“Abrem portas para a discussão”, diz Cássio Gabus Mendes sobre as novelas possuírem função social

Publicado em 13/12/2017

Em Tempo de Amar, Cássio Gabus Mendes é Reinaldo, um médico que criou sozinho sua filha após a morte da esposa. Seu personagem atualmente se encontra no foco de uma grande discussão na trama de Alcides Nogueira: a relação entre pessoas de diferentes classes sociais. No folhetim, Reinaldo se apaixonou por Eunice (Lucy Alves), empregada doméstica da cantora Celeste Hermínia (Marisa Orth), e resolveu assumir o romance mesmo com a torcida negativa da sociedade da qual faz parte. Em conversa com o ator, ele opinou sobre o personagem, suas questões, e fez um balanço de 2017. Confira:

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Como está sendo para você participar de Tempo de Amar?

A novela está muito legal, muito bonita, e com uma repercussão interessante. Estou muito feliz de poder participar dessa trama, e estamos na expectativa para os conflitos e mudanças que acontecerão. É um trabalho magnífico que estou motivado, e muito entusiasmado, assim como nossa equipe. O horário das 18h, principalmente no horário de verão que é difícil, por isso ficamos duplamente felizes por todo esse sucesso. É surpreendente você ser parado na rua, ser reconhecido e conversarem com você sobre um personagem seu das 18h, com certa frequência, sabe? Esse é o nosso termômetro mais poderoso.

Como está sendo viver esse personagem que tem um romance não muito aceito com a personagem da Lucy Alves?

Maravilhoso! É um conflito grande esse romance, porque ele enfrenta vários problemas pela frente, problemas tanto pessoais, como profissionais. Acredito que seja um tema interessante sobretudo nos anos 1920, porque se até hoje vemos barbaridades, imagine naquela época? Uma pessoa que toma uma atitude como o Reinaldo tomou, é uma pessoa disposta a passar por grandes problemas sem abrir mão do amor.

E esse seu cabelo grisalho? 

Esse branco infelizmente não é pintado, é permanente (risos).  A vida é assim, a gente começa a ter cabelo branco, no dia seguinte já tem mais, e isso faz parte da vida. Eu não tenho problemas com isso, mesmo sabendo que o tempo é cruel. Estou feliz com isso.

Como serão suas festas de final de ano?

Sobre as festas de final de ano, honestamente, não sou fascinado. O Natal possui tradição muito grande, é um momento que se pode juntar a família. Eu por exemplo, moro em São Paulo, e gravando no Rio de Janeiro, eu fico longe da família, e nos dias 24 e 25, temos a oportunidade de estar próximo, para mim significa isso. No ano novo, não tenho costume de ir a grandes festas, fico com amigos mais íntimos.

Como foi o seu 2017?

2017 foi ótimo, trabalhei bastante. Fiz o filme Gosto Se Discute, com a Kéfera, que está atualmente nos cinemas, e estou fazendo essa novela maravilhosa, com um personagem tão bacana. Com certeza é um trabalho que vai ficar marcado na minha carreira. Ao mesmo tempo estou muito assustado com esse retrocesso social do país, e nunca me senti tão preocupado, mas na minha vida pessoal e profissional não tenho o que reclamar.

O que você espera para 2018?

Quero muita paz para todos nós e que esse país tenha um rumo diferente, aquecido de outra forma, com mais tolerância, com organização, mais ética, que sei que é muito difícil, porque vivemos num país sem perspectiva, sem futuro. Infelizmente não sou muito otimista em relação ao nosso país, mas espero que eu queime minha língua. Se eu estiver errado, e espero estar, vou comemorar muito.

Seu personagem parece um pouco com a personagem de Emma Stone em Historias Cruzadas, né?  

Eu já vi esse filme, mas não me lembro bem. O Reinaldo enxerga uma pessoa além de qualquer posição social ou etnia, e essa é uma característica dele, ser uma pessoa totalmente sem preconceito, então, para ele é absurdamente normal. O personagem é muito bem desenhado pelos autores, e não vê restrições nas pessoas a sua volta. Antes da Eunice, ele já era sem preconceito e disponível para tudo.

Ele criou a filha, mas ela é diferente dele, né? 

Sim, porque existe uma tragédia familiar no meio, e a filha sente a culpa por ter participado da morte da mãe, e ficou desestruturada emocionalmente por isso. Na vida, as pessoas têm diferentes necessidades dentro de suas carências e limitações, o que é o caso da filha. Já gravamos cenas que expõem esse conflito.

Você percebe que seu personagem é tão atual porque ele está em outro século, e vivemos atualmente o que ele vive, o preconceito velado, né? 

É terrível! Isso vai sempre existir, e o importante é a reação das pessoas, que elas possam ver atitudes assim e denunciarem. Hoje com as redes sociais, dá para identificar muito mais, e alcançar pessoas que se escondem. Pessoas que agridem, racialmente, socialmente, que de forma geral ficam escondidas e as redes sociais ajudam a encontra-las.  Essa é a grande defesa que temos para ir de encontro ao preconceito, identificar e expor quem cometeu esse crime. As coisas não podem ser deixadas para lá.

Você costuma usar as redes sociais?

Eu nunca tive hábito de usar, mas tenho e-mail e Instagram apenas. Mas quando você começa a usar, você se aproxima desse tipo de coisa, mesmo para o trabalho. Procuro estar atualizado, porque hoje temos acesso a tudo.

Como você lida com a idade?

Eu não tenho toda essa idade que todo mundo pensa que tenho (risos). Eu lido muito bem. Sei que o tempo é cruel, mas reconheço que tenho sorte, tenho saúde, sou requisitado para trabalhos na minha profissão, com bons personagens e boas histórias, me sinto abençoado por isso. Agradeço a Deus por tudo o que tenho.

O seu pai era um grande dramaturgo. Você pensa em escrever?

Não. Isso aí infelizmente, eu não tenho a menor vocação, se bobear não consigo escrever um bilhete para alguém (risos). Não tenho facilidade, mas não é um problema para mim, porque identifiquei isso há muitos anos, e penso que é melhor eu ir para onde tenho vocação.

Você enxerga a novela como possibilidade de propor discussão sobre os temas apresentados?

A novela é um entretenimento, mas sabemos que às vezes os conflitos dos personagens podem atravessar esse portal e se assemelhar às situações do cotidiano, porque podemos não só entreter, mas passar uma mensagem, denunciar alguma coisa, então, acredito que sim, que as novelas abrem portas para a discussão.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano