Publicidade

No TBT da TV, Milton Gonçalves e a representatividade negra na teledramaturgia

Em 1975, ator pediu a autora um 'negro de terno e gravata'

Milton Gonçalves
Publicidade

O ator Milton Gonçalves infelizmente está hospitalizado há alguns dias, devido a um acidente vascular cerebral (AVC) que sofrera. Aos 86 anos de idade e mais de 60 de carreira, Milton é um dos nossos maiores atores, com toda a certeza, negros ou não. Com efeito, sua importância para a representatividade negra em nossa teledramaturgia é imensurável. Foi Milton um dos primeiros atores negros, senão o primeiro de fato, a ter na TV, em um gênero tão abrangente como a telenovela, personagens que frequentemente são oferecidos a atores brancos. De elevado nível social e acadêmico, bem vestidos, respeitados, expoentes de sua área de atuação profissional. No #TBTDaTV desta semana, Milton Gonçalves e sua grande significância para a promoção da representatividade negra.

O negro “de terno e gravata”

O ano era 1975. A Censura Federal proibiu a exibição da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, não apenas no horário das 20h, para o qual era destinada, como também para qualquer outro. Às pressas, Janete Clair começou a desenvolver outra novela para ocupar o horário, enquanto outra criação sua, Selva de Pedra (1972/73), era reprisada em versão compacta. Uma ingerência da ocasião era utilizar o elenco já contratado para Roque Santeiro – a Globo não era o que é hoje, e “desperdiçar” os atores seria um prejuízo financeiro, tanto quanto simplesmente dispensá-los seria um desgaste desnecessário.

Milton Gonçalves tinha em Roque Santeiro o destacado papel do Padre Honório, pároco à moda antiga que não se dava bem com a modernidade que o mito de Roque Santeiro acabou trazendo para a pequena Asa Branca. Já era em si um personagem que atores negros não ganhavam na época, de grande importância e peso na trama. Para Pecado Capital, Milton pediu a Janete, com quem já trabalhara antes, que seu personagem fosse “um negro de terno e gravata”. Pode ser que o ator tenha resolvido fazer esse pedido motivado pela ambientação de parte da história, o bairro do Meier, zona norte carioca. Todavia, por esse ou por qualquer outro motivo o pedido de Milton ocorreu e foi atendido.

Continua depois da publicidade

No seio da família Lisboa

Janete Clair criou para ele o personagem Percival Garcia. Psicólogo renomado, com especializações nos centros mais avançados do exterior, ele era procurado pelo industrial Salviano Lisboa (Lima Duarte) para tratar sua filha mais nova, Vilma (Débora Duarte). A jovem passou por um sério trauma na infância, que condicionou sua adolescência e prosseguia condicionando seu comportamento e suas emoções no início da vida adulta. Embora respeitado em seu ramo de atuação, Percival também foi alvo de racismo, especialmente da parte de Vinícius (Marco Nanini), um dos irmãos de Vilma. Ademais, um eventual romance que poderia surgir entre ele e Vitória (Theresa Amayo), a mais velha dos seis filhos de Salviano, casada e infeliz com Hernani (Dary Reis), foi deixado de lado. Outro efeito do racismo.

Ator contribuiu muito para a representatividade negra na teledramaturgia

Com toda a certeza, Milton Gonçalves foi um dos profissionais que mais contribuíram para a promoção da representatividade negra na teledramaturgia. Não somente por sua atuação constante em novelas e minisséries, também como diretor entre os anos 1960 e 1980. Mas especialmente por sua firme posição contra os estereótipos que assolam as escalações de negros desde sempre. Por pouco não perdeu o emprego na TV Globo ao se negar a apoiar publicamente a escolha do branco Sérgio Cardoso para o papel central de A Cabana do Pai Tomás (1969/70). Além disso, sempre foi pela inclusão de atores negros em elencos tomados por brancos, num país como o nosso.

Milton Gonçalves não se furtou à interpretação de homens negros pobres, de má reputação ou criminosos mesmo, fossem eles deste ou daquele lado do lei. No entanto, sempre buscou que seus personagens não reforçassem preconceitos e tivessem motivações, sentido para suas atitudes. Ele viveu tanto o crédulo e humilde Zelão de O Bem-amado (1973) quanto o esperto e ladino Nenê Alegria-das-gringas em O Espigão (1974), que assaltava joalherias com Lazinha (Betty Faria) e Dico (Ruy Rezende). Não foi o Pai Tomás, mas foi outro escravo patriarca que acabou muito mais representativo. O Pai José de Sinhá-Moça, que viveu nas duas versões que a novela já ganhou (1986 e 2006). Dois políticos bastante diferentes também constam da galeria de trabalhos de Milton Gonçalves. Apolinário Santana, o advogado idealista e também deputado em Mandala (1987/88), e Romildo Rosa, o corrupto e temido deputado de A Favorita (2008).

Publicidade
© 2020 Observatório da TV | Powered by Grupo Observatório
Site parceiro UOL
Publicidade