5 novelas mexicanas que romantizam relacionamentos abusivos

Publicado há 7 meses
Por Felipe Brandão
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No Brasil, fala-se muito na responsabilidade social das novelas. Especialmente no horário nobre da Globo, há – ou pelo menos até pouco tempo havia – uma preocupação em retratar questões de interesse social, como forma de conscientizar a população a respeito de mazelas como as drogas, a violência doméstica e a rejeição às minorias. Manoel Carlos, por exemplo, fez isso com maestria em novelas como Mulheres Apaixonadas (2003).

Por outro lado, há atrações que vão pelo caminho contrário na telinha, prestando um verdadeiro desserviço nesse sentido. É o caso de algumas novelas mexicanas exibidas pelo SBT e outros canais. Permeadas muitas vezes por uma mentalidade antiquada e machista – para não dizer misógina -, certas produções da Televisa chegam ao cúmulo de romantizar em seus enredos relacionamentos que, transpostos para o contexto da realidade, seriam apenas abusivos.

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Vejamos alguns casos.

Galã de O Que A Vida Me Roubou, Alessandro (Sebastián Rulli) chegou a estuprar a mocinha, Monserrat (Angelique Boyer)

O Que a Vida Me Roubou

Esta trama exibida em 2017 pelo SBT centrava-se na história de Monserrat Mendonça (Angelique Boyer), uma jovem de família rica que, para salvar a família da ruína, é obrigada a trocar o amor sincero que sente por José Luiz (Luis Roberto Guzmán) por um casamento por interesse com o rico Alessandro Almonte (Sebastián Rulli).

Ao descobrir que foi vítima de um golpe, Alessandro se volta contra a esposa e submete-a às mais variadas atrocidades. Torna-a uma espécie de prisioneira, impedindo-a de deixar sua casa mesmo para ver a família, e em dado momento chega a obrigá-la a cumprir ‘seus deveres de esposa’ – sim, ele a estupra.

Mesmo assim, pouco a pouco os dois pombinhos se apaixonam e Monserrat decide que é seu próprio violador, e não José Luiz, seu ‘verdadeiro amor’. Pode uma coisa dessas?

João Miguel (William Levy) ‘só’ abusou de Malu (Maite Perroni) em Cuidado com o Anjo (Divulgação / SBT)

Cuidado com o Anjo

Uma dinâmica similar acontece entre os mocinhos dessa outra produção da Televisa, datada de 2007. A humilde e ignorante Malu (Maite Perroni) lida com o trauma de ter sofrido abusos de um homem alcoolizado e desconhecido quando adolescente. Esse homem é José Miguel São Romão (William Levy), que, sentindo-se culpado pela atrocidade que cometeu no passado, tornou-se um psiquiatra comprometido em ajudar jovens em estado de risco e abandono.

Logo no início da história, um acaso aproxima os dois protagonistas, que se tornam amigos e se apaixonam sem saberem do elo que os une. Somente após se casar com João Miguel, em plena noite de núpcias, Malu se dá conta de que é seu próprio marido o homem que abusou dela no passado, decidindo, portanto, separar-se dele – mas perdoando-o posteriormente e vivendo feliz para sempre ao lado de João Miguel.

A título de curiosidade, Cuidado com o Anjo é adaptação de uma trama venezuelana dos anos 1970, Una Muchacha Llamada Milagros (Uma Moça Chamada Milagros) – onde, de fato, a mocinha é literalmente estuprada pelo galã, e não ‘apenas’ abusada. Houve, portanto, a preocupação da Televisa em atenuar a violência sofrida por Malu na nova versão.

Mesmo assim, chegava a ser enojante ouvir personagens como o padre Anselmo (Miguel Córcega / Héctor Gómez) incentivar a heroína a perdoar o marido-agressor porque, afinal, ele não havia feito ‘nada tão grave’ contra ela…

Ana Paula (Ana Brenda Contreras) chegou a ser chicoteada por seu ‘grande amor’ em A Que Não Podia Amar (Reprodução / Televisa)

A Que Não Podia Amar

A atual novela mexicana do SBT apresenta, talvez, um dos casos mais graves de romantização de relações abusivas. Ana Paula (Ana Brenda Contreras) conheceu o violento fazendeiro Rogério (Jorge Salinas) ao aceitar um emprego de enfermeira junto a ele, paralítico e confinado a uma cadeira de rodas.

