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Domingo Legal 30 anos: Rodolfo, Silvana Kieling, Dani Boy e Luiza Ambiel revelam bastidores no SBT

Em entrevista à coluna, personalidades relembram "guerra" de audiência, sucesso e histórias inéditas

Publicado em 22/01/2023

Neste domingo (22), o SBT exibe uma edição comemorativa do Domingo Legal pelos 30 anos de sua estreia. A coluna também preparou uma homenagem reunindo quatro personalidades que contribuíram para eternizar o programa, um dos mais longevos da emissora, na história da TV.

O Domingo Legal “germinou” em 1988, quando Silvio Santos convenceu Roberto Marinho a rasgar o contrato de Gugu Liberato para um programa dominical na Globo. Após uma sucessão de atrações neste dia da semana, o SBT lançou o programa definitivo do apresentador em 17 de janeiro de 1993.

Inicialmente gravado, o Domingo Legal explodiu no ano seguinte, quando passou a ser ao vivo com quadros que mudaram a televisão e resumem os anos 90, como Táxi do Gugu, Gugu na Minha Casa e Banheira do Gugu, que renderam à atração as primeiras lideranças de audiência. Pela primeira vez, o SBT se tornava “independente” de Silvio Santos aos domingos.

O Domingo Legal subverteu os limites da família tradicional e misturou o sagrado e o profano. No mesmo programa, era possível ver um padre, um strip-tease e artistas mirins. Gincanas inofensivas, porém maliciosas, faziam o apresentador com rosto angelical cair na gargalhada, e o público também.

Quem ficava ranzinza era a concorrência. O Domingo Legal “destruiu” o “padrão Globo de qualidade”, obrigando a emissora rival a apelar (Latininho e sushi erótico são alguns exemplos). Gugu “nocauteava” Faustão nos comerciais, e a “guerra de audiência” gerou um fato histórico: a união dos dois apresentadores em uma transmissão simultânea, em 23 de fevereiro de 2003, para a campanha Junta Brasil.

O Domingo Legal reinou nos lares brasileiros até 7 de setembro de 2003 (data da farsa do PCC). Após mudanças e a saída de Gugu, Celso Portiolli assumiu a apresentação e segue no comando há mais de 13 anos. Para marcar a fase mais vitoriosa do programa, a coluna convidou Rodolfo Carlos (eterno parceiro de ET), Silvana Kieling (jornalista), Dani Boy (o Guguzinho) e Luiza Ambiel (musa da banheira) para contarem histórias curiosas, divertidas e surpreendentes do sucesso. Leia os depoimentos abaixo:

Rodolfo: “Globo tentou me tirar do Domingo Legal duas vezes”

Rodolfo & ET cantam no Domingo Legal de 14 de março de 1999
Rodolfo ET cantam no Domingo Legal de 14 de março de 1999

“O Domingo Legal foi o segundo melhor programa que eu trabalhei na vida. O primeiro foi o Aqui Agora. Nunca imaginei virar amigo do apresentador, e o Gugu se aproximou de mim. No SBT eu tinha muita liberdade para criar quadros. Fiz o Bom Dia Legal e criei o Bom Dia Silvio Santos. Perguntei para o Magrão [Roberto Manzoni, diretor-geral do Domingo Legal]: ‘Por que a gente não acorda o Silvio Santos?’. Ele: ‘Porque ele não deixa’. Eu disse: ‘Podemos fingir? A gente aluga uma mansão’. Fizemos mais de 20 episódios.

Acordamos o Gil Gomes, mas ele tinha sofrido um assalto naquela semana e estava em um hotel. Ele meteu dois tiros e pensei que fossem de festim. No teto ficou a marca da bala! O Maguila também tinha sofrido alguma coisa. Quando o acordamos, ele deu um soco que atingiu o meu ombro. Foram os momentos mais perigosos. Fiquei bêbado com o bafo do Reginaldo Rossi! Quando tentamos acordar o Silvio Santos de verdade, ele armou uma pegadinha, ‘mataram’ o Goiabinha [Walter Wanderley, ex-diretor de externas do Domingo Legal] baleado, uma viatura de verdade da Polícia Militar nos assustou, bandidos nos enforcaram e o ET fez xixi! Tive medo porque antes havia sido ameaçado por um apresentador. Nunca gostamos dessa brincadeira, foi a pior de todas.

Quando o Cláudio Chirinian, o ET, foi tirado, fiquei mais dez anos no programa. Uma vez estava em um restaurante e vi quatro pessoas em uma mesa comentando um vídeo, mas duas pessoas se queixaram que não tinham internet. Na época, 72% dos brasileiros não conseguiam acesso à rede. Criei o quadro de vídeos legais e deu muita audiência, foi copiado por todas as TVs. Esse quadro recebia com 12 pontos e entregava com 24, até 28!

