#TBTdaTelevisão: Metamorphoses, uma boa ideia que não deu certo

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
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Nesta quinta-feira, 14 de março, completam-se 15 anos de uma das mais audaciosas iniciativas da teledramaturgia brasileira nos últimos tempos. No #TBTdaTelevisão desta semana, Fábio Costa resgata Metamorphoses, novela na qual a Record TV apostou alto, mas que acabou não dando certo.

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Os antecedentes da produção de Metamorphoses, no #TBTdaTelevisão

Ainda em 2003, a Record TV firmou uma parceria com a produtora Casablanca para produzir uma novela. Sua última havia sido Roda da Vida, de Solange Castro Neves, exibida em 2001. A produtora era responsável por um dos grandes sucessos da emissora àquela altura, a série Turma do Gueto.

Foram acertados 140 capítulos para a primeira novela de um acordo que previa pelo menos três. Um segundo horário poderia ser implantado ainda em 2004, no mês de agosto. Inicialmente, Marcílio Moraes foi convidado pela produtora a desenvolver uma sinopse. Em virtude de interferências da proprietária da Casablanca e líder do projeto, Arlette Siaretta, o autor de Mandala (1987/88) e Mico Preto (1990), entre outras, saiu da equipe.

A cineasta Tizuka Yamasaki, contratada para dirigir a novela, chamou então Mário Prata. Este desenvolveu uma nova sinopse a partir de uma original de autoria da própria Arlette. Todavia, Prata também deixou o projeto após discordar de interferências em seu trabalho. Posteriormente, Tânia Lamarca e José Louzeiro também chegaram a figurar na imprensa como autores da novela. Com a premência da data prevista para a estreia e a necessidade de iniciar as gravações, a solução foi uma junta de quatro autoras-roteiristas: Yoya Wursch, Jaqueline Vargas, Mireille Gaudin de Moraes e Vivian de Oliveira foram as responsáveis por transformar em capítulos a história pretendida para a novela. partiriam do trabalho feito por Prata. E, claro, da grande ideia central de Arlette. Esta constava nos créditos da novela como Arlette J. Gaudin em “novela de” e Charlotte K. no campo “núcleo”, a saber.

A trama de Metamorphoses

O centro da história era uma clínica de estética e cirurgia plástica, de propriedade da família grega Cipriatis. As irmãs Diana (Luciene Adami) e Circe (Lígia Cortez) comandam a clínica, junto de Lucas (Luciano Szafir). Este é afilhado do avô delas, o Dr. Eugênio Alencastro (Gianfrancesco Guarnieri). Entre os funcionários da clínica, a enfermeira Prazeres (Zezé Motta) e um dos especialistas, Fábio (Rodrigo Lombardi).

Constantino Cipriatis, pai das cirurgiãs, teve fora do casamento um relacionamento com a debochada Bel (Lúcia Alves). Dele nasceu Lia (Vanessa Lóes), de quem a verdade não foi escondida. Lia e Circe se dão bastante bem, ao passo que Diana é mais avessa a maiores contatos. Tem problemas a sanar em seu casamento com Carlos (Zecarlos Machado), um escritor, pai de seu filho Diogo (Domingos Meira).

Lucas é apaixonado por Circe, mas ela se casa com o japonês Takashi Mifune (Kissei Kumamoto). Ela não sabe, mas ele é ligado à Yakuza, a Máfia japonesa. Uma valiosa joia dos czares russos que estava em poder da Yakuza some e vai parar na bagagem de Circe em seu retorno para o Brasil. Anteriormente, ela viajara ao Japão para celebrar sua lua de mel com Mifune. Perseguidas, Lia e Circe sofrem um acidente de automóvel. Lia fica à beira da morte e pede a Lucas que faça um transplante de face em Circe usando a dela. Desse modo, Lia morre, mas para todos os efeitos quem morreu foi Circe. Ao passo que esta, viva e com o rosto da meia-irmã, segue ameaçada pela Yakuza no caso de ser desmascarada. Além disso, Mifune comete o suicídio japonês (harakiri) e surge em cena seu gêmeo, Aniki.

Outros personagens da história

Margot Dubois (Joana Fomm) é uma atriz para quem Carlos deve escrever um texto de teatro, a fim de que ela retorne aos palcos. A filha de Margot, Talita (Tallyta Cardoso), não se sente bem com a aparência e pretende fazer algumas modificações a partir de cirurgias. Oprimida pela figura de diva bela e famosa da mãe, é cobrada por Margot para mudar a aparência. É justamente na Metamorphoses que a moça decide se submeter ao bisturi. Tallyta fez intervenções reais, como implante de silicone nos seios, e a cirurgia foi exibida na novela.

Dona Aspásia (Myrian Muniz), avó das cirurgiãs, despachada e sábia, era uma personagem interessante, que marcou a despedida da atriz da cena artística. Ela faleceu pouco depois, em dezembro de 2004. Sua cuidadora era Lourdes (Suely Franco), muito dedicada e competente. Lourdes era virgem e começou um relacionamento com CG (Edson Montenegro). No entanto, Myrian saiu da novela e as autoras fizeram com que Lourdes também fosse embora. Na trama, ela foi para a Grécia atrás de Dona Aspásia, e seu romance foi esquecido.

A debandada do elenco revela os problemas de bastidores do projeto

O primeiro capítulo da novela foi exibido num domingo, e isso fez com que Metamorphoses chamasse ainda mais atenção. Os índices de audiência foram bastante bons, chegando aos 15 pontos em São Paulo. Todavia, a confusão da trama e sua maneira linear de ser apresentada ao público afastaram os espectadores nas noites seguintes. No gênero telenovela, é fundamental reforçar, repetir, relembrar tramas e fatos a fim de que o público que eventualmente perca algum capítulo se situe sempre na narrativa. Metamorphoses era bem produzida, mas parecia um filme exibido em partes. A repercussão minguando a cada dia e os problemas de bastidores levaram o elenco a se desinteressar do trabalho.

Joana Fomm foi a primeira integrante a deixar o elenco da novela, ainda nos capítulos iniciais. Isso prejudicou o desenvolvimento dos personagens de Tallyta e Zecarlos, que posteriormente também saiu. Paulo Betti, Maria Ribeiro e Francisca Queiroz, que integravam o “núcleo policial” da trama, também saíram da novela pelo meio. Betti era Marcos Ventura, investigador que se empenha na elucidação dos crimes ligados à Yakuza e, portanto, aos Cipriatis.

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A segunda fase de Metamorphoses

Sem atingir os resultados esperados e com atores deixando a novela, Metamorphoses foi toda modificada. Saíram as autoras iniciais e Letícia Dornelles entrou em seu lugar. Poucos integrantes do elenco seguiram no projeto e foi escalado todo um novo grupo. Lucas passou a formar par romântico com Suellen (Jackeline Petkovic), filha de Frederico (Carlos Capeletti) e Valdirene (Rosaly Papadopol), ricos sem refinamento que se tornam sócios da Clínica Metamorphoses. Ângelo (Ricardo Macchi) e Kelly (Ellen Rocche), a irmã invejosa de Suellen, passaram a ser os antagonistas. Diana segue como cirurgiã.

Tizuka Yamasaki, Tânia Lamarca e João Camargo deixaram a direção. Além disso, Pedro Siaretta, que já dirigia a novela, passou a responder pela direção-geral. Ao final, Letícia Dornelles foi substituída por duas das autoras iniciais, Yoya e Mireille. O horário de exibição passou a flutuar na grade, e e a novela chegou a ser apresentada na faixa das 22h. A Record acabou por fazer valer uma cláusula contratual que lhe garantia o direito de tirar a novela do ar caso ela ficasse abaixo dos cinco pontos de audiência por 60 capítulos. De mudança em mudança, com o elenco gravando hoje sem saber se amanhã haveria trabalho, a novela saiu do ar com 122 capítulos, em 27 de agosto de 2004, a saber. Sem deixar saudade.

No entanto, a tentativa foi válida. Retomar um público para dramaturgia sem ter o gênero na grade é mesmo complicado e muitas são as experiências que comprovam isso. Mas a Record TV em seguida decidiu voltar ela mesma a produzir novelas. Dois meses depois, colocou no ar no competitivo horário das 19h uma nova versão do romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Com efeito, ali sim se iniciou uma fase de repercussão e grandes acertos.

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