Apaixonado pela jovem, Rogério arma um plano para amarrá-la a si. Primeiro, faz o irmão dela, Miguel (Osvaldo Benavides), ser preso por um crime que não cometeu. Em seguida, aproveitando-se da escassa condição financeira de Paula, promete pagar um bom advogado para o rapaz em troca de ela se casar com ele, mediante um acordo legal repleto de cláusulas absurdas.

Mesmo vivendo praticamente como prisioneira na fazenda de Rogério, Ana Paula aos poucos vão percebendo que o marido não é tão ruim como parece e se apaixona por ele – mesmo ciente de parte do sogo sujo armado por ele para fazê-la sua mulher perante a lei. Ela chega a desprezar o amor de Gustavo (José Ron), que sempre lhe brindou seu máximo respeito e proteção, para se entregar ao homem que a ‘comprou’ como se fosse um objeto.

Engana-se, porém, quem pensa que a relação dos protagonistas passa, a partir daí, a ser um mar de rosas. Muito pelo contrário: em certo momento, com ciúmes de Gustavo, Rogério tenta agredir Paula com um chicote, e só não o faz porque o filho do casal, Marquinho (Juan Bernardo Flores), o impede. Em outra, chega a literalmente golpear Paula com a mesma ferramenta, ‘por acidente’ – a violência era dirigida a outra pessoa.

Mas, claro, tudo isso é perdoado em nome do ‘verdadeiro amor’. Num contexto social como o atual, onde mulheres são agredidas todos os dias por seus companheiros, seria este um bom exemplo?

Estupro chegou a enlouquecer Cacilda (Érika Buenfil) em Mar de Amor

Mar de Amor

No caso desta novela de 2009, a situação de abuso não envolve a protagonista, mas sim a mãe dela, em uma trama secundária. Cacilda (Érika Buenfil) enlouqueceu após ser estuprada por Guilhermo Bricenho (Juan Ferrara), um homem rico da região onde vive. Dessa violência nasceu Estrela (Zuria Vega), sua única filha.

No decorrer da trama, um tratamento psiquiátrico faz com que Cacilda recupere a razão. Com sua saúde mental restabelecida, ela se sente pronta para começar um novo romance… Com ninguém menos que Guilhermo, o homem que a violentou no passado e a levou à loucura! Dá para ser mais absurdo?

Mônica (Edith González) era prisioneira do próprio marido em Coração Selvagem (Divulgação / Televisa)

Coração Selvagem

Esta história de época, ambientada no Golfo do México do início do século XIX (19), é considerada um dos maiores clássicos da literatura, cinema e TV mexicanos, já tendo ganhando diversas adaptações para telenovela. A que o Brasil conheceu data de 1993 e já foi ao ar duas vezes, pela CNT e pelo SBT – esta última, em 2001.

A história tem por figura principal a figura de João do Diabo (Eduardo Palomo), um pirata sedutor que se envolve com uma jovem refinada, Aimée (Ana Colchero), sem saber que ela está de casamento marcado com o milionário André Alcazar (Ariel López Padilla). Quando o affair de Aimée está prestes a ser descoberto, sua irmã Mônica (Edith González) se sacrifica por ela, assumindo-se amante do pirata perante seu cunhado.

Querendo se vingar de Aimée e da família dela, João do Diabo aproveita-se da situação para forçar Mônica a casar-se com ele, levando-a para longe de todos a quem ama. Porém, novamente a síndrome de Estocolmo interfere ‘a favor’ do casal, e Mônica percebe que, apesar de maltratá-la um pouquinho, João não é tão ‘do diabo’ como parece…

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