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Da periferia à liderança na Record, Reinaldo Gottino quer inspirar jovens com autobiografia

Em entrevista à coluna, apresentador fala sobre livro e projeta futuro: "Vou para a quarta faculdade"

Publicado em 25/07/2022

Durante sete anos, Reinaldo Gottino provocou “terremotos” na Globo. Para roubar a liderança do Balanço Geral na hora do almoço, a concorrente tirou do ar o tradicional Vídeo Show e apelou ao carisma de Maju Coutinho no Jornal Hoje, sem sucesso. O primeiro lugar só trocou de mãos quando a emissora carioca “desempoeirou” O Cravo e a Rosa (2000), mas o pódio pode mudar após o fim da reprise. A guerra de audiência, no entanto, não tira a paz do apresentador da Record.

Todos os dias, Gottino chega ao trabalho às 6h30 para entrar no ar somente às 11h40 (novo horário do Balanço Geral após a mudança do SP1, da Globo, para 11h45). Sob o efeito de injeções para tratar uma lombalgia, o jornalista inclui as quatro horas ao vivo como parte do tratamento. No começo, em 2014, quase pediu as contas. Ainda bem que a Record o segurou e, em 2020, o aceitou de volta após deixar a CNN Brasil. Atualmente, o jornalístico tem a sua cara, com menos crimes e mais histórias de superação, prestação de serviço e, quem diria, direitos humanos, algo impensado para um ex-telejornal policial.

“Nosso programa é uma revista eletrônica, não um jornal, e não estamos presos a uma editoria. Hoje, passamos por política, economia popular e polícia, porque infelizmente no Brasil há um volume muito grande de reportagens. Nosso objetivo é mostrar uma quantidade de temas diferentes, porque a pessoa não fica presa em um assunto só e atingimos todos os públicos. Nunca vi o Balanço Geral ser tão atuante e relevante como nos dias atuais. A resposta imediata de casos que temos mostrado me chama a atenção. O dono de uma van que queimou fez uma vaquinha e não tinha arrecadado quase nada. Depois da nossa matéria, passou de R$ 40 mil!”, comemora o apresentador à coluna.

Nesta segunda-feira (25/7), enquanto esta reportagem era finalizada, Gottino chorava ao vivo com mais uma prova de que o Balanço Geral ainda tem audiência forte mesmo após a perda da liderança para a Globo. No palco, ele promoveu o reencontro e o perdão emocionante entre mãe e filha após 30 anos, com a ajuda de uma telespectadora.

Gottino considera ter alcançado o topo de suas conquistas profissionais. Agora, sua meta é inspirar outras pessoas a traçarem objetivos e realizarem sonhos. No livro Você Pode Ser Grande, lançado na última semana, o apresentador analisa a carreira sob o ponto de vista de um garoto da periferia de São Paulo que poderia ter seguido o destino dos amigos da rua, somente com o ensino fundamental, mas perseguiu o sonho de trabalhar com comunicação e entrou para a faculdade. Hoje, planeja seu quarto diploma superior.

“Não sou o maior apresentador nem a maior audiência, mas dentro da minha perspectiva eu acho que sou grande. Acho que alcancei algo muito grandioso. Ser grande não é ser o maior de todos. Ser grande é ser realizado e conseguir alcançar aquilo que você sempre sonhou. É ser do tamanho do seu sonho. Cresci em um ambiente em que fazer faculdade não era algo real. Na minha turma, quem terminava o colegial era tido na rua como um cara que já foi longe. Coloquei na minha cabeça que iria trabalhar e fazer faculdade. Fui office-boy, trabalhei na rádio para pagar a faculdade. Hoje tenho três. Quero fazer a garotada da periferia, que já pensa em parar de estudar, a mudar isso”, afirma.