No Domingo Legal, entrei com 26 anos e saí com 39. Virei ídolo das crianças porque os pais riam. Éramos irônicos, não engraçados. Muitos conteúdos que fizemos podem ser reprisados hoje. Vendemos CDs, brinquedos, remédio. A Globo tentou me tirar duas vezes. Quase assinei, mas acabei não indo porque na Globo eu seria mais um, enquanto no SBT minha vaga no estacionamento era ao lado do Gugu e do Silvio Santos. Criar para um programa desse nível era muito legal. Atualmente trabalho com turismo em Minas Gerais, mas estou à disposição para voltar à TV”.

Silvana Kieling: “Hamilton me tirou o pavor de helicóptero”

Comandante Hamilton e Silvana Kieling no Domingo Legal de 18 de agosto de 2002
Comandante Hamilton e Silvana Kieling no Domingo Legal de 18 de agosto de 2002

“Entrei no Domingo Legal por causa da morte dos Mamonas Assassinas. Deu o maior ibope e o Gugu, sempre antenado, insistiu para o RH abrir uma vaga de jornalista. A primeira televisão que trabalhei foi a TVS. Entrei em 1983. Fiquei quatro anos no Noticentro e fazia matérias especiais no Povo na TV, por isso eu já era muito conhecida do pessoal. O Goiabinha [Walter Wanderley, ex-diretor de externas do Domingo Legal] me chamou. Fui ao SBT e, quando voltei para casa, já recebi uma ligação: ‘Você pode fazer uma matéria?’. Frilei durante um ano e depois fui contratada por 16 anos.

Trabalho como jornalista desde os 18 anos, mas o Domingo Legal foi mais marcante porque, além do tempo em que fiquei lá, fiz matérias de até 40 minutos. Em telejornal, a gente não fica nem 1 minuto no ar. Éramos os únicos ao vivo, uma equipe de jornalismo pequena, só quatro pessoas. O Comandante Hamilton e eu subíamos e descíamos o domingo inteiro, e o pessoal ficava apurando. Eu não dormia do sábado para o domingo porque tinha pavor, morria de medo de helicóptero! Muitas vezes a gente voava com a porta aberta para ver lá embaixo e eu tinha a sensação de que ia ser sugada! Hamilton me tirou todo o medo. Além de ser um excelente profissional, passava tranquilidade e firmeza para mim. Depois de um tempo, eu chegava a dormir dentro do helicóptero, porque o Gugu às vezes demorava para chamar. Era como se estivesse na sala de casa!

O que mais marcou foi quando fui presa no quadro Sentindo na Pele. Eu me passei por uma traficante de drogas e fiquei 24 horas confinada dentro de uma penitenciária em Goiânia. Até hoje as pessoas lembram! Todo mundo fala: ‘Eu chorei junto!’. Também fui catadora de laranjas no Piauí para denunciar o trabalho infantil e o trabalho das mulheres que perderam a impressão digital por causa do ácido da fruta. Uma semana depois, o presidente do sindicato foi assassinado! Corremos muito risco, porque se soubessem que havia uma equipe de jornalismo lá a gente podia ter morrido. Voltamos para o hotel e me ligaram: ‘Sil, amanhã você vai para Salvador cobrir o casamento do Popó’. Saí de uma plantação, toda ferrada, para um casamento. Por isso gosto tanto dessa profissão, tem a coisa cruel e o glamour, me engrandeceu muito como repórter.

Na segunda-feira, dia da nossa folga, ia ao shopping ou ao supermercado e não conseguia fazer quase nada porque o pessoal me parava. Dava autógrafos o tempo inteiro: ‘Vi sua matéria ontem!’. Com o ibope a 40, muita gente assistia. Devo muito ao SBT, ao Domingo Legal e ao Gugu pela profissional que me tornei. Eu me aprimorei, fiquei mais humana pelas matérias que a gente fazia. Trabalhei muitos anos em jornalismo, antes e depois do Domingo Legal, em outras emissoras, mas posso até ser repórter do Papa que vão me lembrar como repórter do Gugu. Muita gente falava de sensacionalismo, mas a gente se entregava tanto e fazia com tanto carinho. Fui ‘usada’ para ajudar as pessoas. Não era eu que dava dinheiro ou a casa, mas fui o instrumento para isso, e eu ficava muito feliz por ajudar o povo. Só tenho a agradecer, tenho muito orgulho de tudo que fiz”.

Dani Boy: “Ser o ‘mini Gugu’ foi uma honra, mas uma doideira”

Gugu Liberato e Dani Boy no Domingo Legal de 13 de agosto de 2000
Gugu Liberato e Dani Boy no Domingo Legal de 13 de agosto de 2000

Ser o ‘mini Gugu’ foi uma honra, mas uma doideira. Meu terno e meu corte de cabelo eram iguais aos do Gugu. Eu pintava de loiro e ele também. Eu cortava o cabelo no Jassa e, quando encontrava o Gugu e o Silvio Santos, era um barato! Silvio me perguntou: ‘O que você quer ser quando crescer?’. E eu: ‘Jogador de futebol!’. E o Silvio: ‘Então seu lugar é no campinho do SBT!’ (risos). Já pedi para ele tirar uma foto com a minha avó e levei bronca.

