Profissão Repórter mostra o contraste entre os presídios brasileiros e a penitenciária mais humanizada do mundo

Publicado em 07/06/2017

Condições sanitárias precárias, superlotação, doenças graves, rivalidade entre facções e rebeliões. Esses são apenas alguns dos problemas enfrentados por presidiários e profissionais, como agentes carcerários, que passam seus dias em diferentes presídios ao redor do Brasil. Mas, se por aqui encontramos cenários caóticos, na Noruega, país que abriga o presídio mais humanizado do mundo, a realidade é bem diferente. Esse contraste que impacta não somente o dia a dia de quem está do lado de dentro dos muros, mas também de toda sociedade, é o destaque do ‘Profissão Repórter’ desta quarta, dia 7.

No Brasil, a repórter Mayara Teixeira visita o presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, palco da rebelião motivada pela disputa entre facções criminosas rivais que matou 26 presos em janeiro deste ano. A jornalista acompanha o trabalho de profissionais como Antônio Filho, agente penitenciário há 15 anos, que relembra o dia em que foi feito refém em uma rebelião: “Me colocaram no telhado e eu só vi a morte, todo dia, até me liberarem. Foi o trauma que ficou pra mim”, revelou. E a violência não chama atenção apenas dentro do presídio. Nos últimos dez anos, a taxa de homicídios subiu de 13,5 para 48,6 por 100 mil habitantes no Rio Grande do Norte. Como resultado, o Instituto Médico Legal (IML) de Natal já não comporta mais tantos mortos e Mayara registra a imagem de vários deles deixados no pátio do IML, sob o sol e um calor de mais de 30º C.

Mas não é somente a violência que mata nos presídios brasileiros. Metade das mortes que ocorrem dentro do sistema penitenciário é causada por doenças como HIV, sífilis e tuberculose. E parte da responsabilidade pela propagação de enfermidades graves está nas condições sanitárias precárias das instalações, como as visitadas pelo repórter Estevan Muniz no Piauí e na Bahia. Baratas na caixa d’água, esgoto dentro das celas e dezenas de ratos nos corredores são cenários comuns nesses locais e têm como consequência, por exemplo, um surto de sarna que atingiu cerca de 150 detentos – e até o diretor da penitenciária de Esperantina, no Piauí.

Já na Noruega, a repórter Nathalia Tavolieri conheceu uma realidade bem diferente na penitenciária de segurança máxima considerada a mais humanizada do mundo. Localizada em Halden, uma pequena cidade do sul do país, a diferença começa já no fato de que o número de funcionários é maior do que o número de detentos. Abrigando condenados por tráfico de drogas, homicídio, estupro e roubo, as celas da penitenciária são individuais e só são trancadas à noite. “A prisão de segurança máxima de Halden é uma penitenciária modelo. Eu fui sozinha, em janeiro deste ano, apenas com a minha câmera e um celular. Nunca havia entrado em nenhuma prisão e estava um pouco tensa antes da reportagem, mas foi uma matéria relativamente fácil de fazer. Até porque a direção do presídio não queria esconder nada do que acontecia por ali. Pelo contrário”, revela Nathalia sobre a produção da matéria. “O que eu vi em Halden não chegava nem perto do que eu imaginava que encontraria em uma prisão. O lugar lembra uma escola muito bem equipada, mas o que mais me chamou a atenção não foram as instalações, e sim a forma com que os presos são tratados pelos agentes penitenciários, com muito respeito e cordialidade. Sem violência. Lá, a única punição pelos crimes é a restrição da liberdade. Apenas isso. Eles têm acesso à alimentação de qualidade, tratamentos médicos, estudos, terapias, cursos profissionalizantes e atividades de lazer todos os dias. Halden deixa claro que o objetivo fundamental da prisão é fazer com que os presos saiam de lá melhores, que não voltem a cometer crimes”, finaliza a repórter. Em Halden, cada preso custa o equivalente a R$ 280 mil por ano para o governo norueguês. Segundo o diretor do presídio, o investimento tem o apoio da população. “Que tipo de pessoa você quer ter como vizinho? Quando eu solto um preso, ele pode ser seu vizinho, e que tipo de vizinho você quer? Você quer um raivoso, perigoso ou você quer um vizinho reabilitado?”, questiona o diretor.