Kiko Mascarenhas, de Éramos Seis, defende os artistas do Brasil “O teatro não pode morrer por falta de uma política cultural”

Publicado há um ano
Por Muka Oliveira
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Aos 55 anos de idade, e colecionando personagens há 25 anos na televisão, o ator Kiko Mascarenhas se prepara para mais um desafio na dramaturgia: interpretar Virgulino, o marido da fofoqueira Genu, no remake de Éramos Seis, da TV Globo.

Em conversa exclusiva com o Observatório da Televisão, o ator revelou detalhes do novo personagem da história – que não existe na versão do livro, falou sobre a dificuldade dos artistas na atual fase da política brasileira, comentou sobre sua parceria com Maria Eduarda de Carvalho no teatro e o que podemos esperar da emocionante história de vida de Lola na nova versão de Éramos Seis.

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Você leu o livro Éramos Seis quando criança. Como foi essa experiência?

Eu fiquei muito arrasado, foi muito devastador! Uma coisa é você ler quando é garoto, outra coisa é você ter vivido a vida inteira, e perceber que aquela história tem uma dimensão e profundidade muito maiores. É muito triste! Mas ao mesmo tempo eu tenho certeza que essa novela vai agradar, porque ela tem esse poder da catarse. Tem muita gente com esse choro guardado e eu acho que essa novela vai ajudar as pessoas darem essa ‘extrapoladinha’.

Qual o balanço que você teve com as duas peças de teatro, a sua e a da Maria Eduarda?

Foi super positivo. As duas peças foram indicadas para os melhores prêmios, fui indicado como melhor ator, a Maria Eduarda como melhor atriz, as peças como melhores espetáculos, os diretores para melhor direção. A gente termina com uma análise técnica incrível, mas continuamos com as mesmas dificuldades. Ainda não conseguimos patrocínio. Agora fazendo novela, tivemos que parar por duas temporadas, mas a intenção é fazer duas temporadas em São Paulo quando a novela acabar. Precisamos de patrocínio e se não tivermos continuaremos usando recursos próprios, porque o teatro não pode parar e ficar a mercê de um governo que diz o que pode e o que não pode ser ensinado, que dita quem merece e quem não merece ganhar dinheiro, então essa é a grande luta do artista no momento. Se manter dentro do palco, dentro do seu exercício, e mantendo o teatro vivo. O teatro não pode morrer por falta de uma política cultural. Simples assim.

O governo está jogando muito contra os artistas, não é?

Sim, nós viramos os vilões. De repente eles inventaram que nós somos os vilões da nação, e viramos mamadores das tetas do governo. E não é verdade. Acabou de sair uma nota hoje que os recursos da saúde e da cultura estão sendo destinados para a campanha eleitoral do ano que vem. Então, quem é mamador do dinheiro público? A cultura faz parte de um pacote de benefícios que a população merece. Saúde, educação, segurança e cultura! Eles investem 3% do PIB e a gente devolve 8% em serviços e impostos. Então é um lucro investir na cultura. Mas como plano de governo não é interessante você investir em cultura, porque a cultura estimula o pensamento, inclusive o pensamento crítico, então obviamente o governo não quer mexer nisso.

Você acha que o governo está se vingando dos artistas por causa da falta de apoio nas eleições?

Total! Óbvio! Ele (Bolsonaro) inclusive tentou buscar o apoio de artistas de direita, e montou um grupo de meia dúzia que não faz nada, que não propõe nada. E quem é artista mesmo, continua botando a mão no seu bolso, abrindo vaquinha, e as pessoas colaboram. O teatro não para, o artista não para, e esse país não para! Mesmo que eles queiram.

E como será o seu personagem em Éramos Seis?

Meu personagem é o Virgulino. Ele é um personagem que não se revela no início. A primeira impressão que você tem é que ele é um pai, um banana Ele é um pai que cuida daquela família, e que sua mulher é um pouco autoritária e o que prevalece é a vontade dela sempre, afinal eles não discutem. Eles têm uma convivência de casal harmônica, e ele é um pai muito dedicado e amoroso.

São quantos os seus filhos na novela?

