Assim como Betty Faria em A Dona do Pedaço, relembre algumas escalações controversas por conta da idade dos atores e dos personagens

Publicado há um ano
Por Fábio Costa
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Os telespectadores de A Dona do Pedaço, novela das 21h que a Rede Globo estreou na última segunda-feira (20 de maio), com toda a certeza estranharam quando Marco Nanini, que vive Eusébio, se referiu a Betty Faria, intérprete de Cornélia, como “minha mãe”. De fato, não apenas a diferença de idade entre Betty e Nanini é bem pequena, de apenas sete anos, como também a atriz não aparenta ter idade para ser mãe de um homem como ele. Ou por outra, o Lineu Silva de A Grande Família não engana como filho de uma mulher na casa dos 70. A saber, a eterna Tieta nasceu em maio de 1941, e Nanini é de maio de 1948. O ator completará na próxima sexta-feira (31) 71 anos. Vamos recordar alguns casos de escalações controversas que deram nó semelhante na cabeça do público. Não foram poucos.

Em Família: uma profusão de parentescos confusos e escalações controversas

Gabriel Braga Nunes, Julia Lemmertz e Humberto Martins

Muito se falou na época de Em Família (2014), novela de Manoel Carlos, a respeito das escalações controversas de elenco. Para que se tenha uma ideia, os primeiros capítulos apresentaram acontecimentos de três fases. A primeira, nos anos 1980, mostrou Helena (Júlia Dalavia) como uma adolescente apaixonada pelo primo Laerte (Eike Duarte) e alvo do amor de Virgílio (Arthur Aguiar). Pouco depois veio a segunda fase, nos anos 1990, com Helena (Bruna Marquezine) e Laerte (Guilherme Leicam) mais envolvidos, enquanto Virgílio (Nando Rodrigues) seguia gostando da jovem. O ciúme doentio que Laerte sente da prima e noiva faz com que tente matar Virgílio, crime descoberto quando os noivos estão em pleno altar. O dissabor marca a trajetória da família.

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Na maior parte da novela, a maior confusão

Se o negócio já foi meio complicado no começo, depois
piorou. A terceira fase, passada na atualidade da exibição, mostrou Helena
(Júlia Lemmertz) casada com Virgílio (Humberto Martins). Chica (Juliana Araripe
nos primeiros capítulos, depois Natália do Valle) é a mãe de Helena, enquanto
Laerte (Gabriel Braga Nunes) é filho de Selma (Camila Raffanti nas fases iniciais,
depois Ana Beatriz Nogueira). Ou seja, Natália (que completou 61 anos com a
novela no ar) foi mãe de Júlia (51 anos à época). Por sua vez. Ana Beatriz e
Gabriel, separados por apenas cinco anos, foram mãe e filho.

A tia que era mais velha do que a sobrinha e depois “ficou
mais nova”

Além disso, Vanessa Gerbelli interpretou Juliana, irmã de Chica e Selma, portanto, tia de Helena. Nas primeiras fases Gabriela Carneiro da Cunha viveu a personagem, casada com Fernando (Antônio Saboia, depois Leonardo Medeiros). Mesmo que fosse a mais jovem das três irmãs, Juliana foi mostrada como um pouco mais velha do que a sobrinha Helena (então Bruna Marquezine). E na fase de 2014 era chamada por Júlia Lemmertz de tia… A atriz contava 40 anos na época de Em Família, a saber.

Cleyde Yaconis e Nicette Bruno: escalações controversas para serem mães de pessoas com quase a mesma idade delas

Tanto Cleyde Yaconis quanto Nicette Bruno viveram em mais de uma ocasião personagens com filhos cujos intérpretes tinham praticamente a mesma idade delas mesmas. Foi o caso, por exemplo, de Ninho da Serpente (1982), novela de Jorge Andrade na qual Guilhermina Taques Penteado (Cleyde) era mãe de Noêmia (Beatriz Segall) e Jerusa (Márcia de Windsor). Nascida no final de 1923, Cleyde tinha apenas três anos a mais do que Beatriz (1926) e era menos de dez anos mais velha do que Márcia (1933). Só para ilustrar, Guilhermina tinha 70 anos na história, e a atriz contava 58. Todavia, mesmo com figurino e caracterização que envolvia uma famosa mecha branca bem no meio da cabeleira vasta, não era possível deixar passar o estranhamento de Beatriz Segall, futura Odete Roitman de Vale Tudo (1988), chamando Cleyde de “mamãe”.