Entrei naquele palco porque queria cantar. O Gugu me perguntou: ‘O que você vai fazer aqui?’. E eu: ‘Vou cantar’. No primeiro dia teve Leonardo, cantei com Chitãozinho & Xororó. Era o lugar onde eu queria estar! Realizei o sonho de ter um microfone sem fio, fiquei apaixonado. Gravei meus dois primeiros CDs financiados pelo Gugu. Hoje, revendo como adulto, algumas coisas me desagradam. Ninguém me procurou depois que saí do programa, mas sei que eram coisas de televisão.

Sempre ficava atrás do palco esperando o Gugu chegar para começar. Um dia, a gente esperou, entrou a vinheta, tocou a música e ele não chegou! O Dirlan [Jorge, produtor do Domingo Legal], me deu o microfone: ‘Dani, entra e anuncia o Los Hermanos!’. Entrei e apresentei. Quando eu entrava no palco, a audiência subia para 22, 24 pontos. Hoje nenhuma emissora dá esse ibope.

A maior importância do Domingo Legal é o cuidado e o carinho para dar alegria às pessoas. Durante cinco anos, abri mão de almoçar com a família, mas valia muito a pena. No programa, consegui tocar o coração do público. Saí em 2002, mas ainda lembram com muito carinho. Eu me sinto honrado! Muita gente me pergunta se o meu filho estivesse no meu lugar. Não acho ‘mimimi’, mas eu me preocuparia com o meu filho, que hoje tem a idade que eu tinha quando fiquei conhecido. Os anos 90 representaram uma virada em muitas coisas, foi uma revolução.

Luiza Ambiel: “Se tentassem me assediar, o pau comia”

Banheira do Gugu em 11 de agosto de 1996
Banheira do Gugu em 11 de agosto de 1996

Antes da banheira, eu trabalhava em várias produções da casa. Desfilava na Hebe, atuava em novela e trabalhava no Domingo Legal. Era modelo, fazia pintura corporal, de tudo um pouco, quando surgiu a prova da banheira. Haveria um teste com garotas, mas o Gugu já resolveu: ‘Vamos testar a comprida lá’. Era eu. Eu fui e deu certo. Não sabia o que fazer: ‘Sei lá, afoga o cara!’. O Gugu gostou! Não houve o teste e as meninas queriam me pegar (risos)!

Nunca me senti musa. Eu me achava magra, sofria para não engordar quando modelo, e o Gugu falava: ‘Aqui não tem essa’, e ganhei uns quilinhos. Achava doido o povo que me chamava de musa, ainda mais depois que saiu na mídia que eu era a ‘mulher que derrubava a Globo’. Sempre fui muito pé no chão. Não era desinibida, era muito tímida, mas fazia uma personagem e faço até hoje. Para mim, a banheira era um palco e eu dava meu show. Quando gritavam ‘valendo’, não sei o que dava em mim, parecia outra pessoa dentro de mim (risos). Não fiquei com aquela coisa de querer mostrar meu corpo. Se era para impedir de pegar sabonete, eu impedia. Eu dei meu sangue, mas não deixei pegarem sabonete!

Virei amiga da maioria dos convidados. Com Tiririca era uma das banheiras mais divertidas que tinha, muito engraçado. No Jô Soares no Onze e Meia, Gugu ficou muito orgulhoso. Fiz com Mamonas, Gerson Brenner, muita gente top. Se fosse hoje, seria com o Neymar, Cauã Reymond. Eu iria passar bem ali (risos). Os pagodeiros eram folgados, queriam tirar casquinha. Tive muita treta com pagodeiro e jogador de futebol. Brigava feio com os caras. Se tentassem passar a mão em mim, o pau comia. Joguei o Ivo Holanda para fora da banheira! ‘Ele pegou nos meus peitos!’. E ele: ‘Foi sem querer, Gugu!’. Na época, armaram para ele me zoar. Mas quando eram os caras, Gugu avisava: ‘Luiza é brava, ela não gosta, se botar a mão onde não deve ela fica nervosa!’. A galera viu que não podia tirar casquinha, porque eu não deixava, e comecei a apanhar. Depois de um tempo eu fiz jiu-jitsu, boxe e muay thai.

Durante a semana, todo mundo queria autógrafo e minha letra era horrível. Ainda é. Mas foi incrível, e foi só aumentando. Fui parar no Japão. Fiz banheira no Japão! Uma loucura. Uma vez fui comer em um restaurante e me pediram para assinar na parede. Eu me assustava às vezes. Uma vez, no aeroporto, vi tantas pessoas que pensei que estava vindo a Xuxa! Perguntei: ‘A Xuxa está no mesmo voo? Porque tem muita gente’. E o contratante: ‘É para você!’. Eu falo que é um presente de Deus ter posto o Gugu na minha vida. Sou muito feliz e grata pela oportunidade. Hoje vendo conteúdos adultos e pedem ensaio na banheira, na piscina, pedem para mostrar o pé, se pedem para eu chupar sorvete eu chupo… o sorvete (risos)! Meus assinantes são incríveis! Até hoje faço eventos com banheira. Entrei com 22, saí com 26, hoje estou com 50. Eles não esquecem. Os fãs antigos querem ver e os mais novos, que consumiram pela internet, também gostam.

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