O que podemos esperar de Órfãos da Terra, nova novela das 18h?

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
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Nesta terça-feira, dia 2 de abril, as emoções de Espelho da Vida cedem a vaga às 18h na Rede Globo para Órfãos da Terra. Trata-se da nova história a ser contada por Duca Rachid e Thelma Guedes. As autoras estão no ar com a reprise de Cordel Encantado no Vale a Pena Ver de Novo. Sua última novela inédita havia sido Joia Rara (2013/14), também às 18h. A saber, com ela Duca e Thelma ganharam “apenas” o Emmy. Se prêmio não garante qualidade, a falta de qualidade não garante nada também.

A proposta das autoras é aliar a história de um grande amor, abalado por muitos contratempos e intrigas, à difícil readequação de pessoas obrigadas a deixar seus países de origem e recomeçar do zero em locais onde não têm nada nem ninguém para ajudá-las, na maioria das vezes. No passado muitos imigravam em virtude de desejarem crescer na vida, para além das perspectivas de sua terra. Hoje há milhões de cidadãos expulsos de seus empregos e casas pelas circunstâncias políticas ou de guerra. São os refugiados, que vivenciam essa imigração sofrida e forçada em pleno século 21, os grandes personagens da novela.

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O casal central de Órfãos da Terra

Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Goes) em Órfãos da Terra (Divulgação/ TV Globo)

Laila (Júlia Dalavia) tem 18 anos. A bela jovem síria desperta de imediato o coração de Jamil (Renato Góes) quando eles se conhecem num campo de refugiados no Líbano. Laila e sua família, os Faiek, vão parar lá após sua casa ser bombardeada. Só que o sheik Aziz Abdallah (Herson Capri), padrinho e patrão de Jamil, também se encanta pela jovem. E deseja a todo custo tê-la como sua nova esposa. Mesmo que para isso precise deixar a família dela na miséria, a fim de que a vulnerabilidade financeira de Elias (Marco Ricca) e Missade (Ana Cecília Costa), pais de Laila, colabore para o sucesso de seus planos.

Em nome da saúde do irmão pequeno, Kháled (Rodrigo Vidal), e reconhecendo a triste situação em que todos se encontram, Laila decide aceitar o pedido de casamento de Aziz. E a ajuda que ele oferece, apesar dos protestos de seus pais. Só que ela acaba sendo ajudada por Soraia (Letícia Sabatella), outra esposa de Aziz, a fugir do jugo do sheik, uma vez que o que a prende ao compromisso, a saúde do irmão, se perde com a morte do menino após não resistir ao estado em que ficou após o bombardeio da casa da família, na Síria.

Após chegarem ao Brasil, os Faiek veem que as mudanças só estão começando

Laila reencontra a família e eles conseguem chegar ao Brasil, onde mora Rania (Eliane Giardini), prima de Missade. O sheik manda Jamil, seu homem de confiança, atrás de Laila para trazê-la de volta de qualquer maneira. É aí que o rapaz descobre que sua amada é a noiva daquele que o ajudou tirando a ele e ao primo Houssein (Bruno Cabrerizo) de um orfanato. Inclusive, em seu desejo de manter segredo quanto à ligação que tem com Aziz, para não despertar a desconfiança da amada, é que Jamil mais faz por onde perdê-la, como se verá. Aliás, Houssein é o grande amor da vida de Soraia. No passado, a saber, ela fora levada a se casar com Aziz pelas circunstâncias, tal qual Laila.

Em São Paulo, a família de Rania e seu marido Miguel (Paulo Betti) acolhe Laila e os seus. Mas isso não inaugura imediatamente bons tempos, já que a prima Camila (Anaju Dorigon) enxerga em Laila uma rival, uma oponente. Afinal, ela deixa de ser o centro das atenções de todos com a presença da síria, igualmente jovem e bonita. Além disso, Miguel tem um fraco pelo jogo que exige constante vigilância de Rania. E que será usado pelos inimigos para prejudicá-los. Há também a presença do fotógrafo Bruno (Rodrigo Simas), que se interessa por Laila à primeira vista. E isso a despeito de seu relacionamento com Valéria (Bia Arantes).

Dalila, uma pedra no sapato de Jamil e Laila

Alice Wegmann será Dalila em Órfãos da Terra (Reprodução).

Dalila (Alice Wegmann) é a filha mais velha do sheik Aziz e de Soraia. Talvez ela seja a única pessoa pela qual o temido e poderoso homem sinta algo de bom no mundo. Por isso mesmo, embora seja mulher, ela é escolhida pelo pai para comandar seus negócios quando ele vier a faltar. E estudou nos melhores colégios de Londres, para se preparar. Ela é apaixonada por Jamil há muito tempo e fez com que o pai lhe “desse” o rapaz, fazendo dele seu prometido. Por isso, Dalila se volta contra Jamil e Laila quando eles se aliam para fugir de Aziz e viver o amor que surge. A felicidade do casal é a infelicidade de Dalila. E ela não medirá esforços para ter o que deseja. Ainda que para isso precise prejudicar quem quer que seja. Com efeito, Dalila é uma personagem que promete e pode render bastante.