Dona Chica, mãe de “Wolverine”

A mesma Cleyde Yaconis foi Dona Chica, a bondosa e sábia velhinha de Eterna Magia (2007), novela de Elizabeth Jhin. Ela tinha dois filhos, Zequinha (Isaac Bardavid) e Joaquim (Osmar Prado). Mas o eterno Seu Francisco de Escrava Isaura (1976/77) e dono da voz de Wolverine de X-Men no Brasil, chamando Cleyde de “mamãe” foi dose… Posteriormente, em Passione (2010), de Silvio de Abreu, Dona Brígida (Cleyde) era mãe de Eugênio (Mauro Mendonça), portanto, sogra de Bete (Fernanda Montenegro)… Ainda, a mesma novela apresentou Olavo (Francisco Cuoco) como sobrinho de Fortunato (Flávio Migliaccio). Nesse caso, ainda que tenha sido um pouco estranho ver Cuoco chamando Migliaccio de tio, a gente deixa passar, porque tem muito sobrinho da mesma idade que os tios, ou até mais velho. Cuoco nasceu em 1933 e Migliaccio, em 1934. A diferença entre os dois é de pouco menos de 11 meses.

“Oswaldo, não fale assim com a mamãe…”

https://www.youtube.com/watch?v=2qYSj4-hQrA

Nicette Bruno foi mãe de Regina Duarte em duas ocasiões na teledramaturgia. Sua personagem Sara Mendes criou Luana (Regina) após a morte de seus pais em Sétimo Sentido (1982), de Janete Clair, e em Rainha da Sucata (1990), de Silvio de Abreu, Nicette viveu a portuguesa Neiva Pereira, mãe da personagem-título, Maria do Carmo (Regina). Nicette Bruno nasceu em 1933, enquanto Regina Duarte é de 1947.

Mas talvez tenha sido em Alma Gêmea (2005/06), de Walcyr Carrasco, que Nicette viveu sua mãe mais, digamos assim, controversa. Dona Ofélia era mãe de Divina (Neusa Maria Faro), a esposa por quem Oswaldo (Fúlvio Stefanini) era muito apaixonado. Sogra e genro viviam às turras, e Divina precisava apaziguar os conflitos com o bordão citado acima. Na ocasião, a saber, Nicette contava 72 anos, enquanto Neusa Maria estava com 60. Nem a peruca branca, os xales e o jeito de falar de Ofélia disfarçavam que ela não podia ser mãe de Divina… Ou melhor, que Nicette ser mãe de Neusa Maria era, como se diz, “puxado”…

Nos primórdios da telenovela diária, um caso curioso na lista de escalações controversas

Sucesso no rádio na década de 1950, O Direito de Nascer, do cubano Félix Caignet, chegou à televisão pela TV Tupi, em dezembro de 1964. Na história, que começa em 1900 e chega a meados dos anos 1920, Maria Helena de Juncal (Nathalia Timberg), moça da alta sociedade de Havana, é mãe solteira, já que o namorado e pai da criança, Alfredo (Henrique Martins), se recusa a casar-se com ela. Maria Helena é filha de Dom Rafael (Elísio de Albuquerque) e Dona Conceição (Maria Luiza Castelli).

Pois bem. Nathalia nasceu em 1929, Elísio em 1920 e Maria
Luiza, em 1934… Em que pese a caracterização, cuja existência é possível de
verificar em alguns registros fotográficos da época, pelo menos nos primeiros
capítulos a pouca diferença de idade entre Nathalia e Maria Luiza provavelmente
foi mais flagrante. Só para exemplificar, entre muitos casos parecidos nos
primórdios da televisão, com imagens em preto e branco e muito longe da alta
definição que conhecemos hoje, segundo o ator Lima Duarte ele interpretou em
diversas ocasiões o papel de pai de Hélio Souto. Lima é de 1930 e Hélio,
falecido em 2001, era de 1929…

Susana Vieira: “Em A Sucessora, eu fazia uma menina de 20 anos. Imagina, já tinha 40”

A declaração acima foi dada pela atriz numa ocasião em que participou do programa Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman. A protagonista de A Sucessora (1978/79), novela de Manoel Carlos baseada no romance de Carolina Nabuco, é Marina (Susana), jovem que deixa a vida numa fazenda do interior e inicia uma nova fase ao lado do marido Roberto Stein (Rubens de Falco), um viúvo rico e charmoso. Ocorre que é como Susana descreveu; ou quase, já que ela não tinha 40 anos ainda, mas 36. Marina era mesmo uma moça bem jovem, inexperiente e muito romântica, de 20 anos se tanto.

Nathalia, mãe de Susana: mais uma das escalações controversas

E, se Nathalia Timberg foi filha de Maria Luiza Castelli, mais jovem do que ela, em O Direito de Nascer, “pagou” por isso em Ti-ti-ti (1985/86), de Cassiano Gabus Mendes, quando aos 55 anos foi mãe de Reginaldo Faria, que tinha 48 na ocasião. Cecília, personagem da atriz, vivia num asilo e havia deixado o filho André aos cuidados de sua irmã mais velha, Júlia (Yara Cortes, que contava 63 anos quando a novela estreou). Mesmo com um visual de quem deixou a vaidade de lado e com os cabelos brancos, era preciso “voar” um pouco para aceitar. Posteriormente, em Amor à Vida (2003/04), de Walcyr Carrasco, Dona Bernarda (Nathalia) era mãe de Pilar (Susana Vieira). Aos 83 anos, a atriz era mãe de Susana Vieira, que estava com 70).