São dois filhos. Um casal. Eles começam crianças e em breve estaremos com eles jovens. O que vai ser incrível, porque estamos completamente apegados às crianças, e vai ter um pulo de dez anos e não estamos preparados para acompanhar esse salto. Mas sobre o personagem, descobre-se lá pelas tantas, que o Virgulino, que trabalha na Telefônica, e é envolvido com política. Ele está envolvido nos planos das primeiras leis trabalhistas, é um cara que defende férias, décimo terceiro, fundo de garantia, jornada de trabalho, isso não existia ainda nessa época, e ele é um dos defensores. É uma pessoa muito carinhosa, muito amorosa, um banana por fora, mas é um grande militante que está mudando o país, olha que personagem bacana!

Você como militante então deve se identificar com o seu personagem, não?

Eu me identifico totalmente. E quanto ao fato de ser carinhoso também, porque eu sou muito carinhoso com a minha família. E banana também (risos)… Split! (risos).

Você disse que é uma história triste, principalmente naquele núcleo da Dona Lola e tudo mais. Qual a parte que você acha mais sofrida de Éramos Seis?

A história da saga dessa família me toca. Eu tenho muita pena da Lola, porque a Lola é uma personagem que passa por muitos sacrifícios, muitas agruras, e não tem recompensas. Ela não é recompensada em momento algum, e mesmo assim ela não desiste. E isso é muito lindo de se pensar. Com tudo de errado que pode dar, ela tem tanto amor por essa família, pelas pessoas que a cercam… E a história é dela. O livro começa com ela visitando a casa onde eles moraram, ela já velhinha, e logo vem aquele flashback. É Devastador!

Isso me faz lembrar a história de
Meninas e Meninos de Maria Eduarda…

Sim, e o final é trágico! Mas a vida tem tragédias, e nesse sentido a novela é um espelho do que pode acontecer. Você tem uma vida tão harmônica, com uma família toda estruturada, e de repente, tudo começa a dar errado, e foge do seu controle. Porque aí entram as discussões que a gente tava falando, a política começa a interferir na sua família e na sua qualidade de vida. O país vai entrando em crise, tipo em 1930 e 1932, a revolução, e isso afeta totalmente todos eles. É muito interessante esse viés da família brasileira e da história do Brasil se costurando ali.

É muito interessante esse momento voltar justamente nessa fase que o Brasil atravessa, não é

Sim, isso é muito atual! Os discursos que estão escritos ali me surpreendem. Tem várias discussões ali sendo tratadas agora, e estamos falando de 1920, então a história está se repetindo.

Tem alguma diferença do livro para o seu personagem na novela?

Meu personagem, por exemplo, não existe no livro. No livro, a Genu, que é a minha esposa interpretada pela Kelzy Ecard, é viúva. Ela só é a fofoqueira da rua. Na novela ela não ganha só esse cunho de fofoqueira, ela tem outras funções. Ela ganha um marido. Esse marido entra justamente para criar um viés com política. Porque os filhos de Genu e de Lola vão se envolver com política quando jovens, e daí já temos uma tragédia. Mas não posso ficar dando spoiler aqui.

E você é muito ligado à sua família. Na novela eram seis, e na sua família na vida real são quantos?

Na minha família Éramos Três. Eu, minha mãe e meu irmão. E a relação continua forte. Meu irmão tá morando em Portugal, minha mãe continua aqui, e no início do ano eu dei de presente pro meu irmão e pra minha mãe, uma viagem pra ela conhecer Portugal porque ela nunca tinha viajado para fora do país, e ela não via o filho há dois anos e tava morrendo de saudade… Então eu juntei a família inteira, levei um dos sobrinhos que tá morando aqui comigo, levei a minha tia, a minha mãe, encontrei o meu irmão e mais meus três outros sobrinhos que tão lá morando, então minha família tá aumentando por lá. Esses dias nasceu meu sobrinho-neto, e eu fiquei numa alegria, só chorava… Não conseguia falar nada do telefone por causa da alegria, em pensar que minha sobrinha, meu amor, já é mãe… E o outro irmão dela, também já me deu um sobrinho-neto… Éramos Três e agora somos muitos (risos).

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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