Conhecer a cultura árabe facilitou Josias Duarte a dar vida a Jamal em Apocalipse

Publicado há 3 anos
Por Cris Veronez
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No ar como Jamal em Apocalipse, Josias Duarte faz seu terceiro trabalho bíblico na Record. Falar árabe, no entanto, colaborou para que o ator franco-brasileiro recebesse o convite para ser o protetor de Zoe (Juliana Knust) no folhetim dirigido por Edson Spinello. Nascido no Rio de Janeiro, Josias foi para a França aos 12 anos e jogou futebol no país. Por conta de uma lesão, o ator se afastou dos campos e acabou apostando na dramaturgia sem grandes pretensões. Formado no Cours Florent e no Studio Pygmalion, ele acabou se apaixonado pela arte de representar e já soma vários trabalhos no cinema e no teatro. Na televisão, Josias trabalhou na novelas Haja Coração, A Lei do Amor, na Globo, e Milagres de Jesus e Dez Mandamentos, na Record. O ator contou um pouquinho da sua trajetória e sobre o novo trabalho na emissora ao Observatório da Televisão.

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Como foi entrar na trama Apocalipse, você recebeu o convite ou fez teste?

Marina Frauches, produtora de elenco da novela me ligou, e falou que procurava um ator que falasse árabe. Eu sou Franco- brasileiro, vivi em Paris 15 anos de minha vida. A comunidade magrebina (Tunísia, Marrocos, Argéria) na França, é muito grande. Antes de ser ator eu jogava nas categorias de base de um time da segunda divisão da França (PFC), e jogador de futebol brinca muito, então você vai aprendendo a língua do outro, a cultura etc. Por falar varias línguas, tenho um ótimo ouvido, e geralmente consigo reproduzir bem o que ouço e foi assim que me tornei Jamal.

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O Jamal é árabe, como você se preparou para o personagem?

Eu tenho um carinho e uma grande proximidade com essa cultura, então muitas coisas eu já conhecia, até porque eu convivi durante anos nesse meio. O tempo de preparação foi muito curto, então eu vi alguns documentários sobre nômades e beduínos, e tive uma professora maravilhosa de árabe clássico, a Aline Oliveira. E com o Diretor Geral de Apocalipse, Edson Spinello, fomos afinando nos ensaios, pois ele queria um Jamal, forte e direto.

Você conhecia um pouco da história bíblica?

Sim! Minha relação com a divindade é diária, eu acredito no Deus judeo-cristão no qual a Bíblia apresenta. Estudo a bíblia diariamente, e tento por minha vida em adequação com as santas escrituras! É um universo bem familiar pra mim, no qual tenho uma honra imensa de fazer parte.

Como foi o tempo que você viveu na França, o que te fez ir morar no país?

Então, aos 15 anos eu me mudei para Paris, acompanhando minha mãe, onde me naturalizei francês. Rapidamente integrei um centro de formação de futebol. Aos 21 anos, após uma dupla lesão nos dois tornozelos meu sonho de jogador se interrompeu. Então fui trabalhar numa loja de decoração “Why?” e me tornei gerente. Recebi alguns convites (clips, fotos) para trabalhar no meio artístico, no começo pensei que era brincadeira, mas vi que podia ser serio, então um sonho de criança renasceu, Fiz um curso de verão de atuação em frente às câmeras. Em uma das mais tradicionais escolas de artes dramáticas da França: Cours Florent. Dois meses depois, tava matriculado num curso de artes dramáticas, não tendo ideia do que isso podia significar, querendo fazer cinema, me vi num palco de teatro, com um monte de gente estranha, falando coisas meio que loucas, e foi aí que me apaixonei por meu oficio, devorando tudo que achava de livros. Morei em palcos de tanto que os frequentei. Eu amo esse país como meu, me sinto totalmente francês e totalmente brasileiro.

A maneira de ver a dramaturgia na França é muito diferente que no Brasil?

Sim e não! Eu acredito que pouco importa o país, pouco importa o veículo (tv, cinema, teatro), deve se fazer com verdade, se você vive o que o personagem vive, isso é dramaturgia, pouco importa a língua o lugar do mundo. Mas o fato é a vida nesses dois países é bem distinta! O Brasil é um país fenomenal, com uma dimensão continental, é difícil classificar o Brasil, com a diversidade cultural que nele existe, Já a França é um país “antigo” com uma tradição teatral mais “solida”, eu acho que são duas escolas bem diferentes. Ainda que nos dois países as historias a sejam iguais, a abordagem será diferente, por exemplo, aqui no Brasil estamos acostumados com novelas, algo desconhecido na França. Eu acho que a cultura local dita muito a dramaturgia.

O que te trouxe de volta ao Brasil?

Uma vontade de qualidade de vida! Viver perto do mar, mais próximo da natureza, e o gatilho foi: uma figura paterna para mim, Démetrio, (pai do meu melhor amigo de infância) meu tio, meu pai, meu amigo, foi diagnosticado com câncer. Eu já namorava um tempo a ideia de voltar a morar no Brasil, então face esse evento quis passar tempo com ele, caso ele se fosse, e ele se foi, mas nos vivemos essa experiência de forma intensa e linda, e eu pude acompanhá-lo nessa jornada.

Você sempre quis ser ator?