Aziz Abdallah: poderoso, temível e capaz de tudo

Aziz (Herson Capri) em Órfãos da Terra (Divulgação/ TV Globo)

Um hábil manipulador de todos em nome daquilo que deseja, e capaz de tudo contra quem tentar impedi-lo. Podemos definir assim o sheik Aziz Abdallah, um dos vilões de Órfãos da Terra. Ele organiza uma verdadeira cruzada mundo afora a fim de resgatar a noiva Laila. A paixão que surge entre a moça e Jamil, homem de confiança do sheik e supostamente seu futuro genro, prometido a Dalila, configura uma traição dupla. Traição da qual Aziz não demora a desconfiar e comprovar. No entanto, ao partir para o Brasil ele encontra algo inesperado em sua trajetória.

No contraponto étnico-religioso, um entrecho de humor

Sara (Verônica Debom) e Eva (Betty Gofman) e Bóris (Osmar Prado) em Órfãos da Terra (Divulgação/ TV Globo)

Órfãos da Terra também tratará de outros ramos de imigrantes, como judeus, palestinos, congoleses e haitianos. Em alguns núcleos, as diferenças culturais darão origem a entrechos de humor. É o caso, por exemplo, da rixa entre o judeu Bóris (Osmar Prado) e o palestino Mamede (Flávio Migliaccio). Este é avô de Ali (Mouhamed Harfouch), grande amigo de Jamil e que o ajudará muito quando ele vier para São Paulo atrás de Laila.

Ali desperta grande interesse na jovem Sarah (Verônica Debom), neta de Bóris, filha de Eva (Betty Gofman). Devido à mágoa que Mamede sente por judeus, ela se vê obrigada a esconder sua origem para poder namorar Ali. Passa-se por Maria e até aulas de dança do ventre faz. Mas é claro que essa vida dupla não se sustenta por muito tempo. Existe também a figura de Abner (Marcelo Médici), cuja mãe Esther (Nicette Bruno) deseja ver casado. As famílias querem unir Sarah e Abner. Ao passo que Ali conhece outra moça, trazida do Líbano para casar-se com ele: Latiffa (Luana Martau). Surgirão daí cenas de humor que darão tom mais leve à proposta de reflexão acerca da igualdade de todos, independente de diferenças culturais, étnicas etc.

Órfãos da Terra talvez esteja no horário errado

Anteriormente, após ser cancelada a estreia das autoras Duca Rachid e Thelma Guedes no horário das 21h com O Homem Errado, o que ocorreria em 2017, falou-se numa nova história, intitulada nos primeiros tempos Travessia, para ocupar a faixa das 23h. Planos mudados, Travessia virou Filhos da Terra e passou para as 18h. Sal da Terra foi outro nome considerado, a saber. Rebatizada uma vez mais como Órfãos da Terra, manteve o horário. No entanto, se por um lado é bom sair da fórmula de leveza água-com-açúcar das histórias desse horário, por outro, vários aspectos de Órfãos da Terra a qualificariam sem maiores problemas para faixas mais nobres. Não desmerecendo as novelas das 18h, que nos últimos anos têm chamado até mais atenção do que as das 21h.

A temática da imigração e dos refugiados, a abordagem de sua difícil recolocação no mercado de trabalho, da separação doída de famílias inteiras e o elevado nível de produção que o material de divulgação demonstra atestam sem favor algum que Órfãos da Terra poderia (e mereceria) ocupar um horário mais tardio. Isso inclusive a preveniria em boa medida de eventuais ingerências comerciais da faixa das 18h, ou da rejeição de parte do público a uma história “pesada”, com toda a certeza.

A grande mensagem das autoras de Órfãos da Terra

Podemos esperar uma novela bastante emocionante, mas não chorosa. Os personagens são bem delineados pelas autoras, que foram felizes em tratar numa novela de um tema tão importante e polêmico como é a questão dos refugiados, no mundo todo. Também haverá humor, várias famílias com seus problemas que independem de origem e fé e os ingredientes que compõem uma novela das boas. Espero (e acredito) de minha parte que Órfãos da Terra faça sucesso, até para dar ainda mais visibilidade a seu tema central e à ideia das autoras: somos todos filhos da mesma terra, irmãos num mundo que nos separa por motivos não raro alheios à nossa vontade, rivais em guerras vãs sem saber por que lutamos.

*As informações e opiniões
expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou
não refletir a opinião deste veículo.

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