Paulo Autran deixou as novelas para sempre depois de Sassaricando

Ator declarou que na televisão só interpretou débeis mentais

Publicado há 11 dias
Por Fábio Costa
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Nesta terça-feira (8), o Canal Viva estreia em suas faixas das 14h30 e 0h45min Sassaricando, de Silvio de Abreu. Com direção-geral de Cecil Thiré, a novela foi exibida originalmente pela TV Globo às 19h, de novembro de 1987 a junho de 1988.

A inspiração é nas comédias do cinema norte-americano dos anos 1950, especialmente em Como Agarrar Um Milionário, de Jean Negulesco. Foi desse filme que Silvio de Abreu tirou as amigas em busca de homens ricos para se casar, inspiradoras das personagens Rebeca (Tônia Carrero), Penélope (Eva Wilma) e Leonora (Irene Ravache).

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O milionário comum na vida das três é Aparício Varela (Paulo Autran), que no início da história é oprimido o tempo todo pela mulher, Teodora Abdala (Jandira Martini), dona de um império têxtil. Sem qualquer voz ativa, seja em casa, seja na empresa, Aparício é um joguete nas mãos de Teodora, com quem ele se casara sem amor, para escapar à pobreza.

Dos tempos de pobreza a única boa lembrança é a paixão da vida, Rebeca, que o tempo afastara dele. Aparício reencontra Rebeca, mas, temeroso de que ela hoje goste dele apenas por ser rico, decide passar por faxineiro da tecelagem.

Ao enviuvar, Aparício resolve recuperar o tempo perdido e “saçaricar”: envolve-se com as três amigas de uma vez. Todavia, seu grande amor segue sendo Rebeca, uma estilista que, também viúva, não consegue manter o elevado padrão de vida de quando o marido vivia apenas com seu trabalho em moda.

Penélope acaba de ser abandonada pelo marido, que a trocara por uma menina mais jovem do que o filho do casal, Beto (Marcos Frota), publicitário que vive em São Paulo e com que ela vai morar ao deixar o Rio de Janeiro. Leonora é uma atriz sem projeção – e sem talento.

A exuberante Tancinha (Cláudia Raia), uma das filhas do grande amigo de Aparício, Ricardo de Pádua (Carlos Zara), com a feirante espanhola Aldonza (Lolita Rodrigues), chamou a atenção e cresceu bastante, apesar de ter destaque desde o começo da história. Sua condição de “divididinha” entre o vizinho Apolo (Alexandre Frota) e o publicitário Beto (Marcos Frota), filho de Penélope, rendeu grande torcida do público.

O mesmo se repetiu na adaptação modernizada Haja Coração (2016), de Daniel Ortiz, com Mariana Ximenes, Malvino Salvador e João Baldasserini nos papéis de Tancinha, Apolo e Beto, respectivamente. Aliás, a adaptação deve ser reprisada na TV Globo às 19h a partir do mês que vem, se nada mudar.

Fala-se muito que Tancinha roubou de Aparício e seus “saçaricos” o protagonismo de Sassaricando. Não sei se é o caso de dizer isso. Embora prometesse mais no início da novela do que acabou por entregar em seu decorrer, o Aparício de Paulo Autran seguiu protagonista.

Suas aventuras que foram desde a divisão entre três mulheres de meia-idade até o envolvimento nas tramas de uma misteriosa organização liderada pela figura de “Ela”, na verdade “El A”, Achid (Lourival Pariz), se podem ter perdido alguma força, não deram espaço completamente ao triângulo amoroso de Tancinha, a moça que falava tragicamente errado.

É bem verdade que, se os espectadores podiam até gostar de Aparício, a crítica não gostava. Nem Paulo Autran, que depois de concluir o trabalho declarou que não mais voltaria a fazer novelas. Falecido em 2007, o ator cumpriu a palavra. Até sua morte, ele pouco fez televisão, e quando fez foram projetos breves. Novela, realmente, não fez mais nenhuma.

Em uma fotobiografia intitulada Sem Comentários, Paulo Autran basicamente fala de teatro, sua grande paixão. Ao citar trabalhos na televisão, das poucas novelas cujos elencos integrou o ator falou de apenas duas: Pai Herói (1979), de Janete Clair, e Guerra dos Sexos (1983), de Silvio de Abreu.

O ator chegou a declarar que na televisão só interpretou débeis mentais, isso também à medida que, por não saberem de fatos óbvios, eles todos terminam débeis mentais no decorrer dos enredos. Verdade seja dita, Paulo Autran levou seus “débeis mentais” com todo o profissionalismo possível, sem que o público o sentisse “sem tesão” pelo trabalho.

Manteve um espaço de quatro anos entre os trabalhos que aceitou fazer para que não enjoasse da TV nem o público de TV enjoasse dele. Mas enjoou de fazer novelas, com cenas repetitivas, personagens sem a profundidade que o teatro propicia.

Um exagero que sem dúvida era resultado de um desencanto com o trabalho no veículo que lhe rendeu ainda mais admiradores e somente reafirmou seu grande talento, que já era mais do que reconhecido. Mesmo que Paulo Autran não tenha curtido tanto assim, curtamos Sassaricando nessa reprise, até para matar a saudade do próprio intérprete de Aparício.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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