No Viva, O Clone deixou mais claros seus defeitos, mas reforçou suas qualidades

Reprise da novela de Glória Perez termina nesta sexta-feira

Publicado há 2 meses
Por Fábio Costa
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Em dezembro de 2019, quando o Canal Viva estreou a reprise de O Clone, eu escrevi aqui nesse mesmo Observatório da TV que valia a pena ver de novo a novela de Glória Perez, original de 2001-02 e já reprisada na TV Globo em 2011.

Com toda a certeza, depois desses quase nove meses, uma vez mais se pode dizer que valeu. No meu caso, de novo e pela primeira vez desde a exibição original, já que o repeteco vespertino não pude acompanhar.

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A autora uniu temas aparentemente díspares e desconexos como vício em drogas, cultura muçulmana e clonagem humana e com eles construiu uma história inesquecível, que mereceu todo o sucesso conquistado mundo afora nesses quase 20 anos de trajetória.

Desde o elenco, escolhido a dedo pela autora e pelo diretor de núcleo Jayme Monjardim, até a árdua pesquisa dos assuntos tratados e a felicidade dos conflitos criados por Glória para complicar ainda mais os rumos do romance de Jade (Giovanna Antonelli) e Lucas (Murilo Benício), O Clone reforçou nessa reprise seu potencial de novela clássica.

Não apenas pelo Ibope na casa dos 60 pontos que determinados capítulos conquistaram na faixa nobre global, ou pelas dezenas de convidados que foram comer um pastel de camarão no Bar da Jura (Solange Couto), mas pela habilidade de Glória em tratar de uma história de amor com tanta delicadeza quando temas fortes a rodeavam.

E ao conseguir manter expectativa e torcida em torno de todos esses temas e personagens. O dilema ético, científico, jurídico, familiar, social e psicológico que a criação por Albieri (Juca de Oliveira) de um clone de Lucas, Leo (também Murilo Benício), implica mostra como 20 anos depois as mesmas questões seguem sem resposta.

Talvez mais do que na época. Afinal, como não se solidarizar com os problemas de Leo, sem saber seu lugar no mundo, sem saber nem quem é seu pai, e os de Deusa (Adriana Lessa), a mãe, usada numa experiência sem fazer a mínima ideia disso e sofrendo a vida toda as consequências do ato de Albieri, que beneficiaria (talvez) a ele apenas?

Aqui um elogio a mais a esses três atores – Murilo, Adriana e Juca. Seus personagens poderiam ter se perdido facilmente com uma escalação de elenco equivocada. Adriana merece outros momentos de brilho como teve aqui. Murilo fez de Lucas, Diogo e Leo três figuras iguais apenas na aparência, o que ficou nítido principalmente depois que Lucas e seu clone passaram a contracenar.

Juca foi sempre de uma capacidade imensa de fazer com que o público se pusesse a pensar se Albieri não tinha razão em fazer tudo que fez e como fez. Sua competência transparecia como o fascínio do geneticista pela experiência que conseguiu fazer.

Fora outros nomes como Stênio Garcia (um Tio Ali perfeito, em papel que teria sido de Lima Duarte), Jandira Martini, Antonio Calloni, Letícia Sabatella, Eliane Giardini, Osmar Prado (um Lobato intenso), Cristiana Oliveira (a odiosa Alicinha), entre tantos.

A abordagem do vício em drogas obedeceu a critérios do momento em que foi feita e impactou bastante o público e, se talvez hoje pudesse ser reavaliada num remake, quem sabe nem mudasse tanto assim na intensidade do desvirtuamento de valores e prioridades ocorrido na vida daqueles que sofrem como Mel (Débora Falabella) e Lobato.

A cultura muçulmana e seus preceitos, defendidos com veemência pelo Tio Ali (Stênio Garcia) e com bastante hipocrisia pelo Tio Abdul (Sebastião Vasconcelos), mostraram aos telespectadores de diversos países que os muçulmanos não são todos terroristas sanguinários, como se temia que a audiência pudesse pensar depois do 11 de Setembro, o que resultaria em fatal rejeição.

Um senão da novela é sua longa extensão: 221 capítulos, vários deles bastante longos, com mais de uma hora. Verdade seja dita, a culpada não foi Glória Perez – as novelas da época, especialmente as “das oito”, eram apresentadas todas nessa base. Com capítulos um pouco menores e em menor quantidade – 180, talvez – todos sairiam ganhando, com um resultado ainda superior ao que se obteve.

Eventuais defeitos ela também os tem, motivados vários deles por essa longa duração. Demora na resolução de determinados conflitos, cenas repetitivas além do tolerável no gênero novela, que trabalha dia a dia com a reafirmação de fatos do enredo etc. Excesso de “dancinhas” e coisas do tipo também.

Todavia, O Clone já entrou para o rol das grandes novelas brasileiras, diante de sua inquestionável qualidade de dramaturgia e do êxito na tarefa de contar essa “história de amor que a ciência ajudou a construir”, como dizia a promoção da época da estreia, em 2001. As qualidades da novela falam mais alto do que os pontos negativos.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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