#TBTdaTelevisão: Bem de crítica, mal de público

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
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Nesta semana, Fábio Costa relembra no #TBTdaTelevisão algumas novelas que foram muito elogiadas pela crítica especializada, mas em relação a números não foram tão bem assim. A novela das 18h, Espelho da Vida, que termina na próxima segunda-feira, é um exemplo. No entanto, cabe sempre a lembrança de que as circunstâncias ditam os movimentos da emissora – e da crítica. E que marcas expressivas de audiência por vezes desagradam, por não serem boas o suficiente dentro do esperado.

Novelistas como Janete Clair e Carlos Lombardi tiveram a crítica contra eles como uma constante em sua carreira. A primeira foi consagrada com o epíteto “Nossa Senhora das Oito”, em virtude de sua sucessão de êxitos neste horário, na Rede Globo. E também foi duramente criticada porque suas novelas supostamente eram alienantes e desconectadas da nossa realidade. Isso num momento político tão difícil para o País como foi a ditadura militar. Já o segundo, autor de vários sucessos de ibope às 19h desde os anos 1980, foi acusado de copiar a si mesmo. Além de abusar de descamisados justiceiros, erotismo e baixo nível.

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Espelho Mágico

Gloria Menezes e Tarcísio Meira em Espelho Mágico (Cedoc/Globo)

Após duas experiências arrojadas no horário das 20h da Globo, Lauro César Muniz ousou ainda mais. Em Escalada (1975) ele se propôs contar a trajetória de um homem em seus momentos-chave, dividida em três fases. O Casarão (1976) tratou de cinco gerações da mesma família, com três épocas intercaladas. Já Espelho Mágico (1977) tinha por base os bastidores do mundo das artes e dos espetáculos. Os personagens eram atores, jornalistas, escritores, diretores de TV e teatro, enfim, artistas.

Mas parte do público estranhou o fato de ver seu mundo de ilusões sobre os astros da telinha ruir. Só para ilustrar, para que se faça uma ideia, os índices caíram dos 70 para a dos 50 pontos. Ainda que a novela fosse estrelada por Glória Menezes e Tarcísio Meira e eles tivessem a companhia de Lima Duarte, Yoná Magalhães, Juca de Oliveira, Sônia Braga e outros tantos. Ou seja, em 1977 era preocupante e indesejado atingir “só” 50 pontos num horário com potencial para mais.

Força de Um Desejo

Reginaldo Faria e Sônia Braga em Força de Um Desejo (Divulgação/ TV Globo)

“Globo reprisa novela que foi um fracasso”. Com essa manchete, a Folha de S. Paulo anunciou a volta de Força de Um Desejo no Vale a Pena Ver de Novo, em 2005. Exibida em 1999, às 18h, a obra juntou dois craques da telenovela, Gilberto Braga e Alcides Nogueira, numa história de época com todos os ingredientes do sucesso. Uma história folhetinesca e romântica, reconstituição impecável do século 19. Um elenco estelar liderado por Malu Mader, Reginaldo Faria, Fábio Assunção, Paulo Betti e Cláudia Abreu… Todavia, inexplicavelmente, a meta de audiência de 30 pontos (hoje 20) não foi atingida.

Para “ajudar”, Força de Um Desejo ainda foi esticada, chegando aos 227 capítulos. Mesmo assim, tomá-la por fracasso é um pouco demais, uma vez que a plenitude da realização artística aconteceu. Tanto que a Globo resolveu reprisá-la, e com sucesso. Seria cartaz do Viva, que a trocou em cima da hora por Porto dos Milagres.

A Vida da Gente

Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano em A Vida da Gente (Divulgação/ TV Globo)

Após a fantasia mesclada ao cangaço em Cordel Encantado, atual cartaz do Vale a Pena Ver de Novo, o horário das 18h da Globo investiu em 2011 numa novela totalmente diferente. A Vida da Gente marcou a estreia de Lícia Manzo como autora titular no gênero, e contava a história de duas irmãs, Ana (Fernanda Vasconcellos) e Manuela (Marjorie Estiano). A primeira era a menina dos olhos da mãe, Eva (Ana Beatriz Nogueira), que apostava todas as fichas no futuro vitorioso da jovem como tenista. Já a segunda era espezinhada, por ser coxa e supostamente menos capaz do que a irmã.