Em entrevista exclusiva, Reinaldo Gottino comenta os bastidores da produção de sua autobiografia, avalia sua trajetória na comunicação e fala sobre os desafios à frente do Balanço Geral. Leia a íntegra:

O apresentador Reinaldo Gottino
O apresentador Reinaldo Gottino

PAULO PACHECO: Como surgiu a ideia do livro e como ajustou sua agenda para produzi-lo?

REINALDO GOTTINO: Quando eu era adolescente, ouvi esta frase: “Você pode ser grande”. Não tem nada a ver com a minha altura, tenho 1,90 (risos). Essa frase entrou na minha cabeça. Venho de um lugar onde as pessoas não tinham o hábito de fazer faculdade, paravam na oitava série. Quem fazia o colegial já tinha ido longe. A gente parava de estudar. Coloquei a frase na minha cabeça, e hoje vejo que cheguei longe na minha perspectiva, para aquilo que eu imaginava de vida, que eu sonhava e via como futuro. Fiz jornalismo, depois comunicação empresarial e ciências políticas. Hoje tenho três faculdades e vou para a quarta, de educação física. No Balanço Geral, que é uma coisa que eu adoro fazer, tenho conversado com o telespectador e estimulado muito as pessoas em casa a continuar sonhando. Ultimamente eu tenho falado para os adolescentes estudarem, fazerem faculdade. Surgiu a ideia de fazer o livro e queria contar um pouquinho da minha vida para falar com quem é da periferia. Não tenho uma história triste, não passei fome, nada disso, mas sou de uma família de classe baixa da zona leste. Minha mãe tinha um salão de beleza no fundo de casa, meu pai era vendedor de carro. Acho legal, porque é o grande público, a grande maioria da população. A molecada não sabe se vai fazer faculdade. Estou estimulando-os a correrem atrás disso.

Muito do que foi feito eu fiz na pandemia. Contei com a equipe da Record Entretenimento que me abraçou nesse projeto para me ajudar e organizar as histórias. Foi um processo muito tranquilo, muito gostoso. Eu me emocionei várias vezes lembrando o que aconteceu ao longo da minha vida. Comecei atendendo telefone em uma rádio. Já era office-boy em um banco, mas a paixão pelo rádio veio quando minha mãe me deu um radinho de pilha, aos 12 anos. Uma amiga da minha irmã começou a trabalhar na rádio Imprensa, eu pedi para ir lá e atendi telefone aos sábados e domingos. E me apaixonei pelo rádio. Você que escreve sobre isso sabe que a comunicação é apaixonante. Pude contar essa história e estimular as pessoas a lerem, estudarem e correrem atrás dos sonhos.

PP: Além do livro, você tem estimulado o público no Balanço Geral, com reportagens sobre sonhos realizados ou reencontros, e também usa muito suas redes sociais para inspirar seus seguidores. É uma linha não muito comum entre seus colegas de jornalismo policial. O Balanço sempre foi voltado para os crimes e hoje tem mais a sua cara, buscando histórias que tentem melhorar o dia de quem está assistindo. O que te estimulou a ser uma espécie, digamos, de propagador de esperança?

RG: A análise é perfeita. Nosso programa é uma revista eletrônica, não um jornal, e não estamos presos a uma editoria. Hoje, fazemos temas variados, passando por política, vamos fazer sabatinas com os candidatos ao governo de São Paulo e vamos fazer o debate, falamos de economia popular, falamos sobre polícia porque infelizmente no Brasil há um volume muito grande de reportagens. Só que hoje o nosso objetivo com o programa é mostrar uma quantidade de temas diferentes, porque a pessoa não fica presa em um assunto só e atingimos todos os públicos. Eu nunca vi o Balanço Geral ser tão atuante e relevante como nos dias atuais. A resposta imediata de casos que temos mostrado me chama a atenção. Um senhorzinho dono de uma van que queimou fez uma vaquinha e não tinha arrecadado quase nada. Depois da nossa matéria, passou de R$ 40 mil! É muito legal e impressionante esse retorno que o público nos dá.

