Reportagem de Domingo: O Outro Lado do Sucesso

Publicado há 3 anos
Por Gabriel Vaquer
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É dia 15 de dezembro de 2017. Na sala comum do Hostel Porto das Palmeiras, localizado na Barra, bairro nobre de Salvador, cerca de dez pessoas estão reunidas loucas para ver o que todo o Brasil já viu: o retorno triunfal de Clara (Bianca Bin) para Palmas, em O Outro Lado do Paraíso.

Por conta do horário de verão e do The Voice Brasil, o Norte e Nordeste viu a cena que a grande maioria do País já comentava um dia depois. Mas nem por isso deixou de se impactar.

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Veja mais: Reportagem de Domingo: A tormenta soteropolitana da Globo

“Que cenão!”, disse Kátia, moradora do Acre que está em Salvador de férias, mas que não sai enquanto a “sua novela” está no ar. “Não curti muito a música no fundo, mas realmente… Cena incrível”, também comenta Ana Luísa, de 20 anos, que também estava na sala.

Completando dois meses no ar neste sábado (23), O Outro Lado do Paraíso só virou um fenômeno de audiência no dia 27 de novembro, quando sua tão esperada segunda fase foi ao ar. Seu primeiro mês preocupou, e no PNT, chegou a perder o posto de programa mais visto da TV paga Pega Pega, novela das 19h que é muito vista, mas pouco falada.

A partir deste momento, Walcyr Carrasco e companhia limitada recuperaram o público, e trouxeram pessoas que estavam ávidas para ver como Clara iria recuperar tudo o que lhe tiraram.

A audiência teve um crescimento espantoso e jamais visto no horário. A trama pulou de 27,5 na última semana da primeira fase, para 36,1 pontos na semana seguinte com Clara virando o jogo. É uma subida incrível de 8,6 pontos na Grande São Paulo – quem mais chegou próximo de um crescimento assim foi Senhora do Destino, em 2005.

Clara (Bianca Bin) e Gael (Sergio Guizé) na primeira fase de O Outro Lado do Paraíso: fase afastou o público e assustou a Globo (Divulgação/Globo)

Nesta semana, entre 18 e 23 de dezembro, O Outro Lado tem média, até agora, de 39 pontos. A depender os índices consolidados dos dias 22 e 23, que só serão divulgados no dia 26 de dezembro, após o Natal, a novela deverá bater seu recorde semanal de Ibope na principal metrópole do Brasil.

Mas por que uma trama que estava tão em baixa virou o jogo tão rápido, e de maneira tão contundente? A explicação está na voz do povo, que mesmo não parecendo, ainda gosta de se reunir diante da TV para ver uma boa e velha novela das 21h.

O povo explica 

O Centro de Aracaju (SE) está cheio no mês de dezembro. É época de Natal e as pessoas aproveitam o dinheiro extra para comprar presentes. No último dia 22 de dezembro, a reportagem do Observatório da Televisão esteve por lá e tentou encontrar uma personagem que exemplificasse bem o sucesso de O Outro Lado do Paraíso.

Não demorou muito para que achassimos alguém disposto para falar de Clara e sua vingança. Dona Gilvânia Silva, de 59 anos, estava com sua neta de apenas 4 anos. Ela queria comprar uma sandália para a pequena usar na ceia de Natal da família. Mas a fila na loja teve de esperar quando perguntamos: “A senhora assiste O Outro Lado do Paraíso?”.

“Demais! Adoro a Clara! Quero que ela acabe de vez com aquela família ladrona”, diz em tom de torcida fervorosa de futebol. Questionamos Dona Gilvânia porque ela torce tanto para a vingança da mocinha, e ela é muito sincera.

“Porque é justiça, e comigo é assim, tem que ser tudo justo. Ela nunca fez nada e usaram ela. Tem que ter tudo o que é seu. Filho, esmeralda… Tudo. E ela tá certa”, comenta a moça a senhora. Depois de conversarmos sobre alguns acontecimentos, pergunto pra ela qual outro núcleo ela gosta mais.

