Precisamos falar do trabalho de Glória Menezes em Brega & Chique

Consagrada a ideia de que “a novela foi de Marília Pêra”, o trabalho da atriz foi desvalorizado

Publicado há 25 dias
Por Fábio Costa
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Depois de 173 capítulos, Brega & Chique está terminando no Canal Viva, que estreou sua reprise (integral) em 19 de fevereiro deste ano. O último vai ao ar neste feriado de 7 de setembro, às 14h30 e à 0h45min.

Quem já conhecia a novela de Cassiano Gabus Mendes pôde revisitá-la, e quem só a conhecia de textos e poucos vídeos na internet e no saudoso Vídeo Show pôde enfim mergulhar em sua história.

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História sem maior complexidade, é verdade. Comédias com alguma sofisticação e vários conflitos românticos foram a especialidade de Cassiano na TV Globo, para a qual escreveu mais de 10 novelas entre 1976 e 1993, ano de sua morte. Quase todas exibidas às 19h, como Brega & Chique.

Como bem definiu Roberto Talma, diretor-executivo da novela, Brega & Chique é a história de uma mulher rica que fica pobre e de uma mulher pobre que fica rica. Respectivamente, essas personagens centrais são Rafaela (Marília Pêra) e Rosemere (Glória Menezes).

Sem saber, as duas eram mulheres do mesmo homem, que para a “Alfa 1” Rafaela, esposa oficial, era Herbert Alvaray (Jorge Dória), enquanto para a “Alfa 2” Rosemere se apresentava como Mário Francis, morador de Porto Alegre, cidade na qual passava a maior parte do tempo. A primeira vivia numa mansão luxuosa no Morumbi, a segunda numa casa modesta no bairro fictício de Vila Custódio.

Montenegro (Marco Nanini) em Brega & Chique (Reprodução/Canal Viva)

Uma grande jogada é armada por Herbert, com a cumplicidade de seu advogado Montenegro (Marco Nanini), para fugir à punição da Justiça e à pobreza, que advirá da descoberta de negócios escusos pelo Banco Central. Ele compra o cadáver de um indigente e forja a própria morte num acidente de automóvel. Depois disso, Herbert foge para a Europa e se submete a uma cirurgia que muda completamente suas feições.

Cláudio (Raul Cortez) em Brega & Chique (Reprodução/Canal Viva)

Passado um ano, por aí, ele volta ao Brasil com a nova cara e um novo nome: Cláudio Serra (Raul Cortez). ‘Cláudio’ se envolve novamente com os problemas das duas mulheres – aliás, três, já que havia a “Alfa 3” Zilda (Nívea Maria), melhor amiga de Rafaela.

Esta empobrecera e tivera que deixar a mansão e mudar-se para a mesma Vila Custódio onde morava Rosemere. Por sua vez, a “Alfa 2” ficara rica, graças ao milhão de dólares deixado por Mário para ela num cofre de banco.

Mesmo com a mudança de status de Rosemere, a amizade criada com Rafaela prossegue, sem que elas descubram por meses e meses de novela o elo existente. E ambas convivendo com o tal ‘Cláudio’ nesse meio tempo.

Rosemere (Glória Menezes) em Brega & Chique (Reprodução/Canal Viva)

É bem verdade que não são injustos nem exagerados os muitos elogios a Marília Pêra, grande atriz que sempre fora e que na ocasião estava ausente do gênero novela havia quase 13 anos – desde o final de Supermanoela, de Walther Negrão, em 1974. Também uma novela global das 19h, a saber.

Talhada para ela, Rafaela Alvaray teve toda a afetação de uma mulher que nunca havia precisado se preocupar com dinheiro e era até bastante alienada, assim como depois essa mesma mulher se transformara numa empreendedora capaz, levando adiante um negócio de marmitas que se converte em buffet.

Rafaela (Marília Pêra) em Brega & Chique (Reprodução/TV Globo)

Suas cenas com o tímido e apaixonado Montenegro, que tenta se conter por seu grande respeito por ela e também porque sabe que ela na verdade não é viúva como se acredita, foram geralmente impagáveis ao longo de sete meses de história.

