Despedida

Fora da Globo, Casagrande rompeu com melhor amigo, Sócrates, após contratação: “Vendido”

Ex-jogador trabalhou como comentarista esportivo da emissora durante 25 anos

Publicado em 07/07/2022

Walter Casagrande Jr. despediu-se da Globo na última quarta-feira (6), após 25 anos como comentarista esportivo. Sua trajetória ficou marcada pelo tratamento da dependência química, pelas críticas à seleção brasileira e por uma coleção de atritos ao vivo, seja com colegas de casa seja com o governo Bolsonaro, que o considera “inimigo”. A primeira rusga, porém, surgiu assim que assinou com a emissora carioca, e justamente com seu melhor amigo.

Ex-jogador e ídolo do Corinthians, Casagrande começou a carreira na TV em 1996, na ESPN Brasil, e se destacou por comentários ácidos e precisos, atraindo rapidamente o interesse da Globo, que o contratou no ano seguinte. A ida para o canal líder de audiência desagradou seu principal parceiro dentro e fora dos gramados: Sócrates. Os dois lideraram a Democracia Corinthiana, principal movimento político no futebol, vigente entre 1981 e 1984, em plena ditadura militar.

Durante um encontro com jornalistas da ESPN, Casagrande encontrou Sócrates, que ironizou a ida do amigo para a Globo. O ex-camisa 8 do Corinthians, ao lado de colegas, mantinha oposição à emissora, criticada por ativistas de esquerda por ter apoiado o golpe de 1964 e por se posicionar politicamente à direita.

O jornalista Juca Kfouri relembrou o dia em que Casagrande rompeu a amizade com Sócrates em depoimento para o documentário biográfico Casão – Num Jogo Sem Regras, lançado em maio no Globoplay.

“Estávamos jantando em uma cantina, depois de um programa de televisão, Magro [Sócrates], [José] Trajano, eu e mais gente, e entra o Casão. Faz festa, ele cumprimenta, e o Magro diz para ele: ‘Plim-plim, né? Se vendeu, foi para a Globo!'”, relatou o profissional, que também revelou o interesse de Sócrates de também ser contratado pela emissora carioca que criticava.

“Casão não fala nada. Mas abre uma ferida que levou anos para cicatrizar, e o Casão tinha toda razão de ficar magoado, inclusive porque o Magrão uma vez tinha pedido para ele ver se não tinha um lugar para ele na Globo”, disse Kfouri.

Casagrande falou brevemente sobre o episódio com o amigo: “Eu não gostei, não gostei. E a gente se afastou por um bom tempo”.

Ao site esportivo da Globo, em 2019, Casão detalhou o pedido de trabalho de Sócrates: “Não teve briga. O que teve foi que ele me ligou perguntando se a Globo o queria como comentarista, e a direção disse que ‘seria o máximo, acontece que não é confiável’. Isso foi porque ele foi comentarista do SporTV e teve um jogo, em 1995, em que ele chegou alterado, fez o jogo alterado, tinha bebido, e isso queimou o filme dele. E aí ele passou a dizer que eu tinha me vendido para o ‘sistema’. Aquilo me magoou muito”.

A dupla histórica do Corinthians e da seleção brasileira se reconciliou justamente no Grupo Globo, durante o programa Arena SporTV, em 17 de outubro de 2011. Na época, Casagrande se tratava contra dependência química, após overdoses e internações. Já Sócrates enfrentava problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Ele morreu sete semanas depois do encontro com o amigo na TV, em 4 de dezembro.

Assista ao vídeo de despedida de Casagrande:

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