Suzy ( Ellen Rocche) e Samuel (Eriberto Leão): criticados nas redes sociais, amados pelo povo nas ruas (Divulgação/Globo)

Confesso, o repórter que vos fala ficou um pouco surpreso: dona Gilvânia disse amar as peripécias de doutor Samuel (Eriberto Leão) e Suzy (Ellen Rocche). “Eu amo aquele doutor viado. Agora coitada da moça. Ele devia se assumir viado logo”, diz aos risos a senhora. “Eu acho engraçado, dou muita risada”, completa.

Me dou por satisfeito e vou embora. Com cerca de dez minutos de conversa, dona Gilvânia esclareceu muito do que Walcyr Carrasco fez para virar a novela: acelerou a vingança da mocinha e colocou muito mais humor na sua história.

A vingança nunca é plena mesmo? 

Entre 1844 e 1846, Alexandre Dumas, o mesmo autor do clássico Os Três Mosqueteiros, escreveu O Conde de Monte Cristo. A história conta a passagem de um marinheiro que é preso injustamente. Ele acaba por herdar uma herança misteriosa, e com isso, consegue se vingar de todos aqueles que o fizeram ter uma vida de prisioneiro.

O mote da história é usado até hoje por folhetins de todo o mundo, incluindo o nosso objeto de estudo deste domingo. O próprio Walcyr Carrasco já admitiu que se inspira nele para tocar a história de Clara.

“O Conde de Monte Cristo é um folhetim clássico francês que adoro e que me inspirei para criar a história de Clara em O Outro Lado do Paraíso (…) Quem não leu, eu recomendo. É de grudar e não parar mais”, disse Walcyr no dia 5 de dezembro, em sua conta no Instagram.

Mas a verdade é que, ao contrário do que diz o Seu Madruga, do seriado Chaves, pelo menos na televisão, a vingança costuma ser plena. E quando dizemos plena, falamos de ter sucesso, ter audiência e causar comoção entre os telespectadores. E não falamos só de novela.

Revenge: vingança de Amanda Clarke ganhou inúmeros fãs pelo mundo (Divulgação)

Em 2011, o mundo começou a venerar Revenge, produzida pelo canal americano ABC e exibida aqui no Brasil pela própria Globo e no canal Sony. O programa conta a história de Amanda Clarke (Emilly VanCamp), que ao ver seu pai ir preso injustamente, decide se vingar das pessoas responsáveis por isso, principalmente Victoria Grayson (Madeleine Stowe).

Revenge terminou criticada, mas ganhou inúmeros fãs pelo mundo. Aqui no Brasil, Amanda Clarke só teve menos fãs que a grande heroína de 2012 na televisão: Nina (Débora Falabella), a protagonista de Avenida Brasil.

Antes de A Força do Querer, o último grande fenômeno da Globo em termos de Ibope no horário das 21 horas foi justamente a novela de João Emanuel Carneiro, que tratava de forma muito contundente – até mais que O Outro Lado – a vingança de Nina contra a vilã megera e caricata Carminha (Adriana Esteves).

Adriana Esteves e Débora Falabella em Avenida Brasil: novela virou mania nacional ao também falar de vingança (Divulgação/TV Globo)

Vendo todos estes fatores, como a vingança atrai tanto e fascina de forma tão forte o brasileiro? Fomos atrás de explicações psicológicas para entender. “Num país em que a Justiça não é frequentemente feita, o brasileiro gosta de ver porque pensa que aquilo pode ser real de alguma forma”, diz a psicóloga Jéssica Bonfim.

“O nosso povo é um povo justo, e quando não vê a Justiça de alguma forma ser feita, ele apoia a tal Justiça com as próprias mãos. De alguma forma, as novelas e séries que abordam esse assunto mostram isso: a tal Justiça, em alguns casos, só pode ser buscada por nós mesmos”, completa a profissional.

Pensando neste contexto, O Outro Lado do Paraíso é um sucesso inquestionável, por todos os poréns que citamos acima. Hoje, a trama é um fenômeno de massa. Se continuar sua escalada na audiência, vai superar com facilidade A Força do Querer e a sua “co-irmã de vingança” Avenida Brasil.

Clara (Bianca Bin) de O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/ TV Globo)

A história de Clara ainda tem muito chão pela frente, já que está prevista para terminar em meados de 2018. A ver até onde ela pode ir. Mas enquanto não temos essa questão respondida, Clara entra de supetão e arrebata o povo brasileiro. Virou mania nacional? Talvez não. Mas tem tudo para virar nas próximas semanas.

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