Coprodução da Globo com emissoras europeias, Lua Cheia de Amor completa 30 anos

Emissora dos Marinho teve parceiras da Espanha e da Suíça no projeto, gestado por três anos

Publicado há um mês
Por Fábio Costa
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Situação atípica, em pleno dezembro de 1990 a TV Globo estreou uma nova novela – a do horário das 19h. Após algumas indefinições que quase a fizeram ser atração da faixa das 18h, Lua Cheia de Amor substituiu Mico Preto no segundo horário de folhetins inéditos da casa – à época, iniciado por volta das 18h50.

Em 1977, a emissora havia exibido às 18h com bastante sucesso a novela Dona Xepa, escrita por Gilberto Braga a partir do texto teatral homônimo de Pedro Bloch, àquela altura também já transposto para o cinema com Alda Garrido no papel-título. A Xepa da TV foi Yara Cortes.

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Em 1990, Dona Xepa foi reaproveitada numa nova história, que contou com outros personagens e entrechos, desenvolvida pelo trio Ana Maria Moretzsohn, Ricardo Linhares e Maria Carmem Barbosa. Gilberto Braga figurou como supervisor de texto, devido à sua experiência anterior com a história que servia de ponto de partida.

De feirante a camelô

A antiga Dona Carlota, ou Xepa, feirante que batalhou duro para criar os dois filhos depois de ser abandonada pelo marido, reapareceu como Genuína, ou Genu (Marília Pêra), e de legumes na feira passou a vender panelas e utensílios como camelô, depois que o esposo irresponsável perdeu no jogo a loja de artigos de louça da família.

Seus filhos eram Rodrigo (Roberto Bataglin) e Mercedes (Isabela Garcia). Os dois tinham vergonha da pobreza e da mãe, a despeito de todos os sacrifícios feitos por Genu desde sempre, e queriam ascender socialmente.

Em seguida a seu sucesso como a malvada Perpétua de Tieta (1989/90), escrita também por Ana Maria e Ricardo, com Aguinaldo Silva, Joana Fomm foi a escolha inicial para o papel de Genuína. Mas atriz acabou sendo substituída por Marília Pêra no posto.

Como resultado de um planejamento que vinha desde 1987, a TV Globo fez Lua Cheia de Amor em regime de coprodução com as emissoras europeias Televisión Española (RTVE) e Televisão Suíça de Lugano (RTSI). De maneira que a fama internacional de Marília, devido a trabalhos como o premiado filme Pixote – A Lei do Mais Fraco (1980), de Hector Babenco, pesou a seu favor.

No livro Vissi D’Arte (Escrituras, 1999), escrito por Flávio de Souza a partir de depoimentos de Marília, a atriz declara que não quis ficar feia em cena ao interpretar Genu, e que também vivia um mau momento quando interpretou-a.

A saber, Marília foi alvo de muitas críticas por seu apoio à candidatura de Fernando Collor de Mello à presidência da República em 1989. Eleito, em 1990 Collor assumiu o posto e de cara bloqueou o dinheiro da poupança dos brasileiros, como quem viveu não consegue esquecer. Essas críticas chatearam a atriz, e impactaram em seu desempenho no trabalho.

Anteriormente, Marília também fez por onde não aparecer tão feia em cena quanto pedia a descrição da personagem Juliana de O Primo Basílio, na minissérie adaptada por Gilberto Braga e Leonor Bassères do romance de Eça de Queiroz, exibida em 1988.

Lua Cheia de Amor teve índices de audiência um pouco abaixo da expectativa para o horário nas primeiras semanas. Sua antecessora Mico Preto (1990), de Marcílio Moraes, Leonor Bassères e Euclydes Marinho, não é lembrada como um sucesso popular e foi criticada, mas registrou boa audiência na época.

O marido fujão ressurge depois de mais ou menos dois meses de novela: Diego Miranda (Francisco Cuoco), que usa agora a identidade de Esteban García. A verdade sobre ele por algum tempo foi conhecida pelo astrólogo Túlio (Geraldo Del Rey), apaixonado por Genu, e que por isso esconde a verdade dela para protegê-la.

A partir da volta de Diego, com a consequente aceleração dos conflitos, e algumas mudanças feitas pelos autores para concentrar mais o enredo e definir melhor as funções dos personagens, Lua Cheia de Amor reagiu nos números. Mas Marília, embora não comprometesse o resultado, grande atriz que era, acabou suplantada na preferência popular por Arlete Salles.

Ela vivia a engraçada Quitéria Jordão, ou Kika, como preferia ser chamada. Deslumbrada e sonhadora, Kika era obcecada pelos personagens das colunas sociais, em especial a socialite Laís Souto Maia (Susana Vieira), de quem deseja se aproximar. Expressões como “Fofa” e “Translumbrante” caíram na boca do povo, graças ao sucesso da personagem.

Laís e Conrado (Cláudio Cavalcanti) eram o casal milionário da história, pais de Augusto (Maurício Mattar), Isabela (Drica Moraes) e Patrícia (Maria Mariana). O rapaz trabalhava numa agência de publicidade e escondia sua condição de rico para que as moças gostassem dele pelo que era e não pelo que tinha. Mercedes e ele se envolvem e se casam, mas são infelizes.

Isabela é uma jovem vulnerável, sem muita atenção dos pais, que encontra na cleptomania o alívio para seus problemas. A presa perfeita para o ambicioso Wagner (Mário Gomes), diretor da agência de publicidade que detesta Augusto. Já a caçula Patrícia, menina dos olhos de Conrado, se envolve com Hugo (Marcelo Faria), funcionário de Kika.

Enquanto Mico Preto andava em torno dos 50 pontos de audiência – o que desqualifica a tese de que tenha sido um ‘flop’, como se costuma chamar hoje em dia os fracassos –, Lua Cheia de Amor foi ao ar por 32 semanas com índices bons, mas abaixo da antecessora de modo geral.

Em suas semanas finais, chegou a ser mais vista do que O Dono do Mundo (1991), de Gilberto Braga. Mas a comparação é injusta, porque a atração da faixa nobre começou com dificuldades de natureza diversa e sofreu rejeição de uma parcela do público. Mesmo mais sintonizada do que a trama das 20h, Lua Cheia de Amor estava mais perto dos 40 pontos do que dos 50.

Em 2014, o Canal Viva promoveu uma enquete para definir a novela que exibiria às 15h30 quando terminasse História de Amor (1995/96), de Manoel Carlos, após rejeição de parte do público à divulgação de que o cartaz seria a segunda versão de Pecado Capital (1998/99), escrita por Glória Perez a partir de original de Janete Clair.

Lua Cheia de Amor concorreu com duas novelas de Walther Negrão: Despedida de Solteiro (1992/93) e Tropicaliente (1994). As três tiveram votação próxima, entre 30% e 40% dos eleitores, mas Tropicaliente venceu a enquete e Despedida de Solteiro ficou em segundo lugar. As duas foram reprisadas na sequência. Lua Cheia de Amor até hoje não foi.

Nos anos 2010, a Rede Record adquiriu os direitos sobre o texto teatral Dona Xepa, de Pedro Bloch, e produziu a sua versão da história em novela em 2013, escrita por Gustavo Reiz e com Ângela Leal protagonizando.

Isso dificulta reprises tanto de Dona Xepa, a novela de 1977, quanto de Lua Cheia de Amor, por partirem ambas desse mesmo original cujos direitos são hoje pertencentes à Record.

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