Canais de notícias contratam profissionais caros sem garantia de sucesso

Eles investem mal, não cobrem todo o território brasileiro, contratam apresentadores a peso de ouro e o resultado é quase sempre decepcionante

Publicado há um mês
Por Christiano Blota
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Hoje mais uma vez vamos falar na coluna Por Trás da Tela um pouco dos bastidores de jornais em TVs abertas e a cabo. Bom. Um jornal não funciona somente com apresentadores e âncoras. Claro, vocês vão dizer.

Como espectadores assíduos, vocês até podem completar a informação e imaginar que um jornal se faz com repórter, câmera, editor, chefe de redação, pauteiro etc.

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E mais: jornalistas que escrevem laudas para dar suporte ao apresentador, a pessoa que fala no ponto eletrônico (aquele aparelho que fica no ouvido de quem fica na frente das câmeras).

No entanto, um problema lamentavelmente mal resolvido é o de como se preparar para a avalanche de notícias que assola um país de proporções continentais.

Você recebe notícias das agências internacionais, por exemplo, e fica mais fácil transmitir, comentar o assunto. Basta comprar os direitos e traduzir o que eles produzem, filmam, comentam. O profissional vai apenas repassar as notícias para brasileiros, que vão acrescentar um comentário aqui e outro ali.

E quando a notícia é aqui? Meus amigos, quando a notícia ocorre em solo brasileiro é preciso ter praça em todas as regiões e repórteres cobrindo o território nacional na íntegra.

Na atual fase da TV, em que dinheiro é escasso, fica difícil manter equipe de reportagem em todas as regiões. Sem falar de um certo protecionismo com cidades mais importantes para o mercado.

Então, é difícil acreditar em um jornal que cobre o Brasil se eu não tenho notícias do Acre, por exemplo. E regiões mais distantes das grandes cidades como o sertão da Bahia?

Eu ouço comentários “requentados” de Brasília, de São Paulo, do Rio de Janeiro, mas realmente não tenho a impressão de me manter informado sobre outras regiões brasileiras.

Se algumas pessoas enxergassem isso, poderíamos ter jornais mais ricos em qualidade e não em quantidade – todos falam mais do mesmo. Eu gostaria de ver um país unido não somente por novelas, mas por fatos de interesse amplo e indispensáveis para o crescimento de uma nação.

Eu vejo bons documentários, mas com os problemas financeiros das TVs, somados a uma crença em um marketing ultrapassado, os jornais são pobres em notícias e divulgação própria, que poderia atrair investidores.

E com a atual gestão de algumas emissoras fica mais difícil sair do buraco. Eu acompanho atentamente as contratações de figuras que cresceram em grandes canais, nomes fortes e bons do jornalismo.

Então vejo que a emissora “Alpha” contratou o apresentador “Gama” para reforçar determinada equipe. Com que dinheiro? A TV vai pagar um absurdo por um nome (sem entrar no mérito da competência), e a corda vai estourar no lado mais fraco.

Aquelas pessoas que ficam o dia inteiro na redação, se matando para colocar o jornal no ar, por trás da tela, vão ganhar pouco e a qualidade do jornal vai cair.

Isso porque, além da desmotivação de não ser valorizado, o profissional precisa cobrir o espaço deixado por um demitido, que foi obrigado a sair para bancar alguns salários astronômicos.

E a mesma coisa acontece em outras praças. Não se consegue cobrir determinada região porque é caro manter equipe por lá. Mas é considerado válido falar de outros lugares tradicionais no jornalismo brasileiro, por política e por conveniência.

De maneira que temos jornais, e mesmo canais de notícias, pouco criativos. Os responsáveis acham que anunciar a contratação de grandes nomes vai chamar audiência, virar o jogo. “Agora eles vão sentir nossa força”, devem pensar.

Eles se esquecem que marketing é um meio e não um fim. Por alguns dias, curiosos podem até acompanhar determinado programa jornalístico porque o apresentador renomado estreou. Mas, se o jornal não tiver conteúdo e for obsoleto, com o tempo a audiência cai novamente.

E mais: às vezes o público que acompanhou determinado profissional em uma TV, em um determinado horário, não será o mesmo que vai estar presente no momento da estreia e, por isso, em alguns casos, a contratação dispendiosa vai por água abaixo.

É melhor uma equipe coesa, com grandes profissionais, sem muito nome, ganhando um salário decente, do que apenas poucos se beneficiando e outros mal tendo dinheiro para pagar as contas.

Quando dizem que no Brasil tudo acaba em “futebol”, o mesmo vale para jornal. Contratar apenas um técnico ou jogador não é garantia de sucesso de um time.

No caso do jornalismo, contratar apenas um bom diretor de jornalismo e poucos e caros âncoras não significa certeza de êxito. Mas no futebol, quando a torcida está brava, os “mandantes” sabem que contratar um craque faz a reclamação cessar momentaneamente.

Porém, com o tempo, as críticas pioram porque o efeito foi “paliativo”, embora os torcedores continuem fiéis. No jornal acontece a mesma coisa, mas no caso, além de reclamar, a audiência não é fiel (e não deve ser), e o público simplesmente abandona o barco.

E com essa comparação entre jornal e futebol, me resta imaginar o saudoso Fiori Gigliotti, narrando o fim do jogo entre emissoras concorrentes, que ainda acham que são esquadrões da época de Pelé ou Assis Chateaubriand: “E o tempo passa, torcida brasileira”; “Aguenta, coração”; “Agora não adianta chorar”; “Crepúsculo de jogo”!

*As informações e opiniões expressas nesse texto são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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