Pretensiosa, Apocalipse é uma aposta ousada da Record

Publicado há 3 anos
Por André Santana
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20 anos separam a estreia de A Filha do Demônio, minissérie que marcou o nascimento da teledramaturgia na Record pós-anos 90, de Apocalipse, nova aposta do canal no gênero. A emissora volta a apostar numa história que traz o próprio coisa-ruim como um dos protagonistas, mas desta vez com uma embalagem bem mais caprichada do que a vista na tosca minissérie que trazia Patrícia de Sabrit sofrendo nas mãos do demo de João Vitti. Em Apocalipse, nova novela da emissora, o demônio surge na forma do anticristo, que anunciará o fim do mundo.

Trata-se da quarta novela bíblica da Record, mas a primeira a trazer passagens na contemporaneidade. A autora Vivian de Oliveira se baseia nos escritos do livro bíblico homônimo para trazê-lo ao tempo presente, mesclando folhetim e passagens ao melhor estilo “cinema-catástrofe”. Apocalipse, portanto, mescla histórias de amor e típicos encontros e desencontros da novela com um toque profético, além de apostar também numa trama policial. Uma proposta, sem dúvidas, um tanto ousada, já que, até aqui, o projeto bíblico da Record tratou apenas de reproduzir e adaptar histórias bíblicas. Desta vez, virá com uma trama inédita, baseando-se nas passagens do livro sagrado.

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Apocalipse teve um primeiro capítulo de impacto, como pede uma novela com uma temática tão obscura. O tom soturno imperou neste primeiro episódio, aberto com uma muito bem feita cena de um tsunami, que matou os pais de Alan (Maurício Pitanga), um dos protagonistas desta primeira fase, passada nos anos 1980. Outra sequência de impacto foi a descoberta de um assassino em série no Brasil, injetando uma trama de mistério em meio às demais tragédias. Chamou a atenção também o fato de o primeiro capítulo ter se passado em vários lugares do mundo, como Israel, Brasil e EUA.

Com uma direção inspirada de Edson Spinello, Apocalipse finalmente tira a dramaturgia da Record do lugar-comum, buscando uma identidade própria à trama. Os takes inusitados e as grandes tomadas chamam a atenção, assim como a direção de atores. Boas performances foram vistas neste primeiro capítulo, com destaque para Manuela do Monte (Débora), Maurício Pitanga, Marcelo Argenta (Luís) e os veteranos Jussara Freire (Tamar) e Lucinha Lins (Lia).

Mesmo com o visual caprichado, a trama não escapou de algumas caracterizações equivocadas. Na tentativa de rejuvenescer Jayme Periard (Nicanor), por exemplo, o ator ficou parecendo um Frankenstein. Lucinha Lins foi outra que surgiu em cena com uma peruca um tanto duvidosa. Além disso, a trama apela para a cafonice com as falas em off do anticristo, na voz de Sergio Marone, que não convence nem como narrador e nem como diabo. A fumaça preta que representa o espírito maligno que envolve Adriano (Felipe Cunha) também pareceu óbvia e despropositada.

No mais, Vivian de Oliveira se mostra habilidosa na arte de transformar Bíblia em folhetim. Ela aposta num enredo interessante e cheio de nuances. Neste primeiro capítulo, ela conseguiu mostrar que tem uma história de impacto na manga. Uma pena que, provavelmente, a exploração religiosa acabará descambando para a evangelização, já que a trama não deve escapar da tentação de colocar os fiéis da igreja que controla a Record como aqueles que serão salvos. Por mais que a proposta da novela é ser justamente uma trama religiosa, a temática renderia bem mais se fosse explorada por outro viés.

Mesmo assim, Apocalipse representa uma grande ousadia da Record, que finalmente deixa de apostar em tramas passadas nos tempos bíblicos para dar um passo além. Assim, o canal fugiu de colocar no ar mais uma novela igual às anteriores, dando um respiro ao seu horário de tramas bíblicas e, ainda, dará a chance de arrebatar um público diferente da audiência que acompanhou Os Dez Mandamentos, A Terra Prometida e O Rico e Lázaro. Promete.

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*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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