Como Sassá Mutema disse, O Salvador da Pátria é o próprio povo, numa novela atual de mais de 30 anos

Publicado em 12/11/2021 20:26
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O Viva encerra neste fim de semana a reapresentação integral da novela O Salvador da Pátria, de Lauro César Muniz, que teve início em 12 de abril. Os 186 capítulos produzidos em 1989 – e condensados em 87 no Vale a Pena Ver de Novo, em 1998 – puderam ser avaliados pelos espectadores de hoje, muitos dos quais nascidos depois da novela, como é comum em relação às atrações do canal pago.

Nos últimos sete meses, o público pôde acompanhar, de novo ou pela primeira vez, a trajetória de Salvador da Silva, ou Sassá Mutema (Lima Duarte), como é conhecido de toda a pequena Tangará, no interior paulista, onde vive e trabalha como boia-fria, colhendo laranjas, café ou cana-de-açúcar, conforme época e patrão.

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Sassá Mutema (Lima Duarte) e Clotilde (Maitê Proença) em O Salvador da Pátria (Reprodução/Viva)

Analfabeto e já não muito jovem, Sassá vivia uma vida “besta”, muito simples, até conhecer a professora Clotilde (Maitê Proença), que foi para a cidade dar aulas aos boias-frias iletrados como ele, e ser envolvido numa tramoia do político Severo Toledo Blanco (Francisco Cuoco) e sua esposa Gilda (Susana Vieira).

Para encobrir o caso extraconjugal do candidato a deputado com a jovem Marlene (Tássia Camargo), Sassá é convencido a casar-se com a moça, em troca de uma vida melhor e menos sacrificada – e do que o leva a aceitar a proposta: ter para si a professora, por quem se apaixonou perdidamente.

O fascínio de Sassá por Clotilde, uma quase devoção mesclada ao amor e ao desejo, já se mostrou suficiente para que a moça linda da cidade grande, que fugia de um passado triste, aos poucos se descobrisse mobilizada por um grande sentimento pelo simplório colhedor de laranjas.

Juca Pirama (Luís Gustavo) em O Salvador da Pátria (Reprodução/Canal Viva)

Um inescrupuloso radialista de nome Juca Pirama (Luís Gustavo) se torna uma pedra no sapato não só de Severo, seu alvo principal por causa do caso com Marlene, mas também de outras figuras importantes como Marina Sintra (Betty Faria), fazendeira viúva, líder de esquerda. Sua morte numa cena arranjada para forjar adultério é suficiente para fazer de Sassá um herói que liberta Tangará de um hipócrita mau-caráter.

O fato de ser visto como assassino de Juca Pirama, um safado, e de Marlene, uma esposa infiel, ajuda Sassá a eleger-se prefeito da cidade, numa ascensão rápida e intensa que faz crescerem os olhos dos caciques políticos. Todos disputam o privilégio de se atrelar ao boia-fria que deu certo e capitalizar essa ligação.

Enquanto isso, a vida política e os problemas de Clotilde com o marido Ricardo (Gracindo Júnior), uma gravidez da moça e a inserção de Sassá num processo de “severização” quase afastam o casal por completo e de vez. De sua parte, outro personagem bastante importante, João Mattos (José Wilker), namorado de Marina, se vê com a vida cada vez mais enredada por uma organização de tráfico internacional de drogas.

João (José Wilker) em O Salvador da Pátria (Reprodução/Canal Viva)

Piloto de avião e irmão de Juca, ele passa algum tempo preso depois de ser envolvido pelo irmão em suas operações. Com sua fuga da cadeia e a morte do radialista, ele assume os negócios de Juca na rádio e segue sendo visto como peça fundamental ao tráfico de drogas, e precisa aguardar a hora certa de pular fora sem arriscar as vidas de quem ama – Marina, a ex-mulher Ângela (Lucinha Lins) e a filha pequena, Regina (Natália Lage).

Por mais que tenha ficado marcada por um dos romances mais célebres da teledramaturgia – o de Sassá e Clotilde, embalado por Oswaldo Montenegro com sua ‘Lua e Flor’ -, que se transformam mutuamente com a intensidade e mesmo o inusitado desse amor, O Salvador da Pátria já expressa em seu título grandes preocupações políticas, naquele ano de 1989 que marcava a volta das eleições presidenciais diretas no Brasil após quase 30 anos.

A partir da ascensão de Sassá Mutema social e politicamente, Lauro César Muniz e Alcides Nogueira, que colaborou no texto, traçaram um retrato do pujante Brasil interiorano, com dinheiro farto em ambientes nos quais predomina o bom e velho coronelismo, ainda que disfarçado de sociedade moderna e transformada. E que mais de três décadas depois da novela escrita e exibida segue identificável em sua urdidura de estratégias para a manutenção do poder.

É bem verdade que não foi uma tarefa fácil escrever a novela. Lauro César teve que abrir mão de sua intenção de tornar Sassá Mutema presidente da República no final da história, para de fato “salvar a pátria”. No entanto, as articulações das figuras políticas com os envolvidos na organização, a revelação paulatina de que personagens acima de qualquer suspeita também estavam entre os bandidos e o Sassá poderoso que enfrenta o tráfico no desfecho mostram o esforço para não deixar o projeto descambar.

Gilda (Susana Vieira) e Severo (Francisco Cuoco) em O Salvador da Pátria (Reprodução/Canal Viva)

Merecem destaque, num elenco de estrelas, as interpretações de Susana Vieira e Francisco Cuoco, o casal que uniu tão intensamente dinheiro, poder, influência, aparências e instituição da família que não conseguia se separar, ainda que passe parte da novela rompido; Betty Faria no difícil papel da mulher que se fechou para o amor em nome de ideais políticos e que se viu envolvida por um misterioso forasteiro (um José Wilker não menos merecedor de citação).

Mário Lago como o senil Seu Quinzote, proprietário rural de passado glorioso e presente melancólico; Thales Pan Chacon no papel de Cássio Marins, o advogado que sempre esteve certo ao não crer na culpa de Sassá nos crimes de morte do qual era acusado; a presença marcante de Lúcia Veríssimo como a sedutora e ardilosa Bárbara, que afinal é a chefe dos bandidos; e os trabalhos decisivos de Tássia Camargo e Luís Gustavo nos primeiros 15 capítulos, que marcam toda a narrativa.

Claro, não se pode deixar de lembrar Lima Duarte, que consagrou seu Sassá Mutema como um dos mais marcantes personagens das nossas novelas. A trajetória desse boia-fria “do nada ao entendimento”, como definido pelo próprio ator, reluz na interpretação precisa de um ator que tem em si a essência do homem brasileiro.

E o autor não deixa passar em branco no capítulo final um novo sentido para o título de sua história, pela boca do protagonista. Ao ser apresentado por Seu Quinzote como “O Salvador da Pátria”, Sassá não se faz de rogado: “Não! Salvador da Pátria não! Quem salva a Pátria é o povo! Um povo que se preza, que tem a sua dignidade, não precisa de salvadores! Quem salva a Pátria é o povo!”.

Possivelmente, O Salvador da Pátria deve figurar entre as próximas inserções do Globoplay em seu catálogo, como parte integrante do projeto de resgate de clássicos da TV Globo e a exemplo de outras novelas recentemente exibidas pelo mesmo Viva, como A Viagem (1994) e Sassaricando (1987/88) que, mal terminaram na televisão, já estavam disponíveis no streaming. Que esse reencontro com Sassá Mutema e sua história nos ajude a refletir sobre o Brasil.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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