A família na qual todo mundo tinha a mesma idade – na vida real

Ainda, voltando a Rubens de Falco, na primeira versão de Escrava Isaura ele viveu Leôncio Almeida, rapaz de menos de 30 anos. O ator tinha 45. Isso fez com que seus pais na ficção, Gilberto Martinho e Beatriz Lyra, respectivamente com 49 e 46 anos na época, não enganassem como progenitores do vilão da novela.

Louise Cardoso: duas escalações bastante controversas constam da trajetória da atriz na televisão

Em sua primeira novela, Gina (1978), escrita por Rubens Ewald Filho a partir do romance homônimo de Maria José Dupré, autora de Éramos Seis, Louise Cardoso interpretou a personagem Helena. Ela era filha da Gina do título, que foi vivida por… Christiane Torloni! Esta na ocasião não era estreante, mas quase; ela só havia participado de Duas Vidas (1976/77) e Sem Lenço, Sem Documento (1977/78) anteriormente. Com 21 anos, Christiane foi mãe de Louise, que tinha 23, e de Arlindo Barreto, que vivia Jorge e tinha 25 anos.

Com efeito, o envelhecimento de Gina no decorrer da narrativa levou a produção a tentar envelhecer Christiane. Mas não deu muito certo. De tal forma que, para efeitos de comparação, cita-se que a antagonista de Gina na trama, cuja idade regulava com a dela, era Mirtes, interpretada por Theresa Amayo, que completou 45 anos com a novela em exibição e atuava na Rede Globo desde os primeiros tempos da emissora. Ainda, aos 42 anos, Theresa foi Vitória, a filha mais velha de Salviano Lisboa (Lima Duarte) em Pecado Capital (1975/76), de Janete Clair. Salviano tinha 50 anos na história e Lima, 45. No entanto, aqui é necessário relembrar que a autora teve que criar uma história às pressas. E que se adequasse ao elenco da versão censurada de Roque Santeiro, de Dias Gomes.

Louise do outro lado das escalações controversas

Na minissérie Tenda dos Milagres (1985), escrita por Aguinaldo Silva e Regina Braga a partir da obra de Jorge Amado, Louise mudou de lado no parentesco questionável. Agora ela era Augusta, submissa esposa do racista Nilo Argolo de Araújo (Oswaldo Loureiro). Aos 30 anos, Louise interpretava a mãe de Astério (Daniel Dantas, 31 anos na época) e Luiza (Júlia Lemmertz, então com 22 anos). Com efeito, aqui o termo “escalações controversas” é o mínimo que se pode usar para definir o ocorrido.

Mirian Pires: outro caso clássico de atriz que ganhou personagens de bem mais idade do que a própria

“Mistério…” O bordão de Dona Milu (Mirian Pires) em Tieta (1989/90), novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, baseada na obra de Jorge Amado, caiu na boca do povo e é lembrado até hoje. A personagem era mãe de Carmosina (Arlete Salles). Embora, com efeito, aparentasse mais, Mirian tinha apenas 62 anos. Arlete estava com 47. Anteriormente, aos 54, Mirian havia sido a Dona Dolores em Baila Comigo (1981), de Manoel Carlos. Era a mãe de Saulo (Reginaldo Faria, que tinha 40). E na versão original de Irmãos Coragem (1970/71), de Janete Clair, a atriz interpretou Dalva, tia que fez as vezes de mãe de Lara (Glória Menezes), sua sobrinha. Glória tinha 36 anos na época da novela, ao passo que Mirian estava com 43.

E por falar em Arlete Salles, a atriz também teve sua vez de mãe de alguém com idade não tão distante da dela. Na novela Salsa & Merengue (1996/97), de Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella, Anabel Muñoz (Arlete) era mãe de Remédios (Bia Nunnes). A intérprete da mãe tinha 54 anos e a da filha, 40.

Ainda que às vezes não pareça, os elencos são muito pensados

Nem toda escalação que pareça estapafúrdia de fato o é. Algumas são intencionais, outras são motivadas pelas circunstâncias. Por exemplo, em História de Amor (1995/96), o autor Manoel Carlos criou uma personagem de 90 anos, Dona Olga. Era a avó do protagonista Carlos (José Mayer). Mas a atriz escolhida para dar vida a ela, Yara Cortes, tinha 74. Assim como Lauro César Muniz criou a Carolina de O Casarão (1976) para ter cerca de 70 anos na terceira época das três que a narrativa abarcava. Yara tinha 55.

Laura Cardoso foi escalada inicialmente para viver Cornélia, a mãe de Eusébio, em A Dona do Pedaço. Caso a intenção tivesse se concretizado, Laura e Nanini seriam novamente mãe e filho, a exemplo de A Grande Família. Não foi dessa vez, e teria sido mais adequado do que colocar Betty Faria no papel. Nada contra Betty, é claro.

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