Os 35 anos de uma novela de grande sucesso da qual o próprio autor não gosta

Publicado há 3 anos
Por Fábio Costa
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Em 11 de abril de 1983, a Rede Globo levou ao ar o primeiro capítulo de Louco Amor, novela de Gilberto Braga que estreava reavivando a faixa das 20h, combalida em fevereiro pela morte do ator Jardel Filho, protagonista de Sol de Verão (1982/83), que motivou a abreviação da história. Para tapar o buraco provocado pelo incidente, a emissora exibiu durante cinco semanas um compacto de O Casarão (1976), de Lauro César Muniz, enquanto os primeiros capítulos da história de Gilberto eram preparados.

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Louco Amor partia da história do romance de Luís Carlos (Fábio Jr.) e Patrícia (Bruna Lombardi); ele, filho da empregada Isolda (Nicette Bruno), ela, filha do embaixador André Dumont (Mauro Mendonça), irmão do dono da mansão, o viúvo Edgar (José Lewgoy), já meio esclerosado. A diferença de classe social é o maior empecilho para o romance, e a madrasta de Patrícia, Renata (Tereza Rachel), separa o casal enviando a jovem para a Europa, onde ela passa seis anos. Nesse período, Luís Carlos deixa a mansão e se forma em Comunicação Social, mas sem colocação no mercado arruma um emprego numa sapataria. Patrícia volta ao Brasil com um filho pequeno, João (Eduardo de Micheli), cuja idade corresponde quase ao tempo que ela passara fora. O casal se reaproxima, mas a reticência de Patrícia em finalmente viver ao lado de Luís Carlos o romance com todas as dificuldades e privações possíveis, mais a verdade que ela sonega a respeito da paternidade do menino – que é filho do namorado de adolescência – acaba por afastar os dois de vez.

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Luís Carlos encontra o verdadeiro amor nos braços de Cláudia (Glória Pires), uma colega dos tempos de faculdade, filha de Alfredo (Fernando Torres), um fotógrafo cujo desacerto na vida prejudica sua relação com a família – além de Cláudia, a esposa Isadora (Arlete Salles) e a filha mais nova, Carlinha (Beth Goulart). Enquanto isso, Renata segue no desejo de afastar de si os pobres e desfavorecidos, atrapalhando o romance do cunhado Edgar com a manicure Gisela (Lady Francisco), já que deseja se apossar da herança, e o de seu filho, Lipe (Lauro Corona), com Carlinha. No começo da história Lipe namorava Cláudia, que não gostava dele e iniciara o relacionamento apenas por interesse, por ele poder proporcionar a ela a ascensão social que desejava. Mas a honestidade de seus sentimentos acabou falando mais alto e ela rompeu o romance, deixando o caminho livre para Carlinha e para Luciana (Bia Seidl), a aprendiz de carreirista, que mais parecia filha de Renata do que da batalhadora Gisela.

Há um grande segredo no passado da embaixatriz Renata Dumont. Na verdade, seu nome é Agetilde Rocha. Filha de Agenor (Mário Lago), ela trocou de nome após ter se envolvido com outro Dumont, irmão de Edgar e André, que se matara na prisão, onde fora parar após envolver-se num escândalo por causa dela. Para não ser descoberta e poder se aproximar sem maiores problemas de André, presa fácil, ela trocou o nome para Renata e conseguiu seu intento: casar-se com um homem muito rico e respeitado e entrar para as altas rodas. Suas origens e seu grande segredo não são novidade para Isolda, que já morara com ela e aceitara criar um filho de Renata com outro amante, Sérgio (Milton Moraes), junto do seu próprio. Após ser desmascarada diante de todos os convidados de uma festa, Renata sofre um duro golpe: ao contrário do que acreditara ao longo de anos, seu filho era Luís Carlos, registrado por Isolda, e não Márcio (Carlos Alberto Riccelli), criado pelo suposto avô Agenor. Márcio, sim, era filho da empregada, que ao chamado de Renata entregara o próprio filho para que ela proporcionasse a ele uma vida com maiores perspectivas, e manteve consigo o verdadeiro herdeiro da hoje embaixatriz.

