A importância da representatividade na Globo (e na televisão em geral)

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
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Uma postagem de Alinne Prado, ex-Vídeo Show, repercutiu muito e reacendeu a discussão sobre a representatividade negra na televisão brasileira. A jornalista postou em seu Instagram suas impressões acerca do novo momento do programa. Sobretudo, falou da justificativa que lhe fora dada quando de sua demissão, supostamente devido a contenção de gastos da atração. Não só Alinne fazia reportagens, como chegou a apresentar o vespertino em esquema de rodízio.

Ao contrário da justificativa dada, na verdade haveria a intenção de limá-la do programa por ser negra, segundo Alinne deu a entender a seus seguidores. A postagem deu novo gás a uma discussão que estava um pouco adormecida nas últimas semanas. E que teve força quando estreou a atual novela das 21h, Segundo Sol. A discussão sobre a representatividade negra na televisão brasileira e o preconceito que impede o negro de ter visibilidade.

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Jornal britânico critica Segundo Sol pela falta de representantes negros no elenco da novela

A representatividade negra positiva já teve espaço na Globo

Em outros tempos, o negro brasileiro foi mostrado pela Globo de maneira, digamos, mais própria. Ainda que em situações de racismo, afinal, especialmente a dramaturgia apresenta a questão para que seja discutida – e já que ela não pode ser negada, sob pena de alienação. Já em 1975 a novela Pecado Capital mostrou Milton Gonçalves na pele de um renomado terapeuta, Dr. Percival, que cuidava do caso de Vilma (Débora Duarte). Ela era uma jovem com problemas psicológicos decorrentes de um trauma de infância. O mesmo Milton interpretaria depois em Roque Santeiro, de 1985, um promotor público, o Dr. Lourival, que não se rendia às artimanhas e chantagens de Sinhozinho Malta (Lima Duarte).

Marcos Paulo e Zezé Motta em Corpo a Corpo (Divulgação/ TV Brasil)

Corpo a Corpo: Zezé Motta e a representatividade feminina e negra

Na novela anterior a Roque Santeiro, um dos casos mais emblemáticos de abordagem do racismo em nossa teledramaturgia. E de família negra mostrada como normal, sem banditismo, sem marginalidade. Com filhos estudando e em busca de um futuro melhor. Corpo a Corpo apresentou Zezé Motta no papel de Sônia, uma paisagista. Seu romance com o branco Cláudio (Marcos Paulo) sofria oposição de Alfredo Fraga Dantas (Hugo Carvana), pai racista do rapaz. Floriano (Clementino Kelé), o proprietário de uma empresa de táxis, se casa com a mãe da jovem. Jurema (Ruth de Souza) ficava viúva de Rangel (Waldir Onofre) no decorrer da novela.

Atualmente em reprise no Viva, Sinhá-Moça (1986) centrou logo depois sua história nos dois anos anteriores à Abolição. Havia vários atores negros no elenco, como não poderia deixar de ser, e a condição de escravo do homem negro era mostrada como condenável e algo a ser combatido. Embora, é verdade, houvesse na trama personagens que consideravam mais as questões da economia brasileira sem a escravidão do que uma visão humanitária e social dos africanos para cá trazidos.

Tenda dos Milagres: representatividade e valorização do negro

Nelson Xavier como Pedro Archanjo em Tenda dos Milagres (Divulgação/Memória Globo)

Anteriormente, em meio às comemorações de seus 20 anos de atividades a Globo exibiu Tenda dos Milagres. Baseada no romance homônimo de Jorge Amado, a minissérie foi escrita por Aguinaldo Silva e Regina Braga. O protagonista era Pedro Archanjo (Nelson Xavier), mulato inteligente, corajoso e combativo na luta pelos direitos dos negros a serem tratados dignamente, sem discriminações. Tanto quanto lutava pela valorização dos costumes e tradições afro. Seu grande opositor era Nilo Argolo (Oswaldo Loureiro), figura aristocrática que considera os negros inferiores. O elenco era composto por Milton Gonçalves, Dudu Moraes, Chica Xavier, Antônio Pompeo, Solange Couto, Tony Tornado, Joel Silva, Edyr de Castro e Zenaide Pereira, entre outros. E isso falando apenas de atores negros.

Lançada em DVD em 2013, a minissérie jamais foi reprisada. O que não deixa de ser estranho, uma vez que não foi nenhum fracasso e é atemporal, infelizmente, em sua intenção de mostrar o negro como valoroso e respeitável. Como de fato ele é.

Exemplos como esses, poucos, mas significativos, ilustram como a representatividade negra pode e deve integrar a pauta das nossas produções televisivas. E pontuar de forma mais contundente a composição de elencos, de equipes de roteiro e direção. A quarta e última temporada da série Mister Brau, que muito contribuiu para a questão, foi escrita por autores negros – pela primeira vez na trajetória do programa. E isso fez diferença, claro.

“A gente só não pode silenciar”, diz Lázaro Ramos sobre a falta de atores negros em Segundo Sol

“Axé pra todo mundo, axé!”: a representatividade num clímax, no fim de ano da Globo

Às vésperas do centenário da Abolição da Escravatura, a Globo dedicou sua campanha de fim de ano de 1987 ao desejo de um futuro com igualdade e sem preconceitos. Expoentes negros da cultura brasileira, como Grande Otelo, Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Elza Soares, Glória Maria, Milton Nascimento, Jorge Ben Jor, Agnaldo Timóteo e Tim Maia participaram do vídeo, que você pode ver abaixo:

A Globo nega ter havido racismo na decisão de demitir Alinne Prado. Para a emissora a demissão da profissional, bem como sua passagem por diversos programas e setores, faz parte de uma dinâmica comum a qualquer outro profissional ou empresa. Um comunicado sobre a questão foi divulgado após as postagens de Alinne. Seja como for, se em relação a ela a demissão não tem a ver com racismo, o que dizer da ausência quase total de negros no elenco da novela do horário principal da casa? Para ficarmos apenas neste exemplo.

Num país como o Brasil, onde pessoas que se declaram pretas ou pardas chegam a 55,4% da população (dados do IBGE), é lamentável que seja ainda necessário reafirmar que a cor não distingue ninguém de ninguém. Ou não deveria distinguir, ao menos. Sabemos que essa visão preconceituosa é secular. Mas devemos ter também a iniciativa de diminuí-la a cada geração. Para que num futuro, infelizmente talvez não tão próximo, o negro tenha seu lugar assegurado onde sequer deveria ter que reivindicá-lo. Em síntese, a representatividade negra, se feita de uma forma positiva e natural, inegavelmente contribuirá para uma sociedade melhor. Mais justa, mais agregadora, menos opressora. Mais integrada e mais feliz. Porque menos apegada a pensamentos ultrapassados.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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