Valor da Vida é uma aposta arriscada para o horário nobre da Band

Escalada para substituir Ouro Verde, trama da TVI flerta com a ficção científica e foge à cartilha convencional da telenovela

Publicado há 4 meses
Por Felipe Brandão
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As novelas portuguesas parecem ter vindo mesmo para ficar na grade noturna da Band. Apesar do desempenho mediano de Ouro Verde no Ibope, o canal do Morumbi está decidido a manter a parceria com a rede lusitana TVI e acaba de definir um novo título do catálogo além-mar para sua faixa de dramaturgia diária do horário nobre: Valor da Vida, produção de 2018 com um total de 203 capítulos.

Longe de surpreender, a escolha soa quase óbvia –
são tantas as semelhanças entre Valor da
Vida
e Ouro Verde que a primeira
se faz praticamente uma sucessora natural da segunda. Para começar, ambas
histórias levam a assinatura da mesma escritora, Maria João Costa – aclamada como
a ‘Glória Perez da terrinha’ pela imprensa local. A presença de nomes de certo
de peso da dramaturgia brasileira é outro ponto em comum – ex-globais como Thiago
Rodrigues, Carolina Kasting e Marcello Antony figuram entre os protagonistas da
trama que desembarca por aqui em junho.

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Uma grande distância, porém, se estabelece entre
as duas produções quando nos detemos a comparar as sinopses de cada uma delas.
Centrada na busca de José Maria Magalhães (Diogo Morgado) por vingança contra
os assassinos de sua família – com direito a paixão proibida por Bia (Joana de
Verona), filha de seu principal algoz –, Ouro
Verde
traduz-se, grosso modo, na telenovela na sua forma mais clássica de
existir.

Vamos agora a Valor
da Vida
. A história tem início quando a turista portuguesa Aisha (Isabela
Valadeiro) depara-se, entre umas ruínas libanesas que está visitando, com a
figura perdida e confusa de Artur (Rúben Gomes), homem desmemoriado sem
qualquer lembrança do próprio passado. Com a ajuda das autoridades locais, ele
descobre a própria identidade apenas para se envolver em um mistério ainda
maior: Artur é um poderoso empresário que passou os últimos 20 anos
desaparecido.

Dado como morto, ele surpreende a própria família
ao regressar não apenas vivo, mas tão jovem como na última vez em que foi visto
em sociedade. Como é possível Artur não ter envelhecido um único dia durante
todo esse tempo? A busca por essas respostas levará o protagonista ao encontro
de Isabel (Daniela Melchior), uma jovem de apenas 19 anos cujo rosto lhe traz
uma inexplicável, mas profunda sensação de familiaridade – mais um dos
mistérios que ele terá de desvendar sobre si.

Uma história instigante, com certeza, mas que remete
muito mais ao universo do cinema e das séries de streaming que à por vezes engessada cartilha do folhetim diário. No
histórico da Rede Globo, obras como Além
do Horizonte
(2013), Tempos Modernos
(2010) e Negócio da China (2008) já
se propuseram antes a romper os tabus impostos pelo gênero clássico, flertando
com a ficção científica – e a maior parte delas resultou em retumbantes
fracassos de público.

Num panorama como o atual, de crise na televisão
brasileira – e em especial na própria emissora –, será mesmo o momento de a
Band arriscar a relativa estabilidade conseguida através de Ouro Verde – que, bem ou mal, tem ao
menos mantido os níveis de audiência de sua antecessora, a turca Minha Vida – para investir em um produto
com temática tão fora convencional, junto a um público que, ao menos no Brasil,
mostra-se tão conservador e aferrado ao ‘mais do mesmo’, como o da telenovela? O
fato de Valor da Vida ter, em
Portugal, se saído tão bem quanto a própria Ouro
Verde
será garantia de que o êxito dessa dobradinha se repetirá por aqui?

São algumas das questões que os irmãos Saad devem
ter em mente antes de dar o parecer final a respeito de sua próxima novela.
Afinal, uma escolha em um momento tão crítico pode significar o abreviamento de
uma parceria que tem tudo para dar certo a longo prazo, desde que conduzida com
a devida cautela.

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