Quando tinha 11 anos eu fui ver A Lista De Shindler com meu padrasto e sua mãe. Nós tínhamos o costume de ir ao cinema toda semana, mas aquele filme me transformou, eu vi aquela sala do cine Pathé lotada, a sala inteira mexida por aquelas imagens, e pensei: “gostaria de poder fazer isso também, contar historias e emocionar as pessoas”, mas por ser uma criança tímida, achava que não conseguiria, que talvez fosse algo muito elitista. E deixei isso de lado até me tornar adulto e pensar por mim mesmo, foi ai que deixei de fazer coisas pra agradar aos outros e comecei a busca do essencial.

A vida de artista é incerta, já teve um plano B?

Quando eu comecei a estudar artes dramáticas, como praticamente todos os atores de Paris fui garçon, barman, e rapidamente comecei a trabalhar como ator, e trabalhar de noite é muito cansativo. Ao final da minha formação artística, decidi me lançar e me dedicar por inteiro, meu plano B, foi escrever, dirigir, até mesmo fazer preparação de elenco, acredito que devo ter muitas coisas para dizer, pois meu plano B sempre foi o A, A de artista!

Você também dirige espetáculos, não é? No Brasil é difícil viver do teatro?

Na minha experiência é difícil de viver de teatro em qualquer lugar do mundo! Porém no Brasil está cada vez mais complexo. Eu tô meio perdido com o posicionamento atual de nossas autoridades. Por mais que o governo tenha incentivado a Cultura no país, é um espaço muito pequeno ainda, sobretudo para pequenas produções. Tenho impressão que se você não está no mercado há anos, não há espaço para novas produções, isso a nível de investidores. No nível governamental, me sinto órfão. Essa última bomba que o governo lançou recentemente, de querer tirar o registro profissional dos artistas é algo grave pro país. O público brasileiro não vai tanto ao teatro quanto o francês, mas vejo que aqui o incentivo a cultura é bem precário. Ano passado eu tive a oportunidade de fazer a leitura da minha peça no Hemorio, e no final um jovem de trinta anos me falou que era a primeira peça que ele via, eu fiquei mais emocionado que ele. Me questionei semanas sobre a vida de uma pessoa que nunca teve a oportunidade de ver um espetáculo teatral.

Qual foi o seu primeiro papel na TV? Era o seu objetivo chegar à TV ou aconteceu naturalmente?

Na TV brasileira, meu primeiro papel foi em uma série de curtas para Globo Esporte sobre o futebol carioca, dirigido por Fabio Brandão. Eu fiz o Antonio Assessor de Silvio Matos, sobre a história do Botafogo, e me convidaram a fazer no ano seguinte a historia do Vasco. Então na França atores de teatro e cinema não fazem TV, isso tá mudando, mas ainda há um grande preconceito. Eu levei um tempo para me aculturar com essa ideia. Alias eu acho que ainda não me adaptei com a vida no Brasil de modo geral em todos os níveis. Faz apenas dois anos que comecei a entender a importância da TV no Brasil. Curioso que tenho um amigo que tem uma historia semelhante, o Antonio Saboia, que vive o mesmo que eu. Hoje eu quero muito usar esse veículo para contar historias.

Como está sendo contracenar com a Juliana Knust? Você já conhecia a atriz antes desse trabalho?

Juliana é uma pessoa bem agradável de se conviver, divertida, humana! É uma atriz muito talentosa e generosa que me acolheu de uma forma tão carinhosa. Me lembro de como nos encontramos. Não tivemos tempos de nos apresentar, ela tava toda maquiada, destruída, rolando no chão, toda suja de sangue, eu cheguei: “oi tudo bem? Sou Jamal, o cara que veio te salvar!”, ela disse: “Oi! tudo bem? Seja bem vindo, eu to toda melecada agora, depois nos falamos direito, faz um favor? Tira um pouquinho de terra do meu rosto por favor!”. E foi um máximo! De forma geral, gostei muito da amizade, e cumplicidade que há entre os atores, nos sets de Apocalipse, a Ju e o Igor (Rickly) me acolheram pra essa família de uma forma bem gostosa. Eu não conhecia Juliana, pois não tinha acesso à TV brasileira quando morava em Paris.

E a repercussão do trabalho, como está?

Tem sido bem legal, confesso que no começo me assustou! Tenho recebido muitas mensagens no instagram; uma manifestação de carinho bem bacana! Vira e mexe alguém na rua me fala: “você não é o Jamal que salvou a Zoe?”. Dai respondo no sotaque do personagem, uns se assustam quando veem que falo português. Pra ser sincero, sempre fico meio sem reação no primeiro contato e depois flui! E tenho recebido elogios do meio, o que é bem gratificante também.

Você já havia trabalhado em tramas bíblicas, é um trabalho que exige mais do personagem contemporâneos?

Eu acredito que o ser humano é complexo. Seja hoje ou em outros tempos, o ser humano não mudou, tem seus questionamentos, suas necessidades e desejos. Pra mim é só uma questão de contexto, o que é muito importante, mas o essencial é viver a verdade do personagem. A vantagem de um personagem contemporâneo é ter um acesso mais rápido, digo nível de pesquisas, pois às vezes não é fácil achar dados de uma certa época.”Parir” um personagem, para mim, sempre é doloroso, e sempre muito trabalhoso.

Você está só na novela ou também está nos palcos? E quais os projetos para teatro ou cinema?

Nesse primeiro semestre estou concentrado na novela. Mas estou me preparando para filmar meu filme sobre violência conjugal. E pretendo voltar com minha peça, D-s – O Doador de Sonhos, que sobre câncer, nesse segundo semestre. E estou aberto a todos os convites que cheguem! Afinal sou uma ferramenta para contar histórias.

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