Deus Salve o Rei, a novela-série (ou a série-novela)?

Publicado há 3 anos
Por Fábio Costa
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Desde sua estreia em 9 de janeiro, e mesmo antes, a novela das 19h da Rede Globo, Deus Salve o Rei, tem sido comparada com diversas outras produções, especialmente com o sucesso mundial Game of Thrones (HBO), criação de David Benioff e D. B. Weiss a partir dos livros de George R. R. Martin. Escrita por Daniel Adjafre, a história dos reinos de Artena e Montemor, na Cália, unidos pelos tratados dos reis Augusto (Marco Nanini) e Crisélia (Rosamaria Murtinho) – de paz e cooperação mútua entre os dois povos, com o primeiro fornecendo água para o segundo em troca de minérios – e pela trajetória do príncipe herdeiro de Montemor, Afonso (Rômulo Estrela), que abdica do trono para poder viver seu amor por Amália (Marina Ruy Barbosa), plebeia de Artena, também chega a ser comparada com um sucesso do mesmo horário e da mesma emissora em 1989, Que Rei Sou Eu?, de Cassiano Gabus Mendes. Mas as comparações têm fundamento?

A ambientação no ano de 1300, na Idade Média – ainda que uma Idade Média de fantasia, com referências visuais de filmes e livros, como Os Três Mosqueteiros, Os Cavaleiros da Távola Redonda, Dom Quixote de La Mancha, sem maiores preocupações com a História com agá maiúsculo – ajuda a fomentar essas comparações. Desde outubro do ano passado, quando foram divulgadas as primeiras fotos de atores caracterizados como seus personagens da novela, o clima de Game of Thrones ficou ainda mais forte junto aos fãs da série, seja com esperança de algo bom numa novela brasileira que aproveitasse o gancho, seja criticando antecipadamente a eventual inspiração. Personagens como Selena (Marina Moschen), a jovem que deseja fazer parte do exército de Montemor, Bryce (Bia Arantes), a feiticeira muito idosa que rejuvenesce ao tomar para si a juventude de outras pessoas e, especialmente, a ardilosa e ambiciosa princesa Catarina, encontram paralelos bastante próximos na série da HBO – a saber, respectivamente, Brienne (Gwendoline Christie), Melisandre (Carine van Houten) e Cersei (Lena Headey). Ainda, especialmente pelo figurino, não faltaram vozes a dizer que Afonso é o Jon Snow (Kit Harrington) da novela global.

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É preciso frisar que, embora as tramas das séries por vezes se desenrolem ao longo de mais de um episódio, como as novelas, as estruturas narrativas de cada gênero são distintas. Ao longo do tempo tanto as novelas adquiriram características das séries como o inverso, mas em sua essência elas permanecem diferentes entre si. O modo de produção, o regime de exibição, o número e características dos personagens e a forma como se entrelaçam, tudo difere das séries para as novelas.

Também é preciso esclarecer que, após décadas de histórias que em geral partiam de romances e situações cômicas para sustentar os capítulos, e quase sempre ambientadas na atualidade, é natural que o público e mesmo os jornalistas busquem um referencial minimamente semelhante para fazer comparações – no caso, esse referencial só foi encontrado em 1989, na já citada Que Rei Sou Eu?, embora a novela de Gabus Mendes se ambientasse em 1786, três anos antes da Revolução Francesa, e não na Idade Média. Ambas as novelas apresentam reinos, monarcas, plebeus, tabernas, intrigas de interessados no trono e no poder, mas as semelhanças param aí. Deus Salve o Rei é uma grande fantasia romântica com toques de ação muito bem desenvolvidos em termos de efeitos, enquanto Que Rei Sou Eu? fazia uso de uma apurada crítica social e política do Brasil de seu tempo, transfigurado no reino de Avilan, a partir da comédia e da aventura de capa-e-espada.

Uma coisa é aproveitar a onda e abiscoitar uma parte do apelo de audiência de Game of Thrones, e outra é a cópia sem igualdade de condições em diversos aspectos. Ainda, ressalte-se que sem uma boa história, bem contada, produzida, dirigida e interpretada, leves alusões a Westeros do sucesso mundial da HBO não garantiriam sucesso algum. Sucesso que a Globo pretende alcançar não apenas internamente como no exterior, ao ter como oferecer ao mercado internacional uma novela – que pode perfeitamente ser reeditada e ganhar ritmo de série, em quantidade menor de capítulos/episódios e mais agilidade narrativa – que tenha ingredientes atrativos aos fãs de Game of Thrones, Vikings e tantos projetos quantos ainda devem surgir com temática semelhante. A qualidade da emissora carioca no setor de teledramaturgia é incontestável e reconhecida mundialmente, e o grande desafio é manter bons resultados estéticos e artísticos num produto pensado para mais de cem capítulos, quando cada temporada da série da HBO chega apenas a dez e tem muito mais tempo para ser pensada, escrita e filmada. Já que se pode ao menos tentar e com o maior cuidado possível, de uma forma que apenas a emissora poderia, por que não?

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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