PP: Você está no Balanço, exceto o período na CNN Brasil, há quase oito anos ininterruptos, e são oito anos de sucesso. A concorrência quebrou a cabeça para destroná-lo e só conseguiu “desempoeirando” uma novela…

RG: Não só a Globo. A Band lançou programa novo em cima da gente, o SBT botou novela em cima da gente. Muita gente mudou a programação porque viu que estávamos indo bem. Isso é muito bom, quem ganha é o telespectador.

PP: Você lembra a sua reação na primeira vez que alcançou o primeiro lugar?

RG: Olha que interessante. Quando comecei no Balanço, em 26 de maio de 2014, ia começar a Copa do Mundo, depois férias e, na sequência, eleição, com horário político no meio. O programa foi mal comigo nos primeiros meses e havia um monte de gente ligando para a emissora se candidatando para apresentar. E eu inseguro por assumir um programa que não ia bem. Marquei uma reunião com a Record e entreguei o boné. Tinha três meses. “Não está dando”. Uma coisa que eu não quero é atrapalhar as pessoas. Se eu não estiver ajudando, eu pulo fora. Coloquei o cargo à disposição. Falei: “Eu peço desculpas a vocês por não conseguir fazer o que vocês gostariam”. O que aconteceu? Eles falaram: “Nós vamos com você, o programa está legal, encontramos o cara para apresentar e é você”. Isso foi agosto, setembro. Eu tive essa reunião em uma sexta-feira, tempo para eles arranjarem alguém para segunda. Quando apostaram em mim, fui para casa super feliz. Na segunda, entrei a milhão! Foi quando começou o “vem, vem, vem!”. Fomos para a Venenosa, cinco minutos depois o editor me fala: “Primeiro lugar”. Foi por um minuto, mas foi tão bacana, comemoramos demais! No dia seguinte, dois minutos. No outro dia, três minutos. Foi assim até ficarmos uma hora em primeiro! Saiu um caminhão das costas! Esse voto de confiança da direção foi muito importante, porque eu já teria ido embora. Ainda bem que eles não deixaram.

PP: A Venenosa ajudou a tirar o peso do Balanço, que antes tinha muito crime, e deixou o programa mais leve. No quadro, vocês “tiram o terno”. Como é esse momento de descontração?

RG: O Renato Lombardi tem um prêmio Esso de jornalismo. Fabíola faz sucesso no jornal e na internet. Tivemos um “casamento” ali. Temos uma química muito grande e uma amizade forte fora do trabalho. Confiamos muito um no outro, curtimos fazer e isso passa para o público. As pessoas sabem que a gente se gosta. Faz parte do sucesso do programa. Não há um personagem. Somos isso aí. Há dias em que não vou estar legal, dias em que vou estar mais triste ou mais feliz, mas passamos para o público uma transparência muito grande.

Reinaldo Gottino, Fabíola Reipert, Judite e Renato Lombardi no Balanço Geral
Reinaldo Gottino, Fabíola Reipert, Judite e Renato Lombardi no Balanço Geral (Antonio Chahestian/Record TV)

PP: Você já apresentou o programa estando não muito bem na vida pessoal e o programa te revigorou?

RG: Isso aconteceu na última semana. Estou com uma lombalgia, tomando remédio para poder ficar de pé, uma dor nas costas muito grande, tendo que tomar injeção a cada três dias até passar a inflamação. Cheguei para trabalhar mal, mal. Contei para o telespectador: ‘Gente, vou devagarzinho’. E chegaram mensagens do público. O carinho das pessoas me animou. A gente se envolveu e foi um programa muito legal.

PP: Você começou na Gazeta, atingiu o ápice do primeiro lugar na Record, foi para a CNN Brasil e voltou ao Balanço Geral. Você mudaria alguma coisa na sua carreira? Faria algo diferente?

RG: Eu não mudaria nada. Sou um cara muito agradecido por tudo o que aconteceu. Não é da boca para fora. Trabalhava na Gazeta, foi um lugar incrível, fiz minha pós-graduação na Cásper Líbero. Tive a oportunidade de criar e realizar, fiz grandes reportagens. Trabalhei como âncora da rádio CBN durante quase seis anos, foi uma experiência incrível. A Record foi uma coisa maravilhosa para mim. Depois, ter ido para a CNN, passado dias na CNN americana, ajudado a colocar o canal no ar, foi tudo uma experiência muito legal. E receber um convite para voltar é muito gratificante. Trabalho em um lugar que me chamam para gravar um vídeo de boas-vindas aos novos funcionários. Não imaginava que tudo isso fosse acontecer, por isso coloquei minha história no livro. Cheguei muito mais longe do que imaginava.

PP: O livro também é uma forma de agradecimento por tudo que conquistou, para alguém que começou de baixo?

RG: Exatamente. Você sabe o quanto é difícil ter um espaço na televisão. É concorrido, tem muita gente boa, muita concorrência pesada, Globo. É pesado, cara. Falo para o Lombardi e para a Fabíola que manter esse espaço na televisão é gratificante, legal demais, e a gente ainda recebe para isso! (risos)

PP: Você tem um número cabalístico, o 7. Nasceu em 7/7/77. Como você projeta seus próximos sete anos?

RG: Quero investir muito no programa que eu faço. É a única coisa que eu sei fazer na vida. Meu negócio é fazer jornalismo, hard news, sair narrando a notícia. As pessoas perguntam se quero fazer programa de entretenimento ou semanal. Não. Gosto de trabalhar todo dia. Saio para trabalhar com prazer. Chego na TV às 6h30 e o programa começa às 11h40. Não sei o que me reserva para o futuro porque envolvem muitas coisas, mas, se depender de mim e se a Record quiser, o que gosto de fazer é isso. Estou satisfeito com o que faço hoje, e não é falta de ambição. Vou embora para casa feliz por poder ajudar as pessoas. Eu me sinto realizado. Tenho vários planos, quero fazer uma faculdade de educação física, que é mais complicada porque requer uma dedicação muito grande, inclusive na parte prática. Estou fazendo dieta e já perdi sete quilos! Quero que as coisas aconteçam naturalmente. Quero curtir meus filhos e poder viver da melhor maneira possível. Não quero que a televisão tome a minha vida. Quero continuar indo ao shopping, à praça de alimentação. Gosto de viver a vida tranquilamente.

PP: No seu propósito, você se considera grande?

RG: Não quero de forma alguma passar a impressão de arrogância. Acho que você pode ser grande dentro daquilo que você vive. Eu não sou o maior apresentador nem a maior audiência, mas dentro da minha perspectiva eu acho que sou grande. Acho que alcancei algo muito grandioso. Ser grande é ser realizado, conseguir alcançar aquilo que você sempre sonhou. É ser do tamanho do seu sonho. Ser grande não é ser o maior de todos. Não é isso. Você pode ser grande dentro daquilo que você se coloca para fazer. Eu me considero muito grande diante do que eu era e diante do que eu poderia ser. Eu me considero uma pessoa totalmente realizada. Não tinha perspectiva. Cresci em um ambiente em que fazer faculdade não era algo real. Na minha turma, quem terminava o colegial era tido na rua como um cara que já foi longe. Coloquei na minha cabeça que iria trabalhar e fazer faculdade. Fui office-boy e trabalhei na rádio para pagar a faculdade. Hoje tenho três. É muito legal. A gente pode ser grande naquilo que a gente imagina e sonha. Quero fazer a garotada da periferia, que já pensa em parar de estudar, a mudar isso. Falei no programa: ‘Você que está em casa com seu filho ou com seu sobrinho, procurem cursos, muitos são de graça. Aproveitem esse momento para aprender. Vivemos a era do aprendizado constante até para os adultos, com a tecnologia’. É isso.

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