Louco Amor (Divulgação)

Outra personagem de grande destaque na história é Muriel (Tônia Carrero). Casada com um homem bem mais jovem, Guilherme (Reginaldo Faria), diretor da revista Stampa, onde Luís Carlos vai trabalhar, Muriel é mãe de Jorge Augusto (Antonio Fagundes), um renomado jornalista, e fora apaixonada por André; por isso, nunca perdoou Renata por ter caído do céu e roubado dela o hoje embaixador. Ela é a única pessoa que enfrenta a embaixatriz diante de suas atitudes torpes e reprováveis. O casamento de Muriel e Guilherme não é do agrado de Nanda (Rosita Thomaz Lopes), mãe dele e de Lúcia (Christiane Torloni), que vive uma união infeliz com Fernando (Carlos Eduardo Dolabella), executivo das empresas de Edgar.

Louco Amor foi um grande sucesso, próximo dos 60% de audiência num momento de concorrência acirrada na TV brasileira – a Bandeirantes investia, o SBT estava no ar havia menos de dois anos e a Manchete, de Adolpho Bloch, seria inaugurada com a novela em curso –, mas o carinho do público pela novela ia na contramão do desagrado do próprio autor, Gilberto Braga, com o trabalho. Ele declarou ao Projeto Memória das Organizações Globo, numa entrevista publicada em “Autores – Histórias da Telenovela” (Globo, 2009): “Louco Amor era uma bobagem de novela. O único personagem que prestava era o do José Lewgoy, o Edgar Dumont, que era muito divertido. (…) Houve erros graves de escalação. O escritor depende muito do elenco. Não gostei de trabalhar com a Bruna Lombardi. Ela não deu certo comigo. Não que seja má atriz, só não é da minha praia. Escrevi por honra da firma. Louco Amor é a pior novela que fiz, de longe.” Publicado na mesma época, “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, de André Bernardo e Cíntia Lopes (Panda Books, 2009) traz uma entrevista na qual Gilberto não entra em maiores detalhes, mas se refere a este trabalho ao falar de momentos problemáticos: “Mas a minha pior novela foi mesmo Louco Amor.”

A exemplo do ocorrido em Água Viva (1980), também de Gilberto Braga, aqui mais uma vez Tônia Carrero perdeu o papel da grande vilã (Renata) para o qual estava escalada, para interpretar a boa-praça (Muriel). Na novela de três anos antes, Tônia e Beatriz Segall trocaram de personagens após Boni, “chefão” da emissora, assistir aos primeiros capítulos e não gostar do resultado. Com isso, Tônia deixou o papel da malvada Lourdes Mesquita e passou a ser a excêntrica Stella Fraga Simpson, enquanto Beatriz fizera o caminho inverso. Inclusive, a futura Odete Roitman de Vale Tudo (1988) apareceu no capítulo final de Louco Amor revivendo sua Lourdes, uma das convidadas para o vernissage de Alfredo, que se encontra como pintor.

No elenco ainda, as presenças de Yolanda Cardoso, Lourdes Mayer, Chica Xavier, Clementino Kelé, Rosane Gofman, Gilberto Martinho, Ilka Soares, Cláudia Costa, Otávio Augusto, Armando Bogus, Ivan Cândido, Carlos Gregório, Edson Celulari e Joana Fomm, entre outros.

A abertura da novela era embalada por uma música icônica da época, “Nosso Louco Amor”, em interpretação da Gang 90 & As Absurdettes. Na trilha destacam-se ainda “Dom de Iludir”, com Gal Costa; “Eu Te Amo”, com Chico Buarque; “Só de Você”, com Rita Lee; “Folhas Secas”, com Elis Regina; “Tem que Provar”, com Lauro Corona, que embalava as cenas do próprio; “We’ve Got Tonight”, com Kenny Rogers e Sheena Easton; “Just Can’t Get Enough”, com Depeche Mode; e “Ich Schau Dich Na (Peep Peep)”, com Spider Murphy Gang.

Dirigida por José Wilker, Fred Confalonieri, Wolf Maya e Ary Coslov, com supervisão de Paulo Ubiratan, Louco Amor foi o cartaz do horário das 20h da Rede Globo até 22 de outubro de 1983 e, apesar de seu sucesso e de ter sido exportada para cerca de 20 países, até hoje nunca foi reprisada pela emissora, nem esteve na grade do Canal Viva. Seria uma boa pedida, especialmente pelo trabalho de criação de Renata Dumont por Tereza Rachel e pela química de José Lewgoy e Lady Francisco, que realmente alcançaram grande destaque – tanto que foi com eles e o histórico bordão de Edgar, “E… eu não sei?”, a cena final da novela, e não com a embaixatriz ou o casal Luiz Carlos e Cláudia.

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