Uma grande reviravolta ocorre na vida das duas quando Ana sofre um acidente de automóvel e Manuela precisa cuidar da sobrinha Júlia (Jesuela Moro), filha de Ana com o rapaz com quem as duas se envolvem em momentos distintos, Rodrigo (Rafael Cardoso). Muito elogiada pela crítica e sucesso de exportação da emissora, no Brasil A Vida da Gente atingiu índices modestos. Os quais, felizmente, não influíram de forma selvagem na condução da história pela autora.

Lado a Lado

Laura (Marjorie Estiano) e Isabel (Camila Pitanga) de Lado a Lado (Divulgação/TV Globo)

Vencedora do Emmy, Oscar da televisão mundial, no Brasil ironicamente Lado a Lado não teve o merecido reconhecimento. A novela foi exibida entre 2012 e 2013 às 18h pela Globo. Escrita por Cláudia Lage e João Ximenes Braga, com supervisão de texto de Gilberto Braga, a história era ambientada no Rio de Janeiro do início do século passado. As trajetórias de Isabel (Camila Pitanga), moça negra e pobre, e Laura (Marjorie Estiano), jovem rica que rejeita a ideia do casamento por desejar estudar e ter vida profissional, se cruzam no dia da união de ambas com seus respectivos noivos, Zé Maria (Lázaro Ramos) e Edgar (Thiago Fragoso).

Um grande desajuste ocorre quando o primeiro falta à cerimônia, dando início a uma série de desencontros, e o segundo embarca num casamento também a princípio indesejado por ele. A Revolta da Chibata, a chegada da cultura do futebol ao País, os cortiços cariocas e as políticas de “higienização” especialmente do Centro da cidade, o estabelecimento das favelas e a posição dos negros e das mulheres na sociedade eram os temas abordados na novela. Com toda a certeza, ela merece uma reprise.

Meu Pedacinho de Chão

Meu Pedacinho de Chão foi exibida pela primeira vez pela Globo no começo dos anos 1970, inaugurando o horário das 18h. No entanto, o ciclo contínuo da faixa se deu a partir de 1975, com Helena. Ao recontar a história, Benedito Ruy Barbosa e o diretor Luiz Fernando Carvalho apostaram num visual muito colorido, fantasioso mesmo. E isso se estendeu, a saber, à caracterização dos personagens. O cabelo cor-de-rosa de Bruna Linzmeyer (como Juliana), por exemplo, foi um caso. Mas justamente esse tom e esse visual inusuais, mais a flutuação da grade da emissora em virtude de se ajustar à cobertura da Copa do Mundo, contribuíram para números baixos de audiência.

Nem só de Globo vivem os sucessos de crítica e fracassos de público, como recorda o #TBTdaTelevisão

Abertura da novela Gaivotas, exibida pela Tupi em 1979

As outras emissoras têm também seus êxitos de crítica e fracassos de público a enumerar. Um exemplo flagrante, vencedor de prêmios importantes em 1979, foi a novela Gaivotas, da Rede Tupi. Já em seus últimos suspiros, a emissora pioneira apostou nessa história escrita pelo dramaturgo Jorge Andrade para atrair audiência para a faixa das 21h. O protagonista era Daniel (Rubens de Falco). Trinta anos depois da formatura de sua turma de colégio, ele decide reunir os antigos colegas para férias em seu suntuoso solar no interior. No entanto, nenhum deles sabe exatamente o porquê dessa saudade repentina. Exatamente por isso, ficam todos impelidos a confrontar seu passado e descobrir o porquê. Além de serem também atraídos por eventuais vantagens financeiras que podem tirar da reaproximação de Daniel, hoje um dos maiores milionários do Brasil, outrora menino pobre que estudou de graça no rico instituto que frequentavam.

Só para exemplificar, há outros meios de mensurar a recepção de um produto televisivo. Ainda mais hoje, em tempos de Globo Play e afins, com os espectadores fazendo seu horário e seu ritmo de acompanhar as histórias que lhes interessam. O termo “fracasso” é temerário quando tratamos de um gênero de tamanha penetração popular. E num momento transitório no qual o futuro da televisão como a conhecemos é algo incerto.

Espelho da Vida, por exemplo, repercute muito bem na internet, e é muito assistida no serviço de streaming. Ademais, se na medição parcial e, por isso, discutível, ela não vai tão bem quanto pode e merece, não parece desagradar à emissora. Poucas praças, especialmente do Sudeste, entram na contagem do Ibope. Em suma, os índices paulistanos e cariocas são os que ditam modificações por vezes exageradas nas novelas. Isso deve ser repensado.

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