A interação de Rafaela com os vizinhos de Vila Custódio, quando mostra que não é tão bobalhona quanto se poderia supor e aprendera com os lances da vida, também foram muito boas. Lembram-se de quando ela começou a falar com menos afetação e mais clareza, mais “gente como a gente”?

Rosemere (Glória Menezes) e Rafaela (Marília Pêra) em Brega & Chique (Reprodução/TV Globo)

Todavia, a “novidade” que era Marília Pêra arrebatando todo mundo na pele dessa rica que fica pobre ofuscou o devido reconhecimento, especialmente no decorrer desses 33 anos, ao grande trabalho de Glória Menezes como Rosemere Fátima de Moraes – e não “da Silva”, outro equívoco que tem vindo de lá pra cá.

Só uma grande atriz como também era (e é) Glória Menezes poderia fazer de uma personagem sem as mesmas possibilidades de Rafaela uma figura que não se tornasse chata demais, intolerável, nível “Eu odeio a Rosemere”.

Quando enriquece e se deslumbra com a nova vida, metida a besta mesmo, ela também teve ótimos momentos como a expulsão dos antigos vizinhos de sua casa, onde estavam curtindo piscina e feijoada convidados por seu pai, Lourival (Fábio Sabag). Momento esse ótimo não pela atitude em si, mas pela forma como se chegou àquilo e o esquecimento da vida de pobre que Rosemere desejava.

Rosemere não foi “ofuscada” por Rafaela, no sentido de ser menos importante do que ela, como pode pensar alguém que leia isso ou aquilo e não “é do tempo” da novela.

Nem se escalaria uma atriz da estatura de Glória Menezes, em 1987, para um papel que não tivesse chances para que ela também brilhasse. O revezamento das duas estrelas nos créditos da abertura, mais do que símbolo de disputa de egos, faz justiça a esse desejo de torná-las equivalentes.

Ademais, a amizade das duas mulheres de Herbert, tamanha a ponto de não se abalar diante da descoberta, manteve Rafaela e Rosemere sempre unidas, com a evolução da trajetória de ambas e a revelação do que realmente importava e que estava alheio à percepção tanto de uma quanto da outra.

Se a relação de Rafaela e Montenegro soou mais simpática e despertou mais torcida do que as investidas de Rosemere com o secretário Luís Paulo (Marcos Paulo) e o marceneiro Baltazar (Dennis Carvalho), o desafio da criação da experiente Glória fora ainda maior.

E ela se desincumbiu da tarefa com o talento de sempre. Ainda que igualmente experiente e querida pelos espectadores, outra atriz, numa má escalação, poderia colocar Rosemere a perder. Não foi o caso com Glória Menezes. E a reprise atestou isso dia após dia.

Repita-se que a interpretação de Marília Pêra para sua Rafaela Alvaray de fato marcou muito. Não seria exagero mesmo dizer que é a maior marca que Brega & Chique deixou na memória de quem a viu, com suas lentes de contato azuis, seu penteado “estiloso”, em termos de hoje, seu modo peculiar de dizer o nome do marido, “Herrrrbeeerrrt”, assim, bem arrastado.

Mas Glória Menezes conseguiu fazer uma Rosemere pobre que não era uma repetição da Ana Preta de Pai Herói (1979), de Janete Clair, por exemplo, e uma rica que não era como outras peruas da teledramaturgia – ou a própria Rafaela.

Ao longo dos 13 anos de ausência da Marília Pêra, Glória fez seis novelas, e garantiu com ainda mais força seu lugar no coração do público do gênero como Roberta Leone em Guerra dos Sexos (1983), de Silvio de Abreu, por exemplo.

Talvez seja injusto diminuir tanto seu trabalho em Brega & Chique apenas para elogiar, ainda que merecidamente, o desempenho de Marília Pêra. Felizmente a reapresentação da novela no Canal Viva ajudou, se não a eliminar, pelo menos a diminuir essa percepção.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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