pedir a separação. Foi isso que fez ela bater o carro. Ela não queria ouvir, mas ouviu. Ela não teve problema de memória, ela não está afim de lembrar, mas ela lembra.

Acha que ela é um pouco vítima da situação?

Acho. Eu preciso desses momentos também quando estou estudando porque senão vou fazer ela chapada. ‘Ah, ela é vilã’, a vida é vilã às vezes, a gente tem que acordar todo dia e escolher ser bom. Acordar e falar ‘Deus, me ajuda a ser bom, mesmo com quem não merece, não me tratou legal’. A Leila é vítima sim de uma situação real, ela não está com frescura. Eu tentei me colocar no lugar da Leila, e olha que eu estudo, e não consegui plenamente. É tão insuportável se colocar nessa situação. A sua vida não existe mais, sua casa não existe mais, suas roupas não existem mais, alguém da sua família talvez tenha morrido, seu filho que era um bebê tem agora 10 anos. É muito duro, é muito cruel. Então se a gente quiser colocar a Leila no colo, a gente consegue.

Ela sabe que quando ficar boa, vai ter que ir embora da casa do Magno, então não pensa em ficar boa. E o problema nem é o ‘não tem pra onde ir’, o problema é não conviver mais com o Magno. Ele é a família, a única coisa que pode ter de volta, é o espelho, a identidade.

Onde procurou as referências?

Eu escolhi mergulhar na vida. Como profissional, sempre fui de estudar referência em literatura, cinema, mas, não sei se todo mundo sabe, fui pupila do Antunes Filho, e ele sempre me ensinou a buscar referências. E eu escolhi diferente dessa vez, beber na vida, porque em maio o Antunes morreu e no fim da vida dele, ele ficou na UTI e eu fiquei frequentando o hospital. Eu comecei a digerir isso faz pouco tempo. Foi tão forte aquilo pra mim e depois que eu entendi o que ia fazer [na novela]. Tentei colocar tudo aquilo, o que vi do Antunes, o que vivi.

Um dia ele falou pra mim do nada, ‘fica no sim, na luz, no positivo, porque o esforço que você faz para ficar no negativo é o mesmo. Então fica no sim’. Claro que a vida tem conflitos, aflições, mas a gente tem que ficar no ‘sim’. Tem pessoas que passam por coisas desse tipo ou porradas que levamos na vida e esquecemos do ‘sim’. Acho que a Leila é uma metáfora disso, mas temos que ter escrúpulos.

Fez algum trabalho corporal?

Fiquei muitos anos estudando o método do Antunes e uso muito isso. É como se a gente fosse a letra L, somos suspensos pela nossa nuca, abdômen, e todo os membros estão soltos. Isso me ajudou muito, tem muito a ver com a Leila. Como se fosse um ventríloquo, tem uma firmeza no abdômen, mas está tudo solto. Como uma marionete, mas sútil. Eu emagreci cinco quilos, já ganhei três, o Zé [José Luiz Villamarim, diretor da novela] falou no início que eu estava magra. Eu quis porque eu percebi que as pessoas que estava no hospital murcham, e eu já sou ossuda, achei que ia ficar bom.

*entrevista realizada pelo jornalista André Romano.

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