Fina Estampa repete sucesso, mas reprise evidencia suas falhas

A novela se tornou um embolado de tramas frouxas e sem sentido

Publicado há um mês
Por André Santana
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Ao escolher Fina Estampa como a reprise que serviria para tapar o buraco deixado por Amor de Mãe, a Globo foi feliz no critério: trama de sucesso, já com uma qualidade de imagem ao qual estamos acostumados hoje, e com temática leve, propícia para servir como válvula de escape em meio a uma pandemia.

E a trama de Aguinaldo Silva correspondeu às expectativas, encerrando nesta sexta-feira (18) sua reexibição repetindo o sucesso da exibição original, em 2011. No entanto, a revisita à Fina Estampa não apenas evidenciou sua total ausência de trama, como ainda mostrou o quanto a novela envelheceu mal.

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A novela começa bem. Há um clima solar e alto astral que a coloca como um entretenimento descompromissado. Griselda, a Pereirão (Lilia Cabral) é uma ótima protagonista, um tipo simpático, inusitado e rico de possibilidades. E Tereza Cristina (Christiane Torloni) é uma ótima vilã, uma perua fútil e cômica que sempre rende em novelas.

A rivalidade das duas dá substância aos capítulos iniciais. Tereza Cristina chega até a admirar Griselda em alguns momentos, mas logo seu sentimento vai virando ódio, quando percebe que a filha está namorando o filho dela. E, principalmente, quando nota o interesse do marido René (Dalton Vigh) numa mulher completamente despida de vaidades.

Mas a rivalidade perde toda a força quando Griselda se torna milionária. De repente, o ódio de Tereza Cristina deixa de fazer sentido e se torna implicância gratuita, o que ela até admite no capítulo final. Além disso, Griselda, ao se tornar rica, fica profundamente desinteressante. Ela se torna espectadora da história que deveria protagonizar, apenas comentando a vida alheia e apagando os incêndios provocados pela vizinha maluca.

Sem história, Fina Estampa vai se arrastando até o final, com Tereza Cristina tentando atacar Griselda, ao mesmo tempo em que tenta proteger um segredo de família que não faz o menor sentido. Boa parte de seus crimes são justificados por este segredo, que nem ao menos é verdade. É uma trama frouxa, que simplesmente sai do nada e chega ao lugar nenhum.

Anos depois…

Além disso, várias das tramas de Fina Estampa envelheceram muito mal. A principal delas é a de Crô (Marcelo Serrado), o mordomo gay que funciona como alívio cômico. Já na exibição original, os constantes ataques homofóbicos sofridos pelo mordomo incomodavam. Em 2020, a situação ficou ainda mais grave.

Para piorar, ele passa a formar uma dupla com Baltazar (Alexandre Nero), que começa a história como um violento agressor de mulheres, e a termina como um mero rabugento. A “graça” da dupla consiste nas ofensas gratuitas de Baltazar, respondidas em tom de provocação sexual. Problemático.

Fina Estampa também colocou assuntos sérios em debate, mas os resolveu de maneira nada adequada. Um exemplo: Alex (Rodrigo Hilbert) era um professor universitário que assediava alunas. Para fazê-lo parar, Antenor (Caio Castro) e seus amigos armam para filmá-lo em ação. Eles conseguem a prova de que o professor é um assediador, mas não entregam o vídeo para a reitoria. Apenas pedem para que o professor não faça mais isso. Oi?

Apelo popular

Mas não há dúvidas de que Fina Estampa tem um enorme apelo popular. Aguinaldo Silva se perdeu na construção de suas tramas, mas se sustentou nos tipos que criou e em situações episódicas mambembes, que davam a falsa impressão de ação. Os diálogos afiados (muitos de extremo mau gosto) divertiam o público, mantendo-o atento.

Porém, não contou história alguma. Pareceu mais uma boa ideia que foi abandonada no meio do caminho. Sabendo que a galeria de novelas de Aguinaldo Silva é composta por novelas do nível de Roque Santeiro, Tieta, Pedra Sobre Pedra e Senhora do Destino, Fina Estampa foi um ponto